A Garota Ocidental (Noces) | Crítica

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Muito se fala das revoluções tecnológicas que vêm acontecendo neste século XXI, e realmente elas transformaram muito as formas de comunicação, entretenimento, trabalho, compras, etc. No entanto, além dalas (e até por causa delas), outras grandes mudanças foram trazidas por este século. Estou me referindo às discussões ativas sobre machismo, sexismo, identidade de gênero, racismo e tantas questões similares. E principalmente como essas questões estão arraigadas em muitas culturas de forma às vezes imperceptível, porém mesmo assim vem sendo abordadas.

Pois é “pisando em ovos” que A Garota Ocidental vem apresentar a jovem Zahira (Lina El Arabi) envolvida em situações que, para nós (ocidentais) parecem banais, mas para uma paquistanesa muçulmana podem ter consequências trágicas. Ela começa num consultório pedindo orientações sobre aborto e isso já carrega uma série de dificuldades: engravidar com 18 anos e sem estar casada é só a primeira delas.

A Garota Ocidental

Zahira é estudante e vive na Bélgica com sua família muçulmana e muito fiel às tradições da terra natal, o Paquistão. Ela mesma segue naturalmente diversos rituais religiosos regularmente. Porém, ao mesmo tempo, a jovem cresceu influenciada pela cultura ocidental que em muitos pontos se choca com as tradições árabes. Isso ficará evidente quando chega a hora de sua família exigir que ela escolha um pretendente paquistanês para se casar em breve. Ai surge o conflito que só vai se intensificando ao longo da trama.

O Roteiro escrito pelo também Diretor Stephan Streker apresenta diálogos muito bem construídos que vão embasar argumentos de ambos os lados da questão, sem cair no maniqueísmo fácil. Tanto as conversas entre os personagens quanto outros elementos narrativos vão dando as pistas necessárias, mas sem tentar explicar em mínimos detalhes (o que é ótimo). Os pontos de virada são encaixados nos momentos certos e intensificam ainda mais a carga dramática enfrentada por Zahira. O ritmo rápido imposto por uma montagem com takes curtos conduz o espectador ao mesmo turbilhão pelo qual a jovem está passando.

A Direção de Fotografia faz uso constante de planos fechados no rosto da protagonista, recurso que além de tentar explorar a intimidade dela, ainda exige que a novata Lina El Arabi seja muito expressiva. Algo que a atriz, que está apenas em seu segundo longa metragem, consegue desempenhar muito bem.

A Garota Ocidental 02

A Garota Ocidental ganhou no Brasil um subtítulo “Entre o coração e a tradição” para reforçar os conflitos vividos por Zahira. A discussão é muito oportuna, em época onde vemos o empoderamento justo e merecido das mulheres, ao mesmo tempo em que tem a sutileza de não ofender as tradições milenares, muitas vezes radicais, onde não casar é uma calamidade para a mulher e para a família. Mais interessante é ver que essa iniciativa vem do próprio Paquistão, país coautor do filme juntamente com Bélgica e França.

 

Trailer:

 

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.