A BAGAGEM CINÉFILA DE QUENTIN TARANTINO

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Talvez um dos pontos fundamentais na vida de um artista seja o descobrimento do seu olhar, a criação do seu estilo. As distintas características de um artista aparecem como pontos importantes que podem representar seu sucesso.

Entre os nomes que compõe o cenário cinematográfico pós-moderno, e possivelmente o que possui maior destaque internacional seja Quentin Tarantino. O diretor une a subversão de gênero, a cultura pop e a violência em enredos que proporcionam tanto uma reflexão em relação à sociedade quanto um maior interesse comercial por filmes independentes por parte de atores, produtores e espectadores.

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Pulp Fiction

Diferente de Truffaut e os demais enfants da Nouvelle Vague, Quentin Tarantino não passou pela fase do texto escrito, da crítica de cinema. É um cineasta que cresceu nas imagens, e a elas se entregou por completo.

No que se refere à criação de um estilo pessoal, é possível comparar Tarantino aos realizadores admirados pela cinefilia francesa como Alfred Hitchcock e Howard Hawks. Ainda que as obras desses diretores sejam diferentes entre si, é possível identificar um estilo autoral, influenciado tanto pelo cinema clássico norte-americano, na sua capacidade de contar uma boa história, quanto pelo cinema moderno de Godard e Leone em seu cuidado com a expressividade dos planos. Contudo, existe algo diferenciado no estilo de Tarantino que não diz respeito apenas à atenção dada ao cinema como linguagem, mas à atenção dada ao cinema através do excesso de citações à história dessa linguagem.

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Django Livre (Tarantino)

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Por um punhado de dólares (Sergio Leone)

Se muitas vezes Alfred Hitchcock, principal realizador da cinefilia francesa, parecia mais interessado em explorar o psicológico de seus personagens por meio da construção e da montagem dos planos, do que em contar uma história de suspense, a motivação maior de Tarantino é exibir seu profundo conhecimento de cinema.  A filmografia de Tarantino é rica em referências que nos surpreendem pela habilidade do diretor em dominar subgêneros como o exploitation, kung fu, western spaghetti, etc.

Seu estilo, do qual o exibicionismo cinéfilo é sua parte fundamental, dirige-se tanto ao conhecimento erudito quanto ao prazer descompromissado.

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Kill Bill (Tarantino)

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Jogo da Morte (Bruce Lee)

Kill Bill

Kill Bill foi um filme pensado originalmente como um só, mas acabou dividido em dois volumes (2003 e 2004). A oposição entre oriente e ocidente é representada por referências cinematográficas de ambos os lados. O western é simulado com som e imagem. Os movimentos de câmeras remetem ao classicismo de John Ford, mas principalmente ao tom imagético dos westerns spaghetti de Sergio Leone unido a uma trilha sonora que reverencia Ennio Morricone. Porém, a referência sobre os westerns não está sozinha, e sim unida aos filmes de artes marciais, à lembrança de Bruce Lee, aos animes, videogames, e a personagens de série de TV (como Kato, o coadjuvante de Besouro Verde).

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Kill Bill

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Mortal Kombat

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Vilão de Kill Bill e Kato

Cães de Aluguel

As cenas de bate papo no interior de um automóvel ou em uma lanchonete entre duas ou mais pessoas predomina em quase todos os roteiros de Tarantino. Pela persistência com que os personagens discutem os assuntos, geralmente sobre um gosto pessoal que se refere ao próprio diretor, as cenas podem se alongar por páginas e mais páginas fazendo com que o próprio assunto das converses se torne o principal sustentáculo da cena.

Uma  discussão entre os personagens abre Cães de Aluguel, antecedendo todas as outras que  serão travadas durante  o filme:  Mr. Brown (Quentin Tarantino) e Mr.Pink (Steve Buscemi) quase brigam para ver quem tem razão sobre o real significado da canção Like  a Virgin, de Madonna.  Logo em seguida, os demais componentes do grupo de  assaltantes começam  a  falar  compulsivamente,  tentando chegar a  um acordo a respeito da necessidade de se deixar ou não uma gorjeta para a garçonete.

Cães de Aluguel possui cenas do cotidiano, é repleto de referências a cultura pop, a música, ao consumo. É uma combinação de uma situação típica do gênero de crime com elementos próprios do banal. Logo, essa situação híbrida sofre uma reviravolta repentina, causada pelo acaso, que detém o avanço lógico da trama, para criar um aparente hiper realismo que rapidamente passa a ser absurdo e irreal.

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Cães de aluguel

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Cães de aluguel

Pulp Fiction

As cenas de cotidiano em Pulp Fiction e o prolongamento dos tempos dos personagens, funcionam como quebra de situações típicos de um filme de crime.  As cenas são constituídas principalmente por hábitos de baixo custo acessíveis à maioria da população: escutar música, ver televisão, comer em fast-food, consumir maconha.

Ao gênero de crime e às cenas do cotidiano, Tarantino acrescenta momentos de extrema violência, sexo e drogas, que geralmente chocam o espectador. Momentos que, graças à paródia e ao humor negro, causam emoções contraditórias e freqüentemente simultâneas, como o horror e o riso.

Quando Mia está sofrendo uma overdose de heroína, Tarantino torna lento os momentos anteriores à injeção de adrenalina no coração: a cena faz referência à filmes de terror, mais especificamente as produções italianas sangrentas de zumbis que o diretor admira.

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Pulp Fiction

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Paura nella città dei morti viventi

À prova de Morte

Longa lançado ao lado de Planeta Terror, de Robert Rodriguez, para o projeto Grindhouse. O espetáculo é o cinema de grindhouse e seus filmes que tendem para o absurdo, para o exploitation, sucesso do cinema barato na década de 1970 nos Estados Unidos.

Bastardos Inglórios

A preocupação de Tarantino, que estabeleceu sua carreira a partir dos anos 1990 parece ganhar mais um traço característico em 2009 com “Bastardos Inglórios”: a da vingança histórica.

“Para tratar da vingança na guerra, recorri ao western spaghetti de Sergio Leone e aos filmes de Ernst Lubitsch e Fritz Lang, que abordam o assunto. Sempre fui fascinado pela guerra, porque ali todos os sentimentos ficam mais exagerados” (TARANTINO, 2009).

Tarantino retorna ao western, mas para introduzi-lo no universo dos filmes de guerra, no qual insinua um clássico confronto entre “índios” (um grupo de soldados americanos) e “pistoleiros” (um grupo de nazistas), ao mesmo tempo em que se apodera do poder metalinguístico do cinema para consumir, na tela, um gênero e sua história.

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Tarantino utiliza inúmeras referências para contar suas histórias, e que geralmente são compostas por enredos simples e corriqueiros. Uma conversa dentro de um carro ou em uma lanchonete ficam extremamente interessantes nas mãos desse excelente diretor. Tarantino é um cinéfilo que sabe exatamente como fazer filmes para outros cinéfilos.

Logo abaixo, um vídeo onde analiso ainda mais as suas obras. Aproveite!

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