Crítica: Arábia: um road movie mineiro e uma mistura sútil de realidade e ficção focada no elemento humano

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Em Arábia, os diretores Affonso Uchôa e João Dumans traçam um retrato político e marginalizado abordando de forma poética e melancólica a vida erradica de um operário que, antes de escrever a sua carta, o mesmo passou um período atrás das grades e, num road movie por Minas Gerais, como um Homem na Estrada recomeçando a sua vida, Cristiano (Aristides de Sousa) busca ao mesmo tempo, recuperar a sua dignidade entre o seu deslize juvenil até os empregos e subempregos que culminam toda a sua jornada.

A narrativa do filme nos instiga da maneira que ela muda radicalmente, a história começa em uma cena em que o jovem André (Murilo Caliari) trafega com sua bicicleta por uma rodovia que corta as montanhas, vento ao rosto, cabelos rebeldes, com sua jaqueta e calça jeans aparentemente envelhecidas e uma música americana ao fundo faz remeter a liberdade. Sem delongas, a narrativa começa a transbordar para o mundo de Cristiano, logo após André encontrar um caderno que Cristiano estava escrevendo a sua vida.

O contraponto inicial entre as cenas de André para as de Cristiano simboliza a distância que existe entre um Brasil em que as pessoas que perdem a sua liberdade, tem uma luta gigantesca pela frente, uma luta diária pela sobrevivência e por migalhas, um retrato dolorido e melancólico, mas real da classe operária brasileira.

Destaca-se também nesse filme o trabalho musical, as aplicações de cada faixa musical apresentada, retratam muito o momento que está sendo narrado em off, através dos textos retirados do caderno de Cristiano, canções como “O Homem na Estrada (Racionais Mc’s)” e Cowboy Fora da Lei (Raul Seixas) condiz com o período em que o protagonista começa seu road movie ao sair da prisão. Como Cristiano se muda constantemente de região e trabalho, outras pessoas e novas situações são apresentadas em sua vida – e cada música escolhida tem uma ligação importante com o momento do protagonista, como por exemplo um dos clássicos de Noel Rosa “Três Apitos”, que no longa foi interpretado por Maria Bethânia, narra justamente o trabalho em uma fábrica e a espera pelo amor, ou mesmo “Raízes”, de Renato Teixeira, que transmite o sentimento de perambular pelas estradas mineiras e as pequenas cidades rurais.

O designer de som é um dos aspectos técnicos que mais chamam atenção nesse filme, como por exemplo, ainda no início do filme, somos atormentados com caos sonoro que a fábrica produz, assim trazendo a sensação de como aquele som acompanha a vida das pessoas, naquele local, um ruído que não cessava em nenhum momento. No final da jornada de Cristiano, onde o protagonista está dentro da fábrica num silêncio absoluto, apenas ouvindo sua respiração, nos faz junto com ele refletir toda a sua caminhada durante o filme.

Toda a trajetória de Cristiano passa uma sensação de melancolia, a forma de como o caderno é apresentado, numa casinha simples, solitária e bagunçada, debaixo de jornais velhos e a escrita sem cuidado algum para evitar os “garranchos” humaniza mais o personagem e, ao mesmo tempo, demonstra toda a sua tristeza.

Arábia é um filme poético, que flerta entre o íntimo e o social, um filme sobre o Homem e sua jornada em busca de sobrevivência, recomeço, liberdade e subjetividade, uma jornada narrada através de um diário, mas que nos traz a sensação de estarmos dentro de um conto literário.

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza