Crítica: The Post é um capítulo importante de uma guerra que nunca terminou

“Um jornal é feito para os governados e não para os governantes”

Que tipo de roteiro poderia tirar o foco de um diretor tão conceituado como Spielberg de sua mais nova produção, Jogador nº1, para se entregar com tamanha urgência e garra?

Uma história necessária e que não pode ser esquecida nos tempos atuais, onde “Trumps”, “Temers” e “Kins” ditam rumos, articulam em nome de um “bem” maior, onde a liberdade de imprensa é cada vez mais questionável e onde a palavra “manipulação” está diluída em todos os meios de comunicação, prontos para desorientar ou mesmo desacreditar quaisquer informação que não esteja dentro de um propósito articulado.

Contextualizando The Post

Uma batalha foi travada no ano de 1971, quando o The New York Times publicou um conjunto de matérias contendo documentos confidenciais sobre a real atuação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, de um lado o governo, presidido na época por Richard Nixon e do outro a liberdade de imprensa sendo estrangulada.

Quando o jornal mais importante dos Estados Unidos foi “calado” o The Washington Post tomou para si a luta e levou adiante a divulgação do material. Na trama do longa, temos Katherine Graham (Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks), editores do The Washington Post, num momento crucial para o futuro do jornal, abrindo capital aberto na bolsa de valores para tomar fôlego financeiro necessário para reinvestir e, a decisão que pode consagrar ou destruir o jornal: a de publicar ou não os documentos secretos do Pentágono após o processo aberto contra o New York Times pelo governo Nixon.

Versão Brasileira

O impresso O Estado de S. Paulo completou no dia 16 de Dezembro de 2017, exatos 3 mil dias de censura. Uma decisão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, tomada em 2009, impede que o jornal publique quaisquer informações sobre a Operação Boi Barrica, onde os investigados são nada mais nada menos, que o empresário Fernando Sarney e outros familiares do ex-presidente José Sarney.

Censura ao ‘Estado’ completa hoje 3 mil dias

O The Washington Post é DELA

Uma mesa com 99% de homens seguros em suas calças, discutindo o futuro de algo que não lhes pertence em sua totalidade, murmúrios, declarações, discordâncias, opiniões e, sussurrando para que um homem fale por ela, a verdadeira dona do jornal. Spielberg provavelmente conquistou Meryl Streep ao lhe mostrar a importância desta mulher na história, nadando em um mundo de homens, ela, que já foi A Dama de Ferro e a cruel Miranda Priestly de O Diabo veste Prada, mulheres com carapaças enormes e calejadas para provar ao mundo sua voz, algo que é muito bem retratado em The Post.

Um trabalho excepcional, sensível e frágil de Meryl, trazendo uma mulher receosa em suas decisões, herdadas por seu marido e anteriormente por seu pai e, que agora lhe caem no colo. A evolução da personagem talvez soe sutil em primeiro momento, escapam-lhe as decisões, mas lhe recaem as responsabilidades do posto que ocupa, mas em determinado momento, temos uma gigante entre nós, um dialogo tão forte e esperado que me arrancou um “Toma” seguido de um riso orgulhoso ao ver o poder da mulher assumindo as rédeas da situação. Tal cena é agravada em tom e poder pelo uso de um contra-plongée empoderando e tirando a personagem, que até então era cercada e vista como inferior, de seu patamar para elevar seu real significado.

Se tem uma coisa que Spielberg definitivamente sabe fazer é criar momentos carregados de emoção e, numa pequena cena, que poderia soar trivial, a emoção vem a tona, enquanto olhares admirados recaem sobre Kat descendo uma escadaria sob a trilha sonora do mestre John Williams, é possível que esta cena tenha menos de um minuto, mas faz o mundo parar.

Em quem acreditar em tempos de Fake News?

O valor de The Post para o momento atual faz da obra algo singular e oportuno, um tema que precisa de discussão contínua e aberta e, atenção constante sobre o que e como as notícias chegam ao receptor e quais seus propósitos.

Mesmo com nomes de peso no elenco e com um dos diretores mais queridos de Hollywood, talvez o longa não alcance o grande público brasileiro pela falta de identificação com o contexto histórico americano, mas após o Oscar de Spotlight em 2016, temas relacionados a liberdade de imprensa ganharam cada vez mais relevância, valendo-se da máxima “Um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-la”

 

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.