Veredito | Como Game of Thrones deixou de ser tão aclamada por seus fãs na última temporada?

Desde 17 de abril de 2011 até 19 de maio de 2019 foram 73 episódios onde se passaram tramas mirabolantes, reviravoltas surpreendentes, cenas inesquecíveis e personagens tanto carismáticos quanto odiáveis. Ao longo de 8 anos (com um hiato em 2018) Game of Thrones redefiniu o padrão de produção da indústria televisiva, angariou dezenas de prêmios e arrebatou milhões de fãs. Tinha tudo para se tornar a melhor série de todos os tempos, mas algo deu errado na reta final. Justamente quando os showrunners (e produtores e roteiristas) David Benioff & D. B. Weiss disseram que a última temporada iria dividir opiniões, foi que praticamente todos os fãs se uniram em uníssono para manifestar um descontentamento geral.

Mas como isso pode acontecer? Como Game of Thrones deixou de ser tão aclamada por seus fãs na última temporada?

Esta matéria não pretende ser exatamente uma crítica sobre a temporada. Creio que a essa altura quase tudo o que podia ser dito sobre os problemas específicos de cada episódio já foi mais do que esgotado. Por isso quero fazer uma análise geral da série a fim de entender por que os fãs (sobretudo este que vos fala) ficaram tão decepcionados com o final tão aguardado.

A trilogia de Senhor dos Anéis lançada em 2001 abriu as portas para filmes e séries baseados em universos complexos, mitologias criativas e muitos núcleos de personagens. Desde então muitas produções seguiram esse paradigma vitorioso, porém pouquíssimas demonstraram coerência e consistência para se destacarem. George R. R. Martin, o criador das Crônicas de Gelo e Fogo nunca escondeu sua admiração por Tolkien e se inspirou muito nesse escritor para criar o universo de Westeros. Mas adaptar algo dessa natureza para a TV não era uma tarefa simples.

O fato é que a produção de Game of Thrones reuniu um escritor criativo, showrunners obstinados e uma emissora que preza pela excelência na qualidade. O resultado dessa mistura inusitada foi uma série que surpreendeu e encantou a audiência logo de cara. Mas o que GoT tinha de tão especial que outras tantas produções não conseguiram emplacar??

Gam of Thrones-personagens de todas as temporadas

E a resposta mais imediata a essa questão é profundidade. Antes de mais nada os personagens, mesmo distribuídos em mais de dez núcleos narrativos, se mostraram tão bem construídos, tão cheios de personalidades e idiossincrasias, que quase pareciam pessoas reais. Criaturas fantásticas e misticismos inusitados despertaram a curiosidade dos fãs. As tramas envolvendo e conectando todos esses personagens de diversas formas se revelaram cada vez mais profundas e emaranhadas, tal qual na vida real. As reviravoltas e as mortes inesperadas de personagens principais deixaram a audiência perplexa.

Não é à toa que os interessados em Game of Thrones passaram a desenhar mapas de Westeros localizando os sete reinos, elaborar infográficos identificando as relações entre os personagens e suas Casas, criar wikis sobre a série e, principalmente, fomentar grupos de discussões ao redor da internet para debater os acontecimentos de cada episódio.

Sim, a qualidade da produção era de altíssimo nível para a época e só foi crescendo com os orçamentos cada vez mais elevados. Mas o segredo do sucesso de Game of Thrones foi seu universo riquíssimo. E foi justamente isso o que se perdeu gradualmente nas duas últimas temporadas.

Ao longo destes seis últimos episódios as redes sociais ecoaram centenas de reclamações a determinadas sequências e acontecimentos. E realmente houve muitos problemas tde roteiro, direção e edição (sem falar em fotografia), mas isso já eram sintomas de que os showrunners haviam “perdido a mão” nos roteiros. Até a quinta temporada os episódios estavam bem lastreados nos livros de George R. R. Martin, ainda que com algumas adaptações e alterações ocasionais de temporalidade e de personagens. Nada que incomodasse, afinal o próprio escritor estava assessorando a produção e até assinando roteiros de episódios.

Mas agora, olhando para trás, fica muito evidente que tão logo o autor original se afastou da produção e deixou tudo a cargo de David Benioff & D. B. Weiss a coisa toda degringolou. Como eu disse no início, não vou comentar sobre cenas, sequências ou desfechos específicos, pois na minha humilde opinião, tudo virou um pastiche tão grande que até os acertos ficaram vazios e sem emoção. Os episódios 03 e 05 que prometiam guerras “jamais vistas na TV” se mostraram uma colcha de retalhos de cenas aleatórios e desconexas. Se você embaralhar essas cenas em diversas ordens também aleatórias não fará diferença nenhuma na história do episódio.

Os desfechos de cada personagem não foram ruins em si. O que foi (muito) ruim é como eles chegaram até ali. Nesta última temporada mitologias foram ignoradas, tramas foram superficializadas e personagens foram descaracterizados. Logo os personagens que eram tão densos e reais! As grandes questões que foram alimentadas ao longo da série (o Inverno chegando, o objetivo do Rei da Noite, a ascendência de Jon Snow) foram simplesmente esvaziadas e largadas sem resposta nessa oitava temporada.

Temos o atenuante de que a série não fechou com um tremendo fan-service como se suspeitava, shippando o casalzinho ternura de gelo e fogo. Essa temporada teve momentos bons sim, mas sem nenhuma emoção. Sem assistir os episódios em pé no sofá de tanta excitação. Sem soltar aquele “caraaaaaaaaaaaaca” em altos brados às onze da noite do domingo. Sem insônia depois de cada episódio especulando quais seriam os desdobramentos daquele final. Não sei vocês, mas era assim que EU assistia Game of Thrones até a sexta temporada. E era assim que eu esperava terminar a série. Mas não aconteceu…

Pra encerrar, deixo o vídeo de abertura da oitava temporada. Essa trilha vai ficar marcada para sempre!

Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.