Crítica | Cafarnaum mostra o lado mais cruel e injusto dos excluídos

Sob a coxa esquerda da calça puída de um garoto libanês de apenas doze anos, um pequeno retalho apresenta o escudo do Capitão América, símbolo heroico americano, que permeia a imaginação de crianças em todo o mundo como representação de coragem e justiça, algo propício para o momento em que Zain está vivendo. Em uma fuga de sua casa em um ônibus velho, ele se depara com uma imagem peculiar, uma figura extremamente magra e cinzenta que contrasta com a cidade ao fundo, um pobre senhor que se senta ao seu lado, com um uniforme mal reproduzido do Homem Aranha, estranho, mas significativo o suficiente para que a mente do menino encontre no idoso admiração e esperança, uma salvação de suas provações anteriores, um salvador e um sorriso escapa de Zain, mesmo que por poucos segundos, até o “Senhor Homem-Aranha” confessar-lhe que não era Peter Parker, apenas e no máximo o Homem-Barata.

– Isso, é isso, eu sou o Homem-Barata, disse o senhor.

Aqui já nascemos Mortos

Falando de heróis, inicio este texto sobre a dolorosa jornada de Zain (Zain Al Rafeea), um pequeno herói em um mundo que o despreza, juntamente com tantas outras crianças vítimas da religião, das guerras, das políticas e poderes anti-heróis que os excluem – são crianças vindas ao mundo sem direitos e oportunidades, devastadas em sua existência, nascidas para morrerem.

Nadine Labaki (diretora também de “Caramelo” e “E Agora Onde Vamos?”) apresenta o drama Cafarnaum (Capharnaüm) e, com ele passeia com seus personagens por ruas carentes do Líbano, para mostrar e denunciar uma sociedade cruel, desumana e miserável, onde muitos aproveitadores se beneficiam das leis de uma religião, da pobreza e da fome, para roubar suas crianças, suas infâncias, para vende-las como simples mercadorias. O relato é profundo, os limites humanos aqui são testados a todo momento e o descaso é real, muito real.

Algemados, entram em cena Zain e Rahil (Yordanos Shiferaw). No caso de Zain, um julgamento por um crime que não citarei aqui e um outro processo surpreendente, o garoto está processando seus pais por terem o colocado no mundo, um processo para que eles nunca mais possam ter outro filho, um discurso forte e emotivo, digno de nó na garganta, está cena é o início de um drama carregado e muito bem elaborado entre roteiro, atuações e um ótimo proveito de direção e fotografia.

Intercalando entre o tribunal e flashbacks da história de Zain, a edição constrói uma base para sustentar seu discurso, contando desde os momentos onde o garoto ainda está convivendo com seus pais, suas dificuldades e conflitos, um deles envolvendo sua própria irmã de apenas onze anos, que uma vez “moça” seria entregue (Lê-se vendida) a um homem mais velho em casamento, algo que nosso pequeno protagonista não aceita e repudia veemente, lutando com todas as forças para impedir que sua irmã seja entregue. O desespero desta luta de Zain em vão é uma das cenas mais tocantes do filme. Já na segunda parte, é quando ele encontra Rahil e o seu filho ainda bebê Yonas (Boluwatife Treasure Bankole) e a partir daqui, uma nova jornada de sobrevivência se inicia para Zain.

Zain Al Rafeea não é ator profissional ainda, mas é brilhante, convence e emociona, traz para o personagem toda a intensidade de uma tristeza que o faz incapaz de sorrir, feições impressionantes, que vão das lagrimas à fúria, do garoto indefeso ao herói que sente que precisa ser, protegendo a si mesmo quando tem a sua dignidade ferida.

A fotografia cinzenta ressalta bem o mundo em que vivem, sem vida, sem esperança. Os ângulos filmados nos mostram uma sociedade sobrevivendo à espreita entre vielas apertadas e empoeiradas, barracos amontoados feitos de madeiras, com esgoto ao ar livre, água insalubre que chega a lembrar alguns lugares do Brasil, mas quando a câmera sobrevoa a cidade em belas tomadas aéreas, temos a dimensão da pobreza dentro daquele labirinto estreito e interminável.

Apesar de suas quase duas horas de projeção, Cafarnaum tem algo a dizer e sabe como dizer, sustentando sua trama de maneira dinâmica e interessante, preparando terreno para um final avassalador, um soco seco na boca do estômago quando o monólogo final toma conta, definindo de vez a realidade em que elas vivem, como fomenta um pequeno trecho do texto. “Talvez, filha da puta de merda seja a frase mais amorosa que ouvimos por aqui.”

 

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 3 Média: 5]

Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza