Crítica | Em Dumbo, Tim Burton repagina o clássico e expande a narrativa

Quando a Disney anunciou Tim Burton para dirigir a live-action de Dumbo, um dos maiores clássicos do estúdio, havia um certo receio na escolha, principalmente porque a nossa memória imediatamente retornava ao ano de 2010, quando o mesmo diretor assumiu “Alice no País das Maravilhas”, que apesar do enorme sucesso (mais de US$ 1 bilhão de bilheterias), era um filme que, de certa forma, ficou longe de ser um dos melhores trabalhos de Burton.

Mas em Dumbo foi diferente e, nesta era nostálgica que o estúdio prepara para 2019, a escolha de Tim Burtom foi uma decisão das mais acertadas. E em vez de fazer um remake da versão de 1941, que foi baseada no livro infantil Dumbo – The Flying Elephant, de Helen Aberson e Harold Pearl, Burton repaginou a história, expandiu a narrativa e principalmente avançou no tempo. Assim, a fábula determinista e de aspecto mais sombria de 1941 dá espaço para a magia e a liberdade, e busca com suas mensagens dar um tom mais otimista à história do elefante voador, modernizando a obra com reflexões para diversos temas atuais. O mundo mudou em relação há 78 anos e, junto com Dumbo, a direção voou acertadamente para uma realidade contemporânea, mas sem agredir a obra original.

Dumbo e suas enormes orelhas

Na animação de 1941, os protagonistas eram todos os animais, os ratinhos eram os amigos de Dumbo, principalmente Timóteo, enquanto os corvos eram os animais que viviam caçoando dele, por causa de suas enormes orelhas. Na live-action a coisa se inverte, os humanos ganham vozes e consequentemente protagonismos o elo afetivo que faz com que Dumbo ganhe notoriedade dentro do circo e com as pessoas são as crianças Milly e Joe, filhos do Capitão Ferrier.

A narrativa se passa durante o final da Primeira Guerra (1918), a partir do retorno de Holt Farrier (Colin Farrell), que estava na guerra, Farrier é uma ex-estrela circense e, devido a algumas consequências que a guerra deixou nele, ele fica impedido de realizar seu antigo número no circo, assim, a mando de Max Medici (Denny DeVito), o ex-guerrilheiro fica encarregado junto com seus filhos de cuidar de um elefante recém-nascido com orelhas enormes e que foi afastado de sua mãe, a Jumbo. Como as gigantescas orelhas do elefantinho viraram motivo de piada e bullying, os filhos de Farrier começaram a cuidar com mais afinco de Dumbo, até que descobrem que o pequeno elefante é capaz de voar por causa de suas orelhas.

Dumbo, Millie e DannyDeVito

Vale destacar o ótimo trabalho do roteirista Ehren Kruger, que inseriu inúmeros personagens à trama, apresentando todos eles sem pressa alguma, o que facilita a identificação do público. Ainda sobre a narrativa, outro fator que chama a atenção positivamente é o lado humano de alguns personagens, como por exemplo, o personagem de Colin Farrell, que vê em Dumbo uma ótima oportunidade de se reaproximar dos filhos e fazer com que eles superem a morte da mãe. Outro ponto é a força, a confiança e o empoderamento da garotinha Milly, filha de Holt, sempre convicta em seus pensamentos e naquilo que quer ser, sem que ninguém determine seu futuro, sua participação na trama ainda rende uma homenagem à cientista Marie Curie.

Ainda que as crianças Nico Parker (Milly) e Finley Hobbins (Joe) apresentem um pouco de insegurança e o desenvolvimento de alguns personagens deixem um  pouco a desejar, o elenco do filme é muito bom e a maioria deles está muito bem integrada com seus núcleos e suas emoções. Destaques para Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVitoEva Green, essa última tem suas intenções mostradas tardiamente, mas que de modo algum afeta seu trabalho aqui.

O olhar de Dumbo

Visualmente, Dumbo se torna um belo espetáculo, a direção de arte nos proporciona uma experiência surreal ao sair do circo decadente de Max Medici e nos levar a grandiosidade da Dreamland, de Vandevere, onde somos convidados a vivenciar tudo que envolve um grande espetáculo, desde seus bastidores e ensaios até o momento mágico, a hora do Show. Mas, ao mesmo tempo que o espectador tem esse confronto de dimensão, aquela grandiosidade em relação ao simples picadeiro dos “Irmãos Medici” nos mostrava um lado nada humano e mais no interesse financeiro, e, principalmente, na falta de amor com os animais, que eram uma espécie de escravos da “diversão humana”. É aqui que entra o lado sempre sombrio de Tim Burton, além de apresentar o núcleo vilanesco onde ele se sente realmente à vontade.

Dumbo é uma grata surpresa nessa era dos remakes da Disney. A forma em que Burton conversou com o público sobre as relações circenses, os valores familiares, os desejos de concretização e a conscientização e a relação humano-animais, que sim, mudou muito nesse intervalo de 80 anos, é algo apreciável. E mesmo com todas essas discussões, a beleza e magia do estúdio e do clássico de 1941 estavam presentes, principalmente na inocência.

Ah, o olhar do pequeno elefante voador é algo que emociona a cada cena e, para cada personagem que ele olhava, era diferente. Dumbo de 2019 pode não falar como na antiga animação, mas se comunicava profundamente através do olhar.

Trailer de Dumbo:

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza