Black Mirror – S03 | Crítica

Imagine o que acontece se misturar temos como cultura digital, internet, games, cybercrimes, neurociências, ubiquidade e nanotecnologia, algumas pitadas de teorias de conspiração e um clima de Além da Imaginação. Difícil de imaginar né? Mas isso tudo é Black Mirror !!

A série foi criada em xxxx por Charlie Brooker, produzida inicialmente pela Endemol e distribuída pela Netflix. Apesar de empresas grandes envolvidas a série iniciou-se timidamente, com apenas 3 episódios por temporada. Os episódios são independentes e a única relação entre eles é o tema: todos são envoltos em situações com tecnologias futuristas que já são plenamente viáveis ou estão muito próximo disso. A questão é que a utilização destas tecnologias e recursos está bem longe das promessas de bonança e progresso que elas prometem trazer.

Então, caro cinéfilo, se você não assistiu as temporadas anteriores, não tem problema em começar aqui pela terceira. São 5 episódios de 60 minutos e o último com 90 minutos de duração. Confira a seguir cada um deles.

Nosedive
Todos estão obcecados por um App de avaliações pessoais, na verdade o mundo praticamente gira em torno disso (Alguma novidade aqui?). Lacie (Bryce Dallas Howard) é uma mulher que está em ascensão nessa hierarquia (seu score está em 4,2 de um total de 5) e tem a oportunidade de obter muitas avaliações de figurões 4,8 ao ser convidada para um casamento da elite.

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A estética desse episódio lembra muito a direção de arte do Tim Burton com aquelas cenografias hiper-realistas. Na verdade o mundo todo está artificialmente gentil, já que as pessoas se esforçam o tempo todo para serem educadas e receberem boas avaliações em todos os lugares por onde passam. E isso é imprescindível, já que o score praticamente define as classes sociais, influenciando os lugares, empregos, entretenimentos e moradias que os indivíduos podem usufruir. Entretanto essa busca por scores pessoais crescentes é um caminho delicado, que pode desabar por qualquer deslize.

A crítica às interações humanas em tempos de redes sociais é explícita e exagerada justamente para evidenciar as pequenas hipocrisias sociais a que nos submetemos diariamente para ganhar um Like. O maior medo de qualquer cidadão é ter um score abaixo de 4. Quem se lembra da polêmica do App Lulu há cerca de 3 anos verá que a temática aqui não tem nada de ficção.

Playtest
Cooper (Wyatt Russell) é um mochileiro americano que está circulando o mundo para fugir de seus relacionamentos familiares e tem a oportunidade de se inscrever num teste de jogo do maior produtor de games do mundo. Como ele vem pegando pequenos bicos para ganhar dinheiro, o teste lhe parece uma boa oportunidade. O desafio que ele irá enfrentar é um jogo de realidade virtual que se passa em uma mansão sinistra. Um dispositivo instalado em sua medula consegue investigar seu cérebro para descobrir seus piores medos e então simular através da realidade aumentada. Nada muito diferente de Pokemon Go.

Este episódio abusou bastante dos clichês do gênero terror e sobrevivência e criou situações razoavelmente óbvias. Por isso acabou sendo mais fraco e previsível que os demais. A direção de arte, fotografia e efeitos especiais são muito bons,mas não conseguiram compensar o roteiro pobre. Embora a RV não possa afetar fisicamente o personagem, poderia ter sido melhor explorado o aspecto neurocientífico, investigando mais a fundo as reações do cérebro a estímulos hiper-reais.

Shut Up and Dance
Algumas pessoas tem seus computadores infectados por um spyware que fornece todas as informações armazenas para o criador do malware. De posse destes segredos, o cracker passa a chantageá-las, obrigando-as a realizar estranhas tarefas para não divulgar os conteúdos constrangedores de cada um.

O adolescente Kenny (Alex Lawther) tenta limpar seu notebook após a irmã travá-lo, mas um trojan acaba instalando o vírus. Com isso a câmera é acionada remotamente enquanto o jovem assiste alguma pornografia pela web e se masturba tranquilmente. Pouco tempo depois ele recebe uma mensagem anônima lhe dando ordens como em uma gincana. Para não ter seu vídeo divulgado Kenny tem que se envolver em situações difíceis e até criminosas.

