Crítica: Infelizmente Me Chame Pelo Seu Nome não é um filme para todos, mas deveria ser.

Em que momento perdemos a noção do belo, da beleza pura e inocente sobre o ser humano?

Nos primeiros frames já é possível levantar tal questões, figuras helênicas, esculturas gregas retratando grandes homens ou simplesmente a imponência dos corpos, a sensualidade, poder e força, símbolos da masculinidade e segurança de homens de pensamento aberto, da liberdade sobre o que é belo e do desejo sobre todas as coisas, sobre o outro.

Elio (Thimothée Chalamet) é um jovem aspirante a músico, que passa seus verões numa bela casa cercada por uma paisagem italiana digna do ócio apreciativo e da preguiça que lhe é proporcionado. Mas a calmaria é interrompida com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um acadêmico americano que chega para auxiliar e aprender com seu pai em suas pesquisas arqueológicas.

Com uma narrativa insinuante, provocativa e repleta de detalhes e símbolos, “Me Chame Pelo Seu Nome” evolui sem pressa, aliás até sem pressa nenhuma, revelando sem revelar, o desejo contido em seus personagens, mas sempre deixando escancarado seus objetos de desejo, amparados pelas lentes que buscam corpos ensolarados oscilando entre os cultos afazeres e um vazio latente.

Reparem na cena do primeiro café da manhã de Oliver, ao se servir de suco, Elio dá um pequeno gole e devolve o copo à mesa, enquanto o jovem loiro se delicia até o ultimo gole de uma única vez. A cena se repete em um segundo momento, já no terceiro ato e desta vez Elio sacia sua sede com segurança, bebendo todo o líquido num gole, um simbolo claro definindo o menino e o homem, do momento crucial na vida de Elio, que vê em Oliver toda segurança de um mundo que ansiava ter e que lhe provoca a conseguir.

O longa demora a engrenar, focando na rotina de Elio e Oliver, na apresentação dos contextos, dos personagens e das intenções, algo que chega a incomodar o expectador que já está pronto para que a trama lhe entregue o romance entre os dois protagonistas. Mas do fim do segundo até os créditos finais, temos uma bela condução narrativa que podemos definir em alguns adjetivos como: sensível, secreto, intenso, discreto, impulsivo, romântico e provocativo, tudo que um amor de verão deveria conter, partindo da premissa e da certeza que aquilo não vai durar e que sempre uma das partes irá sofrer.

Um ponto mal explorado no filme e que merece destaque é o uso de suas locações, naturalmente belas em arquitetura, cores e mesmo em cenas na natureza, mereciam ângulos e uma fotografia menos contida e mais participante nos sentimentos e momentos de seus personagens.

O poder das atuações:

Armie Hammer: Oliver no inicio parece presunçoso, metido, confiante e sempre com um ar de arrogância, algo que chega a virar piada durante o longa, Elio em determinado momento ressalta o modo como Oliver se despede utilizando o “até logo”(later) de modo superior. Armie entrega esta face que já lhe é comum em seus papéis de galã, mas surpreende ao demonstrar um lado oculto do personagem, e não estamos falando de Oliver ser gay e sim da desconstrução do caçador ao ser ignorado e a inversão dos papéis, a exposição dos sentimentos que brincam entre si, uma atuação pontual em cada fase e que num todo é digna de uma indicação a estatueta dourada com coadjuvante.

Timothée Chalamet: talvez a maior surpresa e revelação dos últimos tempos, Timothée fala cinco idiomas, realmente toca piano e violão e encarna o papel de Elio com tamanha naturalidade que surpreende logo nos primeiros minutos, sua expressão pesarosa e preguiçosa carrega uma carga culta e juvenil ao mesmo tempo, o que espanta ao transbordar em desejos, seja com Marzie (Esther Garrel), seja em seus olhares para Oliver ou mesmo na icônica cena com um pêssego. Um ator para prestar atenção daqui para frente e que merece qualquer reconhecimento que seu trabalho lhe trouxer.

Michael Stuhlbarg e Amira Casar: Os pais de Elio a primeira vista estão ali para dar motivos aos fatos, mas reparem nos olhares, nos gestos e nas trocas entre ambos, tanto o pai, que tem um belíssimo discurso final, quanto a mãe em suas poucas aparições, conferem um consentimento sutil ao filho, dando tempo ao tempo, mas velando suas ações com respeito e amor, um trabalho difícil dado o “segredo” que seus personagens carregam consigo, mas bem executado por atores experientes.

Não é um filme para todo mundo, mas deveria ser!

Um romance gay não deveria ser taxado como algo diferente no gênero, mas ainda é algo que torce narizes e garante comentários tão desnecessários quanto a mentalidade das bocas que as proferem. Abandonando qualquer preconceito, “Me Chame Pelo Seu Nome” traz um delicioso jogo de sedução e desejo, uma descoberta de sentimentos e um espetáculo de atuações num belo cenário italiano.

Elio, Elio, Elio, Elio…Oliver…

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 13 Média: 4.2]

Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.