Crítica: Subversivo, anarquista e boêmio, A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro é o documentário que você precisa assistir

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“Do tempo em que o jornal não era profissão e sim, um ofício”, “Sem as conversas de esquina, o jornal não existia”, talvez essas duas frases, uma delas dita pelo jornalista José Trajano, definem um pouco da personalidade do polêmico, controverso, boêmio e sedutor Tarso de Castro (1941-1991). O documentário dirigido por Zeca Brito e Léo Garcia, A Vida Extra-Ordinário de Tarso de Casto, traz uma rica compilação de acervos e depoimentos com uma montagem sensível e descontraída que leva o espectador diretamente no íntimo do personagem-título.

O longa traduz na tela os principais momentos da vida e da carreira do jornalista – da vida boemia agitada e rodeada de amigos, mulheres e bebidas, ao processo cultural dos anos 70 e 80, onde Tarso de Castro acabou se tornando um ícone do jornalismo contestatório e irreverente. Tarso Idealizou “O Pasquim”, criou o Folhetim da “Folha de São Paulo”, além de alguns tabloides como o “Enfim” e o “Careta”, e tudo isso é reproduzido e narrado com irreverência e acidez, do jeito Tarso de ser.

A direção acerta em praticamente todas as decisões que tomaram para criar um formato de documentário que representava melhor a personalidade de Castro, as entrevistas são espojadas e se misturam com fotos, imagens de arquivos e também de algumas cenas de filmes nacionais da época, que misturados numa montagem elétrica e assertiva, se tornam pequenos pedaços de ficção dentro de um documentário.

Os depoimentos são divididos em dois formatos, quando há duas ou mais pessoas falando do personagem, normalmente eles estão em um bar, ou em algum restaurante, sempre com alguma bebida alcoólica, desta maneira, os depoimentos não são engessados e a conversa fluem automaticamente com ares de papo de botequim. Já nos depoimentos individuais, as personalidades estão sempre ao telefone, como se tivesse falando com alguém no outro lado da linha, e isso foi uma artimanha de linguagem que a direção adotou, uma maneia de ligar personagens e de chegar as personalidades que não queriam falar sobre ele, como por exemplo, o Ziraldo, e também para chegar mais ao íntimo verdadeiro do jornalismo, já que Tarso vivia falando diariamente ao telefone devido as inúmeras ligações que recebia.

O Pasquim

O acervo do jornal é um outro fator que torna o documentário ainda mais excepcional, as imagens do jornal mostradas no filme, trazem uma reflexão sobre a contextualização social da época, para quem conhecia pouco do conteúdo que era publicado nesse jornal, fica ainda mais excepcionado da existência deste material satírico, ainda mais por ele circular na ditadura militar, em pleno AI-5.

Subversivo, anarquista e boêmio, A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro é um documentário pró jornalismo, um filme apaixonado pela comunicação, assim como o Tarso era pela profissão. A notícia, ela tem que ser buscada no cotidiano, no convívio, nas esquinas e nos bares, é narrar a notícia por um todo e não apenas por uma maneira unilateral, resumindo, uma aula de jornalismo.

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza