Crítica | Black Mirror S05 deixou o high-tech como pano de fundo para questões sociais

Black Mirror já se consagrou como uma antologia de episódios pseudo-futuristas envolvendo tecnologias e situações que bem próximas de se tornarem realidade. Com isso os fãs já aguardam ansiosamente a cada nova temporada. Comprada pela Netflix em setembro de 2015, a série inglesa criada por Charlie Brooker ganhou alguma regularidade de lançamento, mas não tanto em consistência. Após uma inter-temporada (Bandersnatch) que abusou de recursos tecnológicos e interatividade, a quinta temporada vem com apenas três episódios e um foco maior nas questões e críticas sociais, colocando a tecnologia voraz como pano de fundo para as histórias.

 

Striking Vipers

Os amigos de infância Danny (Anthony Mackie) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II) se reencontram após muitos anos de distanciamento. E para relembrar os bons tempos, Karl presenteia Danny com Striking Vipers, uma nova versão do game de luta que eles mais curtiam quando crianças. Inicialmente Danny não se importa muito com o presente, afinal está sobrecarregado com as responsabilidades da vida adulta e passando por uma fase delicada no casamento com Theo (Nicole Beharie).

No entanto, graças ao marasmo em sua vida, Danny decido testar o jogo, mesmo não estando familiarizado com os novos games multiplayer online. Aqui entra o mote de Black Mirror, pois o jogo possui um dispositivo de conexão neural que proporciona imersão cognitiva total do jogador. Dessa forma o game se mostra como uma versão ultra high tech do clássico Street Fighter. A primeira luta entre os amigos vem coberta de boas recordações. Mas logo eles irão descobrir que a simulação de realidade hiper fiel pode proporcionar outras experiências.

Aqui a tecnologia funciona muito mais como um pano de fundo para abordar não só a relação de gamers com seus “brinquedos”, mas também trazer à tona discussão sobre sexualidade. Embora sejam questões interessantes, acabaram ficando num nível muito superficial. Uma das coisas interessantes desse episódio é que ele foi gravado em diversas locações da cidade de São Paulo. Para os paulistanos existe a diversão extra de ficar descobrindo os locais.

 

Smithereens

Mais um episódio em que a tecnologia está por trás de discussões sobre o uso de redes sociais. Essa questão foi abordada em Nosedive da terceira temporada de uma forma nada sutil, o que faz com este episódio aqui seja mais morno. Não que a história seja ruim, até que é bem elaborada com bons pontos de virada, mas ela simplesmente ficou distante da temática hjgh tech característica de Black Mirror.

Chris (Andrew Scott) é um motorista de aplicativo que parece estar passando por dificuldades emocionais. Logo descobrimos que ele planeja sequestrar um funcionário de alto escalão da empresa Smithereens, a qual nada mais é que uma referência escancarada ao Facebook. O objetivo de Chris é fazer chantagem para conseguir conversar diretamente com Billy Bauer, o criador e CEO da rede, aqui no episódio um misto de Mark Zuckerberg com Steve Jobs.

A trama se desenrola com uma série de viradas criativas, as quais fazem o espectador ficar especulando sobre o que vem a seguir. Obviamente as redes sociais estão bombando com o sequestro sendo mostrado ao vivo por dois adolescentes grudados em seus smartphones. Tem umas sacadas bem interessantes sobre os diretores da Smithereens obterem informações muito antes da polícia. Infelizmente o final é um tanto previsível e vazio.

 

Rachel, Jack and Ashley Too

Este episódio provocou algum hype nas redes sociais (do mundo real) devido à participação de Miley Cyrus como a personagem principal Ashley O. A garota é uma pop star totalmente fabricada pela empresária Catherine (Susan Pourfar) e se mostra infeliz por ser manipulada dessa forma. Crítica óbvia e rasa à indústria da música, mas totalmente inofensiva.

No embalo do sucesso da cantora é lançada uma boneca-robô de Ashley com inteligência artificial que promete ser a companheira perfeita para as fãs da pop star. Aqui entra em cena a adolescente carente Rachel (Angourie Rice) que acaba ficando totalmente dependente da “amizade” com a robô. Com isso a irmã mais velha, Jack (Madison Davenport), descobre que, na verdade, a consciência de Ashley foi transferida para a boneca, porém com um limitador de modo que ela não se revele completamente. Esse acaba sendo o plot para que as irmãs (agora unidas) entrem numa jornada para salvar a cantora que está em coma induzido.

 

Como dito no início, a tecnologia avançada se mostra presente em todos os episódios, inclusive com algumas boas sacadas. Mas nessa temporada não passaram de um pano de fundo. Para os espectadores que sentem medo daqueles recursos tecnológicos avassaladores dos episódios anteriores, fica um bom entretenimento light. Já para os fãs de Black Mirror que esperam a tecnologia hardcore assolando a vida das pessoas, foi um pouco decepcionante.

 

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.