Crítica | “Culpa” (Dinamarca) é tenso e estimula o imaginário através do ótimo trabalho de som

O cineasta Gustav Möller é estreante em longas-metragens e basicamente não precisou utilizar inúmeros elementos para construir um thriller explosivo, com uma carga de tensão e desespero do início ao fim, sem que a trama se torne maçante e repetitiva. Em “Culpa”, longa dinamarquês que faz parte da programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP, o diretor estimula o nosso imaginário através de um excelente trabalho de edição de som com os diálogos, ruídos e o silêncio, ambientado em um único micro lugar com praticamente um ator em cena.

Na trama, Asger Holm (Jakob Cedergren) é um policial afastado das ruas e que atualmente foi colocado para trabalhar como atendente do serviço de emergência na capital da Dinamarca. Dentro de umas das chamadas, ele atende ao chamado de uma mulher que, aparentemente, está dentro de um carro. Do outro lado da linha, há uma  mulher ofegante e tensa, ela simula para o atendente, como se estivesse falando com uma criança, dizendo frases desconexas, mas, rapidamente, Asger percebe que a voz do outro lado da linha é de uma pessoa que está sendo sequestrada e correndo risco de vida. A chamada é desconectada e o policial afastado corre contra o tempo para salvar Iben (Jessica Dinnage), tendo apenas o telefone como sua única arma. Mas dentro de várias ótimas reviravoltas que o roteiro oferece, Asger percebe que está lidando com um crime muito maior do que imaginava quando atendeu o chamado pela primeira vez.

Möller dirige o filme com uma maestria que emociona, todos os elementos são muito bem conduzidos, mas é o trabalho de edição e mixagem de som que saltam nossos olhos, a capacidade que os efeitos sonoros têm para levar o imaginário do espectador para o outro lado da chamada telefônica é impressionante, cada detalhe dos ruídos que atravessam o telefone de Asger, faz com que o espectador se entregue ao filme e crie no próprio imaginário todas as situações do outro lado da linha.

Ao telefone é possível sons, barulhos e o ambiente do outro lado da ligação – ouvimos e sentimos a forte chuva se chocando com a Van, os limpadores rugindo. Ao som do automóvel, o espectador constrói o tamanho e modelo do carro, até mesmo uma tijolada que, em certo momento, um homem acaba sofrendo, a cena é perfeitamente desenhada em nosso imaginário e tudo isso somado a ótima atuação do protagonista, único (ou quase único) visto em tela, que transmite toda a situação que está vivendo, sem realizar alguma expressão caricata e exagerada.

Conforme a trama evolui e descobertas vão aparecendo para Asger, os planos de câmeras se fecham cada vez mais, pegando detalhes corporais do atendente, onde cada movimento dele também passa a se comunicar com espectador e é ai que vamos percebendo a sua mudança emocional, a sua “culpa” pelo passado recente e sem pressa, o roteiro vai entregando a sua relação com justiça e o motivo de estar atualmente nesse cargo, já que era um policial de rua.

Culpa (The Guilty) é um filme de experiências imersivas, traz uma engenhosidade fora do comum, fora da caixinha, uma obra que faz o espectador compartilhar a culpa e trabalhar junto com a narrativa, que, além de tudo, levantam vários questionamentos através dos desdobramentos e da forma que decidimos intervir na vida das pessoas diante de situações muito complexas.

 

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP em Outubro de 2018

 

Culpa (Den skyldige) — Dinamarca, 2018
Direção: Gustav Möller
Roteiro: Gustav Möller, Emil Nygaard Albertsen
Elenco: Jakob Cedergren, Jessica Dinnage, Omar Shargawi, Johan Olsen, Jacob Lohmann, Katinka Evers-Jahnsen, Jeanette Lindbæk, Simon Bennebjerg, Laura Bro, Morten Suurballe, Guuled Abdi Youssef, Caroline Løppke, Peter Christoffersen, Nicolai Wendelboe, Morten Thunbo
Duração: 90 min.

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 1 Média: 4]

Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza