Crítica: O Que Te Faz Mais Forte surpreende ao retratar o comportamento insano da população diante de uma tragédia

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Cinebiografias geralmente retratam histórias de superação e todo o sofrimento que uma pessoa passou para chegar onde está, algumas parecem até ter cenas feitas com o propósito de nos fazer chorar bastante. Mas O Que Te Faz Mais forte vai além, nos mostrando a história de um homem comum que perdeu as pernas em um atentado terrorista e é tratado como um herói por ter sobrevivido à tragédia, algo que ele mesmo repudia, ou melhor, repudiava até certo momento da trama. Há superação sim, mas também temos um homem que não gostaria de ser vangloriado por algo que nem ele sabe o motivo, alguém que sente falta de sua independência e não tem o que comemorar, ao contrário de sua família e dos telespectadores que assistem sua história excessivamente midiatizada. E o resultado é um drama biográfico, com atuações arrepiantes, que nos faz sentir na pele os desafios e as alegrias de Jeff Bauman na tentativa de reconstruir sua vida, e sem apelar ao melodrama e ao romantismo demasiado.
Era 15 de abril de 2013 quando, na tentativa de reconquistar sua ex-namorada Erin (Tatiana Maslany), Jeff (Jake Gyllenhaal) resolve ir à Maratona de Boston incentivá-la e vê-la cruzar a linha de chegada, até que, em meio à multidão de pessoas ali torcendo, ele nota um homem sério chegando sozinho, com boné, capuz e óculos de sol. Segundos depois, Jeff observa a mochila do homem largada no chão perto de seus pés e, em seguida, acontece a explosão que tiraria as suas pernas, a vida de 3 pessoas e lesionaria outras 264 pessoas. Ao acordar no hospital, com tubo de oxigênio e sem as duas pernas, Jack escreve em um papel que viu o terrorista responsável pelo ataque. Começa aí a caçada do FBI em busca de justiça, a jornada de recuperação de Bauman e sua tentativa de fazer funcionar o relacionamento com Erin, afetado pela tragédia.

O aspecto mais interessante no filme é por focar na reação das pessoas a acontecimentos trágicos e no fato delas usarem Jeff como motivo para ter esperança no mundo. Ele passa grande parte do filme tentando entender porque as pessoas o veem como um herói e, em certo ponto, ele questiona “eu sou um herói só por ter minhas pernas arrancadas?”. O cara sai do hospital naquela situação, sem conseguir se virar sozinho, e sua família está toda alegre, comemorando que ele está vivo (whaaat??). E, quando aparece em público, as pessoas querem tirar foto com ele, como se ele tivesse feito algum bem à sociedade por sobreviver à explosão.
Em contrapartida, as coisas mudam nos momentos finais do longa e o Jeff que detestava sua exposição como cadeirante e seu título de herói resolve ir a alguns eventos se expor ao público e à mídia, como na abertura de jogos de beisebol, e ser aplaudido de pé por pessoas que veem sua deficiência como fonte de inspiração para seguirem suas vidas, pensando que poderiam estar em uma situação semelhante a dele. É lamentável.

Com planos que nos passam a sensação de estarmos na mente de Jeff e, em alguns momentos, de sua namorada, o cineasta David Gordon Green (Especialista em Crise) permite-nos acompanhar intimamente os sentimentos do protagonista diante das situações enfrentadas em seu novo cotidiano e também observamos alguns fatos pelos olhos de Erin, para entendermos suas emoções.

E o que dizer da atuação de Jake Gyllenhaal? Simplesmente impecável! É ele o responsável por fazer o espectador fixar os olhos na tela até o fim. Cada fase que seu personagem passa, é como se sentíssemos tudo aquilo com ele. Jake (Animais Noturnos, O Segredo de Brokeback Mountain) mostra mais uma vez que é capaz de fazer os mais variados papéis no cinema e, independente da narrativa, fazer o público prender a atenção no filme devido à sua interpretação. Tatiana Maslany (Orphan Black) faz uma boa atuação e tem uma ótima química com Jake em cena. Ela carrega em sua personagem sentimentos de carinho, raiva (nos momentos de briga com ele e a sogra) e culpa, por Jeff ter ido à maratona só por causa dela. Miranda Richardson (Alice no País das Maravilhas), a mãe de Jeff, é outra atriz que trabalha superbém e consegue fazer de sua personagem uma mulher chata, uma sogra detestável e uma mãe alegre pelo filho estar vivo.
As cenas que mostram as dificuldades de um deficiente físico para tentar fazer sozinho as necessidades básicas do dia a dia fazem parte de uma realidade desconhecida por muitos e que é sempre importante de ser lembrada. Acredito que o único ponto fraco em O Que Te Faz Mais Forte (Stronger) seja o personagem ter se rendido em determinado momento do longa e aceitado o fato de que viver com suas atuais limitações físicas poderia servir de motivação para a população, de que ele poderia ser sim o símbolo que Boston precisava. No entanto, a atuação de Gyllenhaal, sobretudo, é um deleite e faz valer (e muito) cada minuto no cinema.

 

Confira o trailer:

 

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Jornalista e paulistana, apaixonada por São Paulo e por toda a cultura e o lazer que esta cidade oferece. Desde pequena admirada pela sétima arte e fascinada por sua evolução e sua influência na vida das pessoas das mais diversas culturas e classes sociais.