13 Filmes para refletir sobre a SOLIDÃO

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Uma coisa parece ser um fato confirmado, estamos cada dia mais solitários e, isso não quer dizer sozinhos, apenas ausentes em um relativo mundo conectado onde todos falam, mas ninguém parece escutar.

O Professor Leandro Karnal faz uma reflexão em seu livro O Dilema do Porco Espinho, que aborda a questão levantava pelo filosofo Schopenhauer a cerca do limite entre o envolvimento e a solidão. Um porco espinho no inverno procura calor e tenta se abrigar junto a multidão, mas ao se aproximar espeta, machuca o próximo e a si mesmo, então se afasta, mas o frio o espera, então procura a distancia entre o calor e a dor, entre o EU e o OUTRO.

No cinema a SOLIDÃO foi apresentada de inúmeros aspectos, do romântico ao criativo, do produtivo ao depressivo ou insanos – alguns dos personagens mais marcantes talvez só sejam tão marcantes pela afinidade com que se conectam com o público.

 

1. WILSOOOOOOOOOOOOOON

Náufrago – Robert Zemeckis

Vamos começar por um clássico do homem em uma ilha, “Náufrago” talvez seja um dos filmes mais fieis a solidão de um homem que perde tudo e todos, que se vê desamparado e a mercê da própria sorte, Chuck Noland vai da desesperança a loucura, mas sua solidão é construtiva como narrativa, ensina os valores que antes não eram notados e torna o protagonista mais forte para retornar ao mundo, um homem, uma jangada e uma bola tão carismática que só pode ser compreendida se você conseguir compreender a solidão deste filme.

 

2. VOCÊ ESTÁ AÍ RICHARD PARKER?

As Aventuras de Pi – Ang Lee

Um garoto sobrevive a um naufrágio se abrigando num pequeno bote em meio ao oceano, acaba de sair de sua terra natal, perde os pais e não lhe resta nada a não ser uma zebra machucada, um Orangotango e Richard Parker, o tigre.

As Aventuras de Pi” leva a solidão a exaustão, faz valer a empatia de qualquer companhia e se agarra nisso numa bela história de aprendizagem e superação, além de ser um colírio para os olhos.

 

3. AO INFINITO E ALÉM…E MEIO VAZIO TAMBÉM – 

Gravidade – Alfonso Cuarón

É possível se sentir solitário em meio a multidões, no transporte público, no transito ou até mesmo numa festa ou show, mesmo cercado por inúmeras pessoas, olhe para o céu agora, para o ponto mais escuro, imagine-se por um segundo como Sandra Bullock sozinha no espaço lutando por sua sobrevivência, alucinando no vazio e silencioso infinito.

Sua solidão também pode ser considerada construtiva, já que a moça evolui a cada etapa, mas também é presente o medo total de se perder de vez, uma linha tênue e o sentimento mais perigoso da solidão, o medo.

 

4. VOCÊ É REAL SAMANTHA

Her – Spike Jonzie

O que torna um amor real, o sentimento pode ser medido pelo toque, por uma condição estritamente física ou da reciprocidade de sentimentos, da troca de expectativas e companheirismo?

Theodore (Joaquin Phoenix) é o exemplo da melancolia solitária, vive num mundo nada distante onde o virtual impera diante do real, ou melhor dizendo, o virtual é o real.

Tal condição social não satisfaz Theodore, apesar dos inúmeros atrativos e distrações, o contato real tão pouco, uma vez que as pessoas também estão em estado crônico e até mesmo desesperado de solidão e assim, se entrega a uma experiencia e se surpreende com o que nasce disso.

Samantha (Scarlet Johanson) o tira da solidão pela possibilidade de conhecer um novo amor, ainda que em fase de paixão e descobertas, um sentimento genuíno e benéfico para ambos, mesmo em meio as diferenças, realidades e conflitos.

A trajetória do solitário apaixonado é lúdica, carregada de expectativas e entregas, depositando em Samantha todas as suas fichas, infelizmente a montanha é tão alta quanto sua queda, rumo a “Hello Darkness my old friend” ao lado de sua amiga também em estado de solidão.