Este episódio é um dos mais apreensivos, pois tudo aqui é perfeitamente possível. Não há nada de tecnologias futuristas, apenas engenharia social praticada após a invasão do computador. Além disso é ritmo é intenso e a atuação dos personagens muito convincente.

A principal crítica aqui é sobre como as pessoas se preocupam imensamente com sua privacidade e intimidade ao mesmo tempo em que compartilha conteúdos vazados de estranhos que circulam por WhatsApp e similares.

San Junipero
Uma cidade litorânea requentada por jovens em busca de diversão é o palco desse episódio. Kelly (Gugu Mbatha-Raw) e Yorkie (Mackenzie Davis) se encontram pela primeira vez em uma casa noturna e daí em diante outros encontros inusitados irão acontecer.

Este episódio transita no limite entre alguma espiritualidade e assuntos conceitualmente futuristas, como a exteligência e a transferência da consciência humana para mídias digitais. Aqui isso é possível graças a um programa de terapia nostálgico imersiva. Também lida com assuntos delicados como eutanásia, morte e pós-morte, além da crítica a asilos para idosos.

O elemento tecnológico que dá background a esse episódio é o mais futurista e conceitualmente complexo. Por isso ele vai sendo introduzido e explicado aos poucos, criando um ritmo mais cadenciado que os demais episódios.
Foi interessante como se utilizou a direção de arte, figurino e trilha sonora para situar a história em diferentes blocos temporais. Somos convidados a descobrir em que ano as personagens estão interagindo através das músicas e videogames que estão sendo jogados.

Men Against Fire
Stripe (Malachi Kirby) está em sua primeira missão contra um inimigo denominado “Baratas”. Após abater dois indivíduos aparentemente mutantes, ele começa a ter sensações estranhas e precisa ser encaminhado ao atendimento psicológico. Lá ele vai descobrir que nem tudo é o que parece ser.

A temática aqui não é nova, já foi utilizada exaustivamente em história de futuros distópicos onde se pratica o controle populacional através da segregação e da eugenia. A crítica social, sobretudo em tempos de refugiados buscando a Europa, é válida e nos az pensar sobre estas atitudes. No entanto o desfecho do episódio é previsível e acaba sendo revelado num timming equivocado, daí boa parte do episódio só serve mesmo pra “cumprir tabela” e completar o tempo.

Hated in the Nation
A detetive Karin (Kelly Macdonald)inicia uma investigação sobre a morte de uma jornalista polêmica que começou a sofrer ameaças no Twitter. Logo recebe auxílio de Blue (Faye Marsay), sua assistente especializada em segurança da informação e cybercrimes. Quando estão prestes a apresentar queixa contra o marido da jornalista, outras mortes similares começam a aparecer.

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Um sistema que criou abelhas drone com inteligência artificial para substituir as abelhas em extinção parece ter ligação com as estranhas mortes. A perseguição das vítimas no Twitter com a hashtag #DeathTo também tem implicações sérias nos crimes. Mas como ligar todas estas evidências?

Talvez por ter mais tempo e aprofundar mais o roteiro, esse episódio é o mais rico de todos. A trama é complexa e recheada de elementos tecnológicos de investigação forense no ambiente digital. O ritmo é acelerado e muitos plot-twists bem colocados criam suspense até o último minuto. Quem entende um pouco de segurança da informação e cybercrimes vai se deslumbrar com os insights da assistente hacker e os planos do criminoso que crackeou o sistema.

A grande sacada de Black Mirror é mostrar a tecnologia de uma forma pouco explorada. Não temos aqueles recursos hiper futurísticos no estilo Philip K. Dick, nem realidades super positivas ou mesmo distopias tecnológicas e caóticas. Tudo o que nos é mostrado na série já existe em fase de beta-test ou em modelos conceituais, ou seja, são tecnologias muito próximos de nossa realidade. Isso é o que causa mais apreensão, pois em quase todas as histórias estes recursos são utilizados de formas anti éticas ou mesmo criminosas. Outro aspecto da série é escancarar a maneira insana como as pessoas estão lidando com a tecnologia, fazendo decair as relações humanas ao mesmo tempo em que se valoriza exponencialmente a imagem pessoal criada nos ambiente digitais.

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.