Crítica: A Forma da Água flutua em poesia, mas não se decide sobre qual história contar

Compartilhe

Tecendo sensibilidade, Del Toro peca no excesso.

A “Caixa de Pandora” deve ter sido o brinquedo favorito da infância de Guilhermo Del Toro, de onde surgem suas mais bizarras composições de criaturas e a mescla de seus significados, uma vez aberta, a caixa liberta o desconhecido e dá lugar a histórias profundas sobre protagonistas incompreendidos.

A Forma da Água talvez seja a maior surpresa do ano em indicações a prêmios comerciais como Globo de Ouro e mesmo o Oscar, um romance de monstro concorrendo em treze categorias é algo que por si só já demonstra a mudança e maturidade do cinema atual. Sinceramente aposto nas categorias técnicas e na estatueta de Melhor Direção para Guilhermo.

Del Toro é um peixe dentro d’água em seu esquisito mundo, mas aqui especificamente, parece não ter familiaridade com o sentimento que deseja passar, “A Forma da Água” é muito mais forma do que sentimento, existe mais preocupação com as cenas belas do que a construção do amor e ainda existe uma intenção de contar tantas outras histórias em paralelo que ofuscam o sentido principal.

Guilhermo Del Toro e elenco no set de filmagens

Eliza Esposito (Sally Hawkins) é uma mulher de meia idade que trabalha no departamento de limpeza de instalações secretas do governo no turno da noite. Sua vida é totalmente rotineira, ela acorda, toma banho, se masturba, prepara a comida para si e para seu vizinho artista, vai ao cinema semi-falido logo abaixo da casa onde mora e escuta todos os dias, as reclamações familiares de sua companheira de trabalho, Zelda (Octavia Spencer). Tudo muda no momento em que uma nova espécie é trazida em cativeiro para ser estudada e Eliza começa a se comunicar com a criatura e se identificar com suas condições.

A construção de Eliza e sua relação fluida com a água por si só carregam méritos suficientes para gerar a credibilidade que a trama exige, os sonhos flutuantes, a banheira, os ovos cozinhando na água, a chuva, a mise en scène construída para a personagem é tão intensa que não seria errado afirmar que a verdadeira forma da água seja a moça.

Sally Hawkins se entrega em uma atuação tão natural para uma personagem que exige tanto da atriz, começando pela árdua tarefa de se fazer entender por suas expressões, uma vez que Elise é muda, mas que graças a uma boa direção e atuação, comunica exatamente tudo que se passa através do mínimo gesto ou olhar, através de seu figurino, jeito de andar ou até mesmo com a intensidade do sorriso durante a narrativa, Sally é o verdadeiro monstro aqui, mesmo lidando com um roteiro tão instável, se despe literalmente e abraça as situações de tal maneira que nos faz repensar o conceito de ficção em certos momentos.

A direção é infalível em cinematografia e atuação, do primeiro frame ao último, não se passa um segundo sem que uma referência úmida esteja presente em símbolos, como a parede quadriculada logo ao início do filme, lembrando escamas, copos de água, torneiras, lagostas, banheira, chuva e até mesmo as paredes da casa de Elise, tudo remete diretamente a água, ao fundo do mar e a premissa do protagonista, uma paleta de cores singular, ora turva em tons esverdeados, ora límpida em Azul-petróleo, amarelo desbotado aos momentos cômicos e um vermelho escarlate sutil primeiramente e crescente em sedução, coragem e desejo, uma combinação de cores que somada a direção de arte, compõe em imagens, sensações físicas de leveza, agonia, felicidade, apreensão, tesão e amor, o longa poderia ser um filme mudo e ainda assim vidraria olhares apaixonados em sua tela.

Se na direção “Torinho” acerta, no roteiro nem tanto, lhe falta familiaridade com o flerte e, teimosamente, insiste em dar muito espaço para o trivial, algo que funciona na literatura, mas que não alcança o mesmo efeito em um filme de duas horas sobre o relacionamento entre duas espécies e que soa como falta de foco narrativo. O longa apresenta a história de Eliza, mas também se propõe a contar a história de seu vizinho Giles , um artista publicitário vencido pela tecnologia, pincelamos de leve a intervenção Russa na Guerra Espacial que mal justificada em uma pequena frase, tira o mérito do motivo principal e transforma o genial em conveniente, afinal, para que serviria o estudo de uma raça anfíbia na disputa pela corrida espacial?

Outra ponta solta no filme é o modus operand do Agente de Segurança(Michael Shannon), que lidando com uma forma de vida tão rara, opta pela violência para tentar extrair alguma evolução ou resposta da criatura, isto num laboratório cientifico repleto de profissionais dedicados aos estudos de espécies. Outra história inútil é a do próprio agente, alguém que sempre faz o que te induzem a fazer, desde não lavar as mãos depois de usar o mictório para que sua esposa possa sentir o cheiro em suas mãos, até mesmo o vendedor de carros que o conduz com facilidade em sua armadilha de vendas, um personagem que não se decide entre o frio, morno ou quente, foge do maniqueísmo mas não evolui ao ponto de ser relevante para a trama ou para que o expectador o defenda. Ainda temos o dono do cinema falido, o amigo do vizinho, o cara da loja de tortas e a vida pessoal de Zelda. Contando tantas histórias que individualmente são interessantes, mas que fragmentada não agregam nada a trama principal e até mesmo oneram o tempo necessário para que Del Toro nos convencesse deste amor.


Cena do banheiro

Um momento memorável para a história do cinema que ecoará na eternidade, sem dúvida alguma, a cena do banheiro inundado é leve, profunda, fluída e magistral em forma, tom e conteúdo, uma dança de sentimentos explícitos em harmonia, que se desfaz como o acordar de um sonho bom.

Amores impossíveis do cinema

A moça que se apaixona pela fera (A Bela e a Fera), o homem que se apaixona por uma inteligencia artificial em seu celular(Her), o Gorila gigante pela moça loira(King Kong) ou mesmo o jovem Monteccchio e o proibido amor pela filha dos Capulleto(Romeu e Julieta), o cinema já nos proporcionou diversas formas de amores improváveis, construções narrativas entre personagens que fisicamente parecem incompatíveis, mas que percebem no sentimento sincero, a razão primordial de suas vidas, o amor.

Enfim

A Forma da Água é uma poesia visual, sensível e provocativa, mas que não se decide sobre qual história deseja contar e termina por ser previsível e conveniente.

Imagens: Divulgação

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 30 Média: 3.3]

Compartilhe

Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.