Assassinato no Expresso do Oriente | Crítica

Adaptar histórias de livros e quadrinhos para as telonas tem sido um recurso cada vez mais utilizado para oxigenar as ideias de roteiros, trazer estórias empolgantes e, de quebra, satisfazer (ou não) os fãs da obra original. Nesse sentido, o cinema está repleto de casos de sucessos esplendorosos e fracassos homéricos. Prova de que adaptar romances de escritores consagrados não é garantia de acerto, vide inúmeros filmes baseados em livros de Stephen King. Mas se mesmo assim, longas adaptados de literatura podem render boas produções, porque é que praticamente ninguém se arrisca a filmar o vasto universo de Agatha Christie?

A resposta é simples: haja coragem para arriscar a adaptação de obras consagradas como as da Dama do Crime. Não que nunca tenham sido produzidos filmes nesta temática, na verdade existem algumas dezenas de produções sobretudo entre as décadas de 1930 e 1970. Inclusive o próprio Assassinato no Expresso do Oriente teve uma ótima versão dirigida por Sidney Lumet (Doze Homens e uma sentença, Serpico e Um Dia de Cão). Mas a questão é que nos moldes atuais de super-produções, ninguém ainda havia se arriscado a levar os mistérios de Agatha Christie aos cinemas. Coube então ao excêntrico Kenneth Branagh assumir tal tarefa.

A trama é bem fiel ao livro: um trem de luxo que vai da Índia para a Europa fica preso devido à uma avalanche perto de um túnel. Inconformados em ter de esperar por um resgate, os excêntricos passageiros terão de lidar com um misterioso assassinato ocorrido no meio da noite. O culpado se encontra confinado naquele vagão juntamente com os demais passageiros, e somente o exímio detetive Hercule Poirot (Kenneth Branagh) poderá solucionar o caso. Para complicar ainda mais, o crime parece ter ligação direta com o passado de um dos passageiros, Samuel Ratchett (Johnny Depp), e uma rica família que teve seu bebê sequestrado e morto.

O primeiro ponto a se destacar é a bom Roteiro Adaptado de Michael Green que sabe respeitar a trama ao mesmo tempo em que introduz uma narrativa mais dinâmica do que a obra original. Mesmo o uso de flashbacks explicativos não soa didático demais pois é utilizado na medida certa e consegue esclarecer a trama para o público menos intuitivo sem irritar o espectador mais familiarizado com as peripécias do detetive belga.

Um dos aspectos mais deslumbrantes do filme diz respeito à Direção de Arte, que consegue recriar tanto o interior do luxuoso trem quanto os figurinos requintados. Quem já leu alguns livros de Agatha Christie certamente vai se “sentir em casa” com o clima criado pelos ambientes quase claustrofóbicos do vagão. Mérito da excelente Direção de Fotografia de Haris Zambarloukos que soube posicionar as câmeras de forma muito ousada e criativa dentro dos corredores restritos do trem. Com isso a Direção se aproveita das barreiras como portas, divisórias e janelas para incrementar a narrativa e elevar o suspense.

Com um elenco de grandes estrelas do calibre de Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Derek Jacobi e Josh Gad era de se esperar um show de interpretações. Mas isso não acontece! Todos os atores estão bastante comedidos em seus papéis, de modo que nenhum se destaque mais do que os outros e principalmente mais do que Hercule Poirot. Seria este mais um dos exageros de Branagh com holofotes sobre si mesmo? Talvez sim, haja visto que isso é algo recorrente na filmografia do diretor e ator. Mas o fato é que neste caso, o roteiro egocêntrico sobre o protagonista funciona bem, afinal quem no universo da literatura é mais egocêntrico do que Hercule Poirot?

Nesse sentido a Direção de Kenneth Branagh, que poderia mais uma vez ser considerada prepotente, se incorpora perfeitamente ao excêntrico detetive de longos bigodes para compor uma aura romântica que dá fundo a uma investigação dramática. A direção quase teatral de Branagh, com suas influências shakespearianas, promove um vai e vem deslumbrante dos personagens nos estreitos corredores do vagão. Quase como um mini palco onde o diretor-ator desfila toda a arrogância cativante do detetive mais inteligente do mundo!

 

 

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.