Crítica | Emocionante, Bohemian Rhapsody faz jus a importância da RAINHA de todas as bandas

Nascido na Cidade da Pedra, em Tanzânia (na época se chamava Zanzibar), Farrokh Bulsara mudou-se para a Inglaterra com sua família aos 17 anos. Filho de Jer Bulsara Bomi Bulsara, Farrokh, que adotou posteriormente o nome artístico de Freddie Mercury, trabalhava no setor de carregamento de bagagens em uma companhia aérea. Chame de destino ou do que quiser, mas Farrokh estava no Pub certo e no momento certo quando conheceu o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, da banda Smile e, em um curto diálogo entre eles, naquele momento, estava surgindo umas das bandas de rock mais inventivas e importantes de todos os tempos, QUEEN. Que depois ganhou mais um integrante, o baixista John Deacon.

O roteiro é propicio a emoção, principalmente pela identificação e afinidade com seu público, Bohemian Rhapsody foca em seu protagonista, explora facetas e momentos de Freddie Mercury, mas também exalta de modo exuberante a banda como um todo, o Queen rompeu barreiras e ousou, revolucionou e emocionou. Existe um risco enorme em uma produção como esta, afinal lidar com algo tão emocional e real, destinado aos fãs que conhecem a história e já vão prontos para “fiscalizar” a obra, não é tarefa das mais simples, é perceptível o embasamento e o comprometimento com a produção e isso se reflete em uma excelente montagem na edição de som, que não poderia falhar de jeito nenhum, nos figurinos e nas recriações perfeccionistas de apresentações da banda, como o Live Aid, isso sem falar nas monstruosas atuações, especialmente Rami Malek, que parece realmente estar incorporado por Freddie em seus mínimos detalhes e trejeitos, uma performance que vai crescendo com o tempo até a sua redenção em “We Are Champions”, digna de aplausos em pé.

A direção não se aprofunda em mostrar as dificuldades e discussões da banda, conflitos necessários que sustentam um roteiro, quem espera uma exploração mais profunda e reveladora da banda e de seu líder pode se decepcionar um pouco, aqui, tudo é apresentado com rapidez, e a ascensão da banda, as primeiras gravações, as primeiras turnês vão sendo contadas de forma linear e meteórica, o que deixa tudo mais dinâmico, e a conexão do espectador com o filme surge rapidamente, principalmente quando a narrativa apresenta o desenvolvimento criativo de músicas como Love Of My LifeSomebody to Love, We Are The Champions, Under Pressure, We Will Rock You, I Want Break Free e a música que definitivamente colocou a banda um um outro patamar, Bohemian Rhapsody.

 

Bohemian Rhapsody: A liberdade criativa de Queen

A sensação de estar presente no momento histórico de uma banda deste porte é arrepiante e recompensador, poder acompanhar o nascimento da canção Bohemian Rhapsody e toda a importância dela para o futuro de Queen é um presente para os fãs. Presenciamos aqui o nascimento de algo totalmente genuíno e novo, desde as primeiras partituras que Mercury tocou em um piano até a composição dos hits que mesclavam ópera e hard rock e, como a banda toda estava sintonizada com aquilo, participando efetivamente nota por nota. Mas seus seis minutos de duração e sua melodia geraram discussões que mudariam de vez o patamar da banda, além de ganharem a “liberdade criativa”.

Love Of My Life, Brasil e a sexualidade de Mercury

Inspirada em Mary Austin (Lucy Boyton), a mulher que Freddie mais amou, a música Love of My Life representa um capítulo importante na trama, delicado e libertador, onde Mercury assume para si e para sua esposa sua sexualidade, uma cena que é reforçada por dois elementos importantes, o primeiro tem a ver com o Brasil e a surpresa de Freddie ao encontrar seu maior público em um único show, um público estrangeiro que não dominava seu idioma cantando a plenos pulmões seus versos, para ele, aquilo era comovente e inspirador. O segundo elemento é a própria música cantada no Rio de Janeiro, sendo utilizada ao fundo em uma cena com Mary, reforçando ali, o amor, a liberdade e a gratidão. Vale ressaltar o bom trabalho da atriz, principalmente nos arcos mais dramáticos entre ela e Rami.  

Além disso, foi bacana de ver em tela que um show no Brasil, em 1981, teve um contexto importante para o roteiro do filme, além dessa conexão de Mercury com Mary, Mercury ficou impressionado com a quantidade de pessoas e principalmente de ver um público não inglês cantar em coro sua canção. Muitos não sabem, acredito que nem mesmo o roteirista, mas o Brasil nessa época não era roteiro de grandes shows e esse show do Queen foi um marco importante para colocar definitivamente o país no roteiro das grandes bandas.

 

Vida longa às atuações

Dando destaque para Rami Malek, como já citado, o longa performa e exige muito de sua atuação, que ora convence perfeitamente, mas que sofre algumas quedas em pequenos momentos, talvez pela falta de referência para momentos mais reservados do cantor ou mesmo pelas opções que o roteiro apresenta. E é ai que o restante do elenco mostra sua força, quando o trio Brian May (Gwilym Lee), John Deacon (Joseph Mazzello) e Roger Taylor (Ben Hardy) estão em cena mostrando o relacionamento do grupo e seus embates, a narrativa é sustentada com grande comprometimento de todos, o trio funcionava como uma espécie de motor para Malek e toda vez que o quarteto estavam em cena, o filme brilhava.

 

Recriação dos shows

Live Aid

Talvez a recriação do show do Queen no Live Aid pode parecer um tanto preguiçosa, até porque, coreografar e copiar detalhes para a produção, não parecia ser algo tão difícil. Mas essa recriação vai além desses detalhes técnicos que realmente foram fantásticos em toda a sua concepção, com os incríveis planos sequências, posicionamentos de câmeras e os efeitos especiais da plateia conseguem reproduzir a sensação de entrar no Estádio de Wenbley.

A apresentação do quarteto no Live Aid tem um contexto muito significativo na história, pequenos gestos de cada integrante durante o show tem uma carga de significados, desde a conexão definitiva de Mercury com os pais ao alívio e a certeza de todos ali que Queen era muito maior do que eles imaginavam, os vinte minutos de show fizeram o quarteto entender de vez a importância do que eles representavam para a música. Regentes, Malek e cia conseguem trazer toda sintonia e energia desse saudoso momento para as telas.

Bohemian Rhapsody é uma cinebiografia grandiosa que reconstitui dignamente cenas reais e emotivas, o longa talvez não alcance o nível de outra biografia musical lançada em 198, da banda The Doors, que levou às telas a carreira de Jim Morrison dirigido por Oliver Stone e genialmente protagonizado por Val Kilmer. Mas Bohemian emociona, faz você chorar em cada trecho e em cada drama de Mercury, levando o espectador a uma viagem musical inesquecível

Por fim, Bohemian Rhapsody é emocionante, gratificante e atemporal, um presente aos fãs e um convite a nova geração. Vida longa à Rainha!

 

Dica: se tiver a chance assiste o filme em IMAX a experiência é muito boa!

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza