Crítica: Em a Casa que Jack Construiu, Lars Von Trier desce literalmente ao inferno em seu filme mais autoral

Poucos diretores teriam tal pretensão ou coragem para tamanha atrocidade artística, A Casa que Jack construiu é brutalmente psicológico, friamente explícito, incomodo e artisticamente belo.

Lars von Trier não é um bom garoto, de certa forma é a “ovelha negra” do cinema contemporâneo, profano, perverso, o mal encarnado por mostrar os lados ocultos e íntimos do ser humano, seus filmes tem sempre o mesmo impacto impressionante e repulsivo, um fator primordial neste novo longa, que reproduz a mente de um psicopata sem poupar seus mais discretos detalhes e motivações.

A Casa que Jack Construiu é um passeio sinistro pela mente de um psicopata chamado Jack e seus desdobramentos e experiências ou “incidentes” como o filme mesmo se propõe a classificar. Jack tem TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e uma particularidade referente ao título do longa, que é o fato de Jack estar sempre buscando construir literalmente uma casa, uma base, estabelecer uma criação genuína e autêntica, frustrando-se sempre por só se reconhecer na destruição, ou no caso, nos assassinatos de suas vítimas.

Brutal e sádico como sempre, neste trabalho Lars parece mais afoito a cutucar o público e refletir a si mesmo no papel de Jack, no culto crítico a sua obra e na fascinação pelo grotesco que o tornaram tão famoso e polêmico. Von Trier parece encontrar este caminho e usa de cinismo para retratar isso em muitos momentos, inclusive quando se refere a si mesmo e todos os seus filmes mostrados em pequenos flashs como “Ícones” em determinado momento. Outro ponto importante do roteiro é o dialogo assumido com o público, pois o longa parece intragável conforme se desenvolve e toma pretensões misóginas que levam a conclusões precipitadas sobre a obra, sobre o diretor e sobre a mensagem, mas é aí que a narrativa é inteligente, revelando-se uma grande farsa ao questionar os motivos de Jack com estas histórias e também sua visão deturbada e pouco criativa das vítimas que praticamente clamaram para serem mortas, uma decisão de roteiro irônica mas ao mesmo tempo palatável para digerir tamanha monstruosidade.

Entre as diversas camadas do longa, uma pode ou não ser percebida logo em seus primeiros segundos, que é a relação entre Jack e Virgílio, um diálogo que permeia o longa através de uma narrativa em off, mas que de acordo com sua referência cultural, já pode ter sido um bom gatilho de entendimento do que está por vir. Virgílio é o “guia” de Dante Alighieri em A Divina Comédia, obra consagrada do poeta Italiano que retratava em detalhes sua visão do pecado, da morte e os caminhos penitentes da alma até o mais profundo sofrimento, o Inferno de Dante como também é conhecido, é a principal referência criativa e imaginativa utilizada na religião inclusive.

Jack não é um criador ou um construtor, Jack é a destruição, a frustração por ser o grotesco, por não sentir emoções e por viver refém de suas obsessões, sua casa nunca poderá ser construída até que Jack aceite sua essência e se concilie com ela.

O final do terceiro ato é fascinante e surreal, claustrofóbico, artístico, belo, pavoroso e extremamente elaborado, uma descida ao inferno rumo a perdição total da alma que só poderia ter alcançado tal efeito nas mãos de um diretor tão fora da caixa quanto Lars Von Trier.

A Casa que Jack Construiu é um filme para um público seleto, com uma estrutura elaborada e um roteiro complexo, cenas muito fortes e impactantes, faz bom uso de uma trilha sonora um tanto debochada, traz uma atuação magnifica e assustadora de Matt Dillon que reflete muito bem a visão de um Diretor vaidoso o suficiente para expor seu próprio ponto de vista sobre como seu trabalho e ele próprio são julgados e interpretados pela sociedade, uma piada debochada e narcisista que se concretiza nos créditos.

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP em Outubro de 2018

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.