Crítica: Meu Querido Filho, o olhar de um casal que perdeu seu filho para o terrorismo

Dias antes da prova do vestibular, Sami (Zakaria Ben Ayyed), o filho único de 19 anos de Nazli (Mouna Mejri) e Riadh (Mohamed Dhrif) desaparece de sua casa na Tunísia, deixando apenas um bilhete dizendo que iria viajar para a Síria. Riadh, que fazia de tudo pelo filho, entra em desespero e vai procurá-lo no aeroporto, no psiquiatra, na escola e em outros lugares, até que resolve vender seu carro a fim de viajar para a Síria, pela Turquia, para encontrar seu querido filho e trazê-lo de volta.

E aí, você se pergunta “como assim ele vai atrás do filho sem ter qualquer informação sobre sua localização?!”. A princípio, parece um absurdo, não? No entanto, essa história de pais viajarem à procura dos filhos que resolveram se juntar ao Estado Islâmico, infelizmente, é mais comum do que imaginamos. Assim como o relato, em uma rádio – de um pai que se encontrava nessa situação – que afetou o diretor Mohamed Ben Attia (de “A Amante”) e o inspirou a escrever esta história.
Mas Bem Attia não exibe o terrorismo em sua forma nua e crua, ele está presente de uma maneira delicada, não é o foco aqui. E sim, o impacto dessa escolha de um filho na vida de sua família, que vivia uma vida normal até então, tornando-se uma trama diferente do que estamos habituados.

Todavia, a história, que tinha tudo para ser interessante, acaba cansando o espectador em diversos momentos, especialmente na primeira parte do filme, onde é revelado o dia a dia da família do garoto – uma família comum de classe média, com pais que se dedicam ao filho até mais do que a eles próprios – através de planos longos, calmos e silenciosos. Inicialmente, o que vemos é um drama simples sobre família, sob a perspectiva dos pais de um filho único que está se preparando para o vestibular e que sofre com crises de enxaqueca desde pequeno. Até que, quando parece estar melhor – e quando já nem estamos mais conseguindo permanecer concentrados no filme – o jovem pega as suas coisas e embarca em uma viagem à Síria. É aí que a narrativa ganha um novo e intrigante rumo.

Logo de cara, podemos pensar na hipótese de ele ter fugido por se sentir pressionado pelos pais, mas isso não fica claro em momento algum. Aliás, o espectador não tem certeza de quase nada durante o filme. Fica a cargo de cada um tirar suas próprias conclusões. Em alguns momentos da segunda parte do longa, passamos até a duvidar da lucidez de Riadh e a pensar que talvez grande parte do que estava acontecendo fizesse parte apenas de sua cabeça. E, por um breve momento, até mesmo a sua esposa duvida de suas afirmações, mas o filme permanece com esse mistério no ar.
Para mim, o melhor momento do filme foi quando o gerente do hotel em que Riadh se hospeda na Turquia, e que já viu outros pais viajando em busca dos filhos, conversa com ele sobre seu filho e diz que os jovens querem se sentir importantes, mesmo que precisem morrer para isso. Inconformado, o pai de Sami diz que seu filho não tem nada a ver com essas pessoas, que ele é um bom garoto e que o filho é a vida dele. E então, o gerente diz que os pais criam os filhos, mas não podem viver a vida deles. Sendo essa uma grande lição que Riadh aprenderia posteriormente.

Em suma, Meu Querido Filho é um drama que começa lento e um pouco exaustivo, porém passa a despertar a curiosidade do público e ganhar relevância após o desaparecimento do filho e ao abordar o terrorismo sob a visão de quem perdeu seu filho para o Estado Islâmico. Conseguimos notar o tamanho do amor que o casal tem pelo filho a cada crise de enxaqueca do jovem e em cada cuidado e preocupação deles com o filho, sobretudo do pai do garoto – com uma atuação bem convincente de Mohamed Dhrif. Por fim, o novo filme de Bem Attia tem uma história bonita, mas que, em diversos momentos, acaba deixando a desejar.

Confira o trailer:

 

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Jornalista e paulistana, apaixonada por São Paulo e por toda a cultura e o lazer que esta cidade oferece. Desde pequena admirada pela sétima arte e fascinada por sua evolução e sua influência na vida das pessoas das mais diversas culturas e classes sociais.