 

5. O PIOR AIRBNB DO MUNDO?

O Iluminado – Stanley Kubrick

 

Quanto tempo num hotel vazio durante um rigoroso inverno você acha que aguentaria antes de enlouquecer?Um bom exemplo da solidão convicta do mestre Stanley Kubrick, O Iluminado reúne em sua insanidade a escapatória da mente diante do nada, do tédio e da incessante busca por um sentido de vida, Jack é apenas um cara comum, que “enlouquece” diante dos amplos cômodos abandonados.

É possível encarar a loucura de Jack como uma tentativa do personagem de ser mais do que é, de realmente assumir um destino importante, ainda que amparado pela ilusão de assombrações que a locação pode proporcionar, Jack se sente solitário e sua solidão pode ser interpretada na icônica foto do mesmo cercado de pessoas que o amam durante uma festa de ano novo.

 

6. A PLENITUDE DO DEBOÍSMO

Na Natureza Selvagem – Sean Penn

Abandonar a sociedade e rejeitar o sistema atual que estabelece suas bases no consumo desenfreado e no conservadorismo de uma vida dedicada ao crescimento profissional para que o ciclo se perpetue, uma situação propicia para angustia e solidão, uma pressão excludente capaz de isolar os que não se veem no caminho correto, nos desafortunados das sonhadas oportunidades, de todo nós que perdemos na loteria e somos impactados por perfis sorridentes e paisagens deslumbrantes repousadas em pilhas de likes numa rede social.

Na Natureza Selvagem o abandono do personagem é gradativo, proveitoso e seu desprendimento é tão natural quanto sua busca, mas a cura do sentimento não lhe parece familiar, os paliativos tão pouco e ao encontrar seu destino, avalia sua existência para enfim se entregar de vez a um céu gelado de inverno.

 

7. O QUE VOCÊ FAZ QUANDO NINGUÉM ESTÁ OLHANDO?

Wall-e – Andrew Stanton

Você chega cedo ao escritório, o primeiro a chegar ou o último a sair, o que faz nesse tempo, ou quando está sozinho em casa durante um fim de semana, ou na aba oculta de seu navegador, quem é você neste momento?

Um pequeno robozinho foi deixado na Terra com a missão de limpar todo o lixo produzido por nós e sem supervisão alguma, sendo o último de seu próprio modelo, tem como único significado na vida seu trabalho, sua função ininterrupta e rotineira.

Wall-e, assim como Adão, o primeiro homem de Gênesis, não conhecia a solidão, não lhe havia a menor afinidade ou falta, só reconhecida no encontro com seu par, na possibilidade de testar seus próprios anseios e na experiencia de refletir sua existência, a busca o faz sentir só e diante da possibilidade lhe recai o medo de voltar ao estado anterior, Evaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

 

8. ALDO, DO ALDO AUTO PEÇAS

O Palhaço – Selton Mello

O picadeiro parece o recinto da alegria, da arte em sua forma mais bruta e, o palhaço deveria ser o portador das gargalhadas, o expoente máximo do riso através de sua caricatura de mundo e sim, ele é isto, mas quem está por trás do nariz vermelho?

Em O PALHAÇO, Selton Mello dá vida a Benjamin, herdeiro de um circo itinerante, imediato das responsabilidades da trupe, sobrecarregado e solitário, Benjamin almeja se distanciar de seu grupo para se encontrar e projeta num singelo ventilador seu desejo de querer ter algo seu.

A solidão do Palhaço vem da essência do ser, da busca por um objetivo de vida, tristonho, Benjamin deixa o calor do bando para experimentar o frio, mal necessário para o reconhecimento do valor familiar e do legado que vai além de uma lona colorida pode lhe oferecer, Benjamin precisou se afastar pra reconhecer os motivos de sua solidão.

 

9. QUANDO TODAS AS VOZES SE REPETEM

Anomalisa – Charlie Kaufman, Duke Johnson

O solitário não tem apego as diferenças no mundo além de seus próprios interesses, todas as reproduções repetitivas de uma sociedade cada vez mais uniforme em seus discursos traz um distanciamento e uma redoma própria que repele e protege, mas que também evita qualquer relação.

