A Número Um | Crítica

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Graças à sua humildade e dedicação, Emmanuelle Blachey (Emmanuelle Devos) tem uma carreira executiva muito bem-sucedida na Trident, a principal empresa de energia da França. Inclusive segundo um dos principais diretores ela tem chances de ser a número quatro da companhia em poucos anos. Além da sólida carreira profissional, ela tem um casamento estável com Gary (John Lynch) e dois filhos, sendo um já adolescente e uma garotinha com cerca de 8 anos. E para completar ela ainda cuida ocasionalmente de seu pai, Henri Blachey (Sami Frey), com o qual tem uma relação de amor e atritos.

Apesar da aparente vida tranquila, Emmanuelle precisa se desdobrar em muitas versões de si mesma para dar conta de ser mãe, esposa, filha e profissional. E terá de se superar como nunca imaginou para enfrentar um desafio que se aproxima.

Sim, essa é mais uma história de mulheres que precisam lidar com todas aquelas versões de si própria e ainda com o machismo da sociedade em que vive. Sim, é uma história declarada de feminismo. E sim, precisamos muito de histórias como essa!

Apesar de dormir poucas horas por noite e enfrentar atritos constantes com os homens que a cercam, ainda assim Emmanuelle tem pleno controle de sua vida. A situação começa a sair de controle quando ela descobre que o CEO da empresa se encontra em estado terminal de doença e a corrida para a presidência está aberta. O turbilhão se inicia quando ela é abordada por um influente grupo feminista liderada pela veterana Adrienne Postel-Devaux (Francine Bergé) e auxiliada por Véra Jacob (Suzanne Clément) a fim de lhe oferecer apoio nessa candidatura. Tão logo Blachey aceita a empreitada, toda aquela vida controlada começa a ruir. Jean Beaumel (Richard Berry) e outros diretores da empresa começam a mostrar suas verdadeiras faces no jogo de poder que está sendo travado.

As Roteiristas Raphaëlle Bacqué, Marion Doussot e Tonie Marshall tiveram muita competência em montar um intrincado quebra-cabeças corporativo em que a executiva se vê infiltrada e onde não se pode confiar em ninguém. As situações ocorridas dentro e fora da empresa criam uma trama bastante realista, objetivo indispensável para se abordar a questão da mulher no meio corporativo. Infelizmente os diálogos superficiais não conseguem aumentar esse viés realista a que o filme se propõe. Com isso, apesar da ótima atuação de Emmanuelle Devos, fica difícil criar sinergia com a protagonista. A Direção de Tonie Marshall é segura no que diz respeito a enquadramentos e planos, mas vacila no momento de exigir mais emoção do elenco.

Independente dessa frieza pelo lado humano, o filme A Número Um traz uma discussão necessária.  Muitos filmes nessa posição caem no lugar-comum de criar protagonistas femininas frágeis e até vitimistas como recurso para angariar compaixão. Aqui Tonie Marshall tem a ousadia de fugir desse clichê e somente colocar personagens fortes. O resultado são mulheres empoderadas e decisoras que cometem erros, sim; porém rapidamente compreendem suas falhas e as corrigem, mesmo indo contra tudo o que o machismo corporativo e social prega.

Coincidência (ou não) A Número Um estreia justamente no dia 08 de Março, Dia Internacional da Mulher. Outra coincidência (ou não) é a estreia na semana pós Oscar, evento que ficou marcado pelas manifestações feministas. Então que seja mais um emblema dessa luta por direitos que, infelizmente, ainda está longe de ser vencida.

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.