Fome de Poder (The Founder) | Resenha

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Resenha gentilmente escrita por Kaue Mattos (Facebook) para o Cinéfilos Anônimos

 

Você está esperando por seu pedido há 20 minutos e isso já te parece tempo demais. Tanta pressa seria exagero se você não estivesse em um Mc Donald’s: A rede mundial de fast-food que se tornou um ícone da cultura ocidental e fez de uma letra “M” amarela um símbolo do mundo capitalista moderno. Em “Fome de Poder” (The Founder) a história da rede mundial de lanchonetes é contada do ponto de vista de seus fundadores, como o nome original sugere. Partindo dessa relação, o filme traz a tona uma discussão bastante comum: os valores humanos no mundo dos negócios e evidencia as polêmicas que rodeiam o início desse império.

O filme que está disponível na Netflix há alguns meses não é a primeira tentativa de trazer a tona o famoso enredo para o cinema, mas sem dúvida é a mais acertada de todas elas. Sobretudo por equilibrar com maestria a narrativa se focando em um curto período de tempo, mas que leva o espectador a viajar no tempo até chegar aos dias de hoje.

Na obra do bom diretor John Lee Hancock o vendedor de máquinas para Milk Shake Ray Kroc (Michael Keaton) sonha em ascender de vida mesmo após os 50 anos. Ele é o tipo de cara que não se conforma em ser o típico cidadão americano da classe média e está sempre a procura de algo que nem ele mesmo sabe o que é.

Para entender o que acontece a partir daqui é essencial saber que os EUA viviam a febre dos Drives onde as clássicas garçonetes de patins circulavam em meio a jovens à procura de saciar a fome e se divertir. A vida de Ray começou a mudar de fato quando ele recebeu um pedido acima da média vindo de um novo cliente. O Mc Donalds era uma lanchonete que entregava mais que diversão e garçonetes de mini saia, eles entregavam rapidez e eficiência. Kroc foi recebido gentilmente pelos irmãos Mac (John Caroll Lynch) e Dick MacDonald (Nick Ofermann) que mostraram com orgulho o sistema de cozinha impecável e inovador que Dick havia desenhado em uma quadra de tênis depois de entender que poderiam lucrar mais com algumas mudanças estratégicas.

Eles passaram então a servir no próprio balcão ao invés de levar até os carros, os clientes poderiam consumir na própria embalagem e o melhor: onde bem entenderem (é inevitável lembrar do lugar mais inusitado que você comeu um Big Mac na vida). Sem os custos das atendentes que serviam os pratos, dos talheres e priorizando por um cardápio com poucos itens eles conseguiram atingir um novo público e se tornaram um lugar para a família. Em pouco tempo viraram uma febre local e aos olhos de Ray, uma mina de ouro.

Kroc rapidamente fica obcecado pela ideia e propõe aos irmãos a abertura de uma franquia que seria controlada por ele mesmo, depois de perceber o medo evidente dos fundadores em expandira a rede por uma experiência mal sucedida, onde não haviam conseguido manter um pilar importante do negócio: o padrão de qualidade. Munido de um discurso extremamente inteligente o exímio vendedor consegue convencê-los.

A atuação de Michael Keaton é de longe o grande destaque do filme e isso fica evidente na transformação do personagem ao longo do filme que se torna mais ambicioso a cada franquia vendida e rompe as fronteiras do estado da Califórnia levando os icônicos arcos dourados por todo o país. A fome de poder dele é tão grande que a relação com os irmãos fica estremecida, principalmente quando ele passa a se intitular publicamente fundador da empresa e começa a não cumprir alguns termos contratuais firmados no início da parceria. Por outro lado Dick e Mac passam todo esse tempo dificultando ao máximo a expansão com medo de perderem o controle e impondo restrições e protocolos para a abertura dos novos restaurantes. Mesmo com todas as franquias indo bem, Kroc estava longe de ficar rico e ainda sabia que não lucrava o quanto poderia. Numa jogada de mestre (com o perdão do trocadilho) ele abre um novo escritório e passa a atuar nos bastidores comprando os terrenos das futuras franquias e assim o McDonalds ainda timidamente começava a se tornar o maior proprietário de imóveis do mundo e a família que deu seu nome a marca, mesmo sem saber começava a entregar seu sonho nas mãos de um visionário sem escrúpulos.

A partir de então o medo de Dick começa a fazer sentido, porque Ray se entrega de vez a ambição capitalista e uma sucessão de fatos, como negociações escondidas mostram sua face mais maléfica culminando no nó jurídico em que colocou os irmãos, obrigando-os a vender a empresa por uma quantia modesta e uma porcentagem fixa sobre os lucros que nunca foi paga.

Evidentemente a trama se resume nos três personagens centrais e todos os outros são figuras sem nenhuma importância para o filme, mas fundamentais na história e a técnica de escada (quando um personagem é utilizado para destacar o outro) no roteiro é usada perfeitamente através dos coadjuvantes. Destaque para a atuação de Laura Dern no papel de Ether Krock, mulher de Ray e para os diálogos muito bem construídos, que marcam pontos importantes, e evidenciam traços da personalidade dos personagens sutilmente, muitas vezes só entendidos por outro diálogo mais adiante.

O roteiro segue a linha de uma biografia tradicional, mas impressiona por se ater a um período muito curto de tempo e que ainda assim não deixa lacunas, fazendo com que o expectador tenha em mente a todo momento uma relação de comparação com a identidade visual moderna da marca tão famosa atualmente. Se a fotografia não traz nenhuma peculiaridade, os produtores acertaram a mão na paleta de cores – lindíssima por sinal – e que explora muito bem as emoções de cada cena sem exageros. Nesse sentido o filme faz valer a máxima de que “menos é mais”, talvez seja por isso que John não errou uma só tomada durante as gravações pelo fato de já ter chegado ao set com tudo pronto e ter terminado as captações em um tempo bem abaixo do esperado.

O plano frontal presente nos pontos chave da história é o tapete vermelho para Keaton se aproximar do telespectador em diálogos quase que em primeira pessoa e que criam uma certa empatia com o público mesmo nos momentos mais cafajestes do personagem. Quem assistiu House of Cards experimentou muito bem essa sensação com Frank Underwood.

Como raramente uma biografia consegue fazer, Fome de Poder não faz juízo de valores ou condena nenhum lado da história e é assim de certa forma bastante imparcial em uma briga que divide opiniões, já que mostra o medo natural de um empreendedor bastante conservador e os abusos e injustiças que alguém munido de uma ambição sem limites pode cometer. Ray deixou sua mulher apenas com a casa e nenhum centavo, se casou com a mulher de um franquiado e deixou os verdadeiros criadores dos arcos dourados a ver navios. Tudo isso por um nome que em sua cabeça renderia bilhões de dólares no futuro, e que de fato rendeu. Fica a critério de quem assiste decidir se existe um culpado na história ou não e a grande maioria condena as atitudes de Ray com muita razão. Mas é fato que a sua visão mudou os rumos daquele pequeno estabelecimento.

Deixando de lado os valores das relações humanas, a pergunta que o filme inteligentemente deixa no ar é: Se Ray não tivesse agido como agiu, o sonho de Dick se tornaria realidade? Entre reflexões filosóficas, antropológicas e de negócios, o filme sem dúvida é uma obra que tanto pode ser utilizado como aula de universidade e entreter muito bem uma família que busca um bom filme para o final de semana. Numa comparação despretensiosa com a Rede Social – biografia muito aclamada pela crítica- podemos dizer que Fome de Poder é muito mais clichê, mas com um brilho tão intenso quanto.

 

 

 

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