Uma “Anomalisa” só pode ser detectada quando difere  das vozes iguais, quando fala de si com insegurança e quando seus “defeitos” estão a mostra e não escondidos em filtros coloridos em imagens quadradas com hashtags, as solidões entre Lisa e Michael colidem pela natureza de ambos, mas se esvai quando a novidade apresenta diferenças e quando Michael suspeita que se enganou, sem se dar a chance ou simplesmente ter energia para tal feito, ir embora é mais simples do que tentar conviver para ele, mas não se pode fugir do que está em si mesmo.

 

10. ESTÁ FALANDO COMIGO?

Taxi Driver – Martin Scorsese

Todas as suas próprias certezas têm por base suas concepções de mundo e suas verdades particulares, influenciadas pelas experiencias cotidianas, grupos dos quais se relaciona e formação ética e moral, a influencia do outro ou dos outros gera compartilhamento de visões e realidades, provoca a reflexão e afinidades e diferenças.

A falta do contato pode construir uma verdade particular, alimentada por uma ótica própria inquestionável, visto que não existe outro juiz além da própria mente, Travis(Robert De Niro) enxerga o mundo a seu próprio modo e decide agir contra tudo aquilo que não concorda, sua verdade, sua opinião, uma solidão que aliena.

 

11. EU SOU A RAIVA REPRIMIDA DO JOHN

Clube da Luta – David Fincher

Seu mundo pode ser confortável ou cômodo, mas o que há reprimido em você?Quanta rebeldia pode estar contida num pacato funcionário engravato em um escritório digitando em seu computador e assinando papeis diariamente, olá senhor Durden.

Tyler(Brad Pitt) é uma companhia estimulante, para dizer o mínimo, além de tirar o protagonista de seu torpor, provoca-o acerca de um mundo doente que busca incessantemente um objetivo de vida baseado num modelo criado por marcas e governos.

Sair de sua solidão e se tornar um transgressor o assusta, o desespera ao ponto de lutar para impedir a si mesmo de continuar, mas as vezes só precisamos quebrar algo belo, só precisamos acordar.

 

12. UM PRESIDENTE SOLITÁRIO

Uma Noite de 12 Anos – Álvaro Brechner

Infelizmente podemos estar falando aqui de dois grandes homens, exemplos de bondade e justiça e acima de tudo, de paciência e uma jornada cruel que os tomou tempo precioso de vida, Nelson Mandela e Pepe Mujica sobreviveram a solidão.

Em Uma Noite de 12 Anos podemos acompanhar sentir um resquício da provação imposta ao ex Presidente do Uruguai que esteve em isolamento absoluto por 12 anos, sete deles sem contato algum com qualquer outro ser humano, algo que o levou a uma loucura aparente, ouvindo vozes e adquirindo crenças paranoicas que o levaram a um hospital psiquiátrico.

Ser retirado de tudo que se conhece e entregue aos seu próprios pensamento por anos é angustiante, uma morte em vida que não oferece qualquer estimulo ou novidade, mas que segue apenas a ordem biológica da vida, podemos concluir que respirar não pode ser considerado viver, que a vida requer movimento, interação e reflexão.

A solitária não fez de Mujica um homem melhor, apenas o privou de si mesmo, paralisou sua vida e o prendeu em uma cela muito pior do que qualquer calabouço, o prendeu dentro de sua mente.

 

13. A ETERNIDADE

A Ghost Story – David Lowery

Bom, chegamos ao fim da lista, vimos que a solidão pode ser positiva, construtiva, particular, mas também pode ser assustadora e destrutiva, pode nos privar de experiencias e nos levar a decisões desastrosas, podemos nos sentir solitários em multidões, podemos buscar amparo nas redes sociais, o fato é que vivemos um momento em que a solidão se faz presente e crescente e para finalizar, um filme sobre a solidão eterna.

A Ghost Story(traduzido grosseiramente no Brasil como Sombras da Vida) conta a história de um casal (Casey Affleck e Rooney Mara)  que encontra o tal “até que a morte nos separe”, a morte do marido dá inicio a duas solidões, da esposa que ficou e do esposo que não entende e não aceita sua morte e volta em espirito para a única companhia que conhece, mas em planos opostos, ambos seguem convivendo, ainda que o fantasma apenas como testemunha do tempo.

Pela eternidade ele vaga sem se dar conta da própria existência, passado, futuro tudo ecoa no infinito de estar só, algo liberto apenas quando este refaz um elo que o ligava ao amor de sua vida.

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.