Crítica: Roma, novo longa de Alfonso Cuarón é um convite a reflexão sobre pertencimento e desigualdades sociais

Pegue os ótimos filmes nacionais “A Que Horas Ela Volta” e “O Ano que meus pais saíram de férias”, adicione um olhar documental e detalhista e você terá um filme sobre desigualdades e pertencimentos que vão além da nossa cultura, uma construção preciosa de personagens que realmente possuem desenvolvimento e evolução e uma história familiar.

Confesso a você caro leitor, que o ritmo lento e contemplativo de Roma também me arrancou alguns bocejos ingratos, demorei para embarcar na história e me importar com a proposta, mas também confesso que isso foi crucial para minha reflexão sobre o novo longa de Alfonso Cuarón para a Netflix e apresentado nos cinemas durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a narrativa inicial é cotidiana e rotineira, barulhenta e desorganizada e os personagens não são apresentados de maneira tradicional, a sensação é a de realmente adentrar a casa de uma pessoa e ali começar a conviver com pessoas que já possuem seus afazeres diários, tal imersão é benéfica para estabelecer o ritmo e te forçar a procurar pistas sobre cada elemento e personagem, é interessante este exercício e gratificante conforme entendimento.

Cuarón no Set de filmagem

Roma conta uma história sobre a relação de Cleo (Yalitza Aparicio), doméstica indígena mexicana que trabalha numa casa de família de classe média no bairro de Roma, no México, país de origem do Diretor Alfonso Cuarón. Cleo serve os patrões praticamente 24hrs por dia, subjugada e acolhida, aquele famoso “ela é praticamente da família” que gera revolta a qualquer expectador que se identificar.

O filme acompanha Cleo em sua vida pessoal, suas relações amorosas e as consequências de uma escolha ruim, mostra a diferença de tratamento entre classes, as deficiências de recursos das classes mais pobres  busca de maneira “natural” exemplificar o conceito de servidão, um conceito intrínseco tão enraizado na dita classe média que não vê o menor problema em dele se servir.

Roma é filmado em preto branco, possui um belo trabalho de fotografia e iluminação e faz ótimas escolhas de ângulos, Cuarón consegue ser uma mosca na casa que tudo vê, literalmente, destaco duas cenas visualmente interessantes e narrativamente importantes, a primeira se inicia no quarto de uma das filhas dos patrões que está sendo “ninada” para dormir por Cleo, que se retira, passa pela porta aberta do outro quarto com outro filho bagunçando, Cleo o repreende e segue em frente onde se depara com uma discussão pesada do casal de patrões que se apressam em fechar a porta enquanto Cleo desconcertada desde as escadas as pressas, tudo isto numa única cena em 180º acompanhado o trajeto da empregada, genial.

A segunda cena, também dentro da casa é um 360º onde Cleo ao fim do dia começa a apagar as luzes da casa, ajeitar pequenas bagunças por onde passa, supostamente encerrando o clico diário de seu trabalho, demonstrando todos os ambientes de sua responsabilidade e o comodismo de seus empregadores, luzes são apagadas uma a uma, tarefa concluída e Cleo caminha para a cozinha para lavara a louça do jantar quase sem fazer barulho para não acordar ninguém, esta sequencia traz peso e reflexão além de ser visualmente bela.

 

Cuarón parece fazer seu trabalho mais autoral e emocional, estabelece uma relação sólida entre os personagens, desenvolve muito bem os conflitos paralelos, jogando hora com a importância de um, hora a importância de outro e colocando o espectador bem no meio deste caos.

As crianças do filme são bem dirigidas e atuam com naturalidade, a câmera desce para encontrar o olhar dos baixinhos e nivelar sua visão das situações e sua relação com a protagonista e os pequenos conseguem ser o elo afetivo entre as duas “castas” apresentadas.

Roma é excelente em roteiro e execução, pode ser cansativo e lento em alguns momentos, possui diálogos aparentemente desnecessários, mas constrói uma trama robusta e natural, com uma identificação familiar e verossímil, desenvolve com maestria todos os núcleos e traz atuações potentes e equilibradas, um ótimo filme para uma sexta feira a noite.

Roma tem data prevista de lançamento na Netflix em 14 de Dezembro de 2018.

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.