Como a trilha sonora pode contar uma história?

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Por muito tempo, a música aplicada nas produções audiovisuais foi tratada como algo menos importante do realmente é. Era simplesmente vista como um recurso que utilizavam para preencher o vazio sonoro das imagens projetadas na tela.

Essa visão começou a se transformar quando os teóricos e os realizadores dos filmes passaram a perceber que, apesar de ser ainda executada ao vivo, a música já estava presente desde a origem do cinema. O cinema foi mudo, ou seja, totalmente privado de palavras, mas nunca deixou de ser sonoro. Sempre existiram intervenções sonoras, seja por um pianista ou até mesmo uma grande orquestra no momento em que se projetava o filme na tela.

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Quando se tornou possível incorporar o som sincronizado ao filme, na transição das décadas de 1920 e 1930, a música continuou a ser usada no cinema. Introduzidos a fala e os sons do mundo, o cinema poderia ter ignorado tal recurso, mas não o fez.

A trilha sonora diz respeito aos códigos de composição sonora. As músicas, os efeitos sonoros e as vozes intervêm simultaneamente com a imagem visual, e é essa simultaneidade que os integram à linguagem cinematográfica.

Um filme é entendido como uma composição audiovisual complexa, onde sons e imagens não se apresentam como dois conjuntos isolados, mas como uma mensagem única.

A trilha sonora como elemento narrativo

Em muitos casos, esse recurso é utilizado para contribuir com a forma como é contada uma história e o que pretende transmitir. Ele reforça situações, conflitos, locais, épocas, ajudando a identificá-los e caracterizando personagens.

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Donnie Darko utiliza de músicas pop como Duran Duran e Tears for Fears para ambientar a época em que a história se passa.

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Baby Driver utiliza a música para criar uma personalidade para o personagem central.

A música pode se integrar a um diálogo estabelecendo um clima, intenção ou estado emocional. Em muitos casos o espectador não percebe essa informação, logo que a música apenas redunda o que se mostra na cena, porém, muitas vezes ela pode agir em contraposição.

Uma cena violenta pode ser acompanhada por uma música clássica e provocar diferentes sensações no espectador, revelando algo que não é dito, ou mostrado na ação.

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Em Laranja Mecânica, o grupo ataca um casal violentamente ao som de Beethoven.

Os três níveis de escuta

Há inúmeras formas de se trabalhar com a trilha sonora dentro da narrativa. Mas de forma resumida, existem três modos, introduzidos por J. Jota de Moraes, que podemos usar para explicar como ela funciona nas produções fílmicas, são eles: físico, emocional e intelectual.

O modo de percepção física corresponde a uma forma de ouvir com o corpo, onde as propriedades materiais do som entram em destaque: altura, duração, timbre, intensidade, etc. Um exemplo está na trilha sonora composta por Philip Glass para a trilogia Koyaanisqatsi (1983), Powaqqatsi (1988) e Naqoyqatsi (2002), realizada pelo diretor Godfrey Reggio. Essa trilogia não se constitui de filmes narrativos, porém, elas produzem signos e nos mostram como o compositor e o diretor conseguem envolver o espectador com a plasticidade da fusão de som e imagem, contendo ao máximo a necessidade de atribuição de sentido, e deixando o espectador absorvido pela sensação, pelo quase “não-pensar”.

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Koyaanisqatsi.

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Powaqqatsi.

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Naqoyqatsi.

O segundo nível é aquele que está atrelado ao que se mostra na imagem. É a forma como a música trabalha de maneira a se tornar fundo musical que contextualiza a diegese, dirigindo o estado psicológico do espectador para a situação dramática através da emoção, de modo a se ouvir como adjetivo: triste, alegre, etc. Esse modo é muito comum em filmes melodramáticos, onde a emoção sempre está presente em quase todos os momentos.

 

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Her. 

O terceiro modo é um “ouvir intelectualmente”, onde se constitui do chamado “Leitmotiv” (motivo condutor), que é uma técnica introduzida por Richard Wagner em suas óperas, onde um ou mais temas se repetem sempre que se encena uma passagem na ópera relacionada a um personagem ou uma ideia. Um bom exemplo está na trilha criada para o filme Tubarão de Steven Spielberg, onde a música trabalha de tal maneira que a presença física do animal- personagem é completamente dispensável.

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Tubarão.

Efeitos Sonoros

A trilha sonora também é composta pelos efeitos sonoros, e esses também podem se dividir em níveis pra compreendermos melhor a sua função.

No primeiro nível temos o efeito sonoro representando o seu objeto apenas em parte. Esse modo aproxima do efeito que o diretor quer passar para o seu público. Um exemplo está no filme Pássaros, de Alfred Hitchcock, onde foram utilizados sons de violinos para reproduzir o som emitido pelas aves, carregando consigo qualidades sonoras que sublimavam as cenas.

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Pássaros. 

Já o segundo nível dos efeitos sonoros trata-se do som diegético, o qual referencia o espaço físico com a maior fidelidade possível. Este efeito afirma a imagem visual como verossímil e representa o seu objeto da maneira mais completa e realista. São os sons do corpo, como passos dos personagens; os sons naturais tais como os sons da água ou dos animais; ou os sons da sociedade tais como as paisagens sonoras da cidade, os sons mecânicos das máquinas e de equipamentos industriais, etc. É o efeito sonoro mais utilizado por causa da sua capacidade de descrição do espaço da cena, e também pela sua flexibilidade em relação ao campo de visão da câmera, pois pode ser percebido em todo o ambiente da ação ou pode se apresentar por conveniência fora do campo de visão.

O terceiro nível há também o uso de leitmotiv, como já foi explicado antes, sugere a previsibilidade através da pré-audibilidade de um determinado elemento. Nesse sentido, o efeito sonoro dentro da narrativa pode ser usado para criar uma convenção, determinando para um som um significado específico. Para identificar uma ação de um personagem, o efeito sonoro pode trazer consigo a marca de quem está agindo na narrativa naquele momento, ou ainda, atualizar, na memória, uma ideia representada anteriormente no filme. É exemplo deste efeito de identificação e de reconhecimento através do leitmotiv, filmes que tem como tema central assassinos ou serial killers, onde o vilão acaba deixando sua marca, como por exemplo um assovio.

Em M, o vampiro de Dusseldorf, filme de Fritz Lang, o assoviado de um dos personagens acaba entregando quem é o assassino.

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M, o vampiro de Dusseldorf.

A música é um dos recursos mais poderosos e ambíguos da linguagem cinematográfica, exercendo uma série de funções que operam diretamente na narrativa influenciando na forma como apreciamos os filmes.

A percepção do papel das músicas no cinema está diretamente relacionada ao posicionamento delas na narrativa.

Abaixo, um vídeo onde falo um pouco mais sobre a trilha sonora no cinema!

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