Documentário Hafis & Mara | Entrevista com o diretor sírio Mano Khalil

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Conversamos com o diretor sírio Mano Khalil para saber mais sobre o seu documentário “Hafis & Mara”, responsável por abrir o 7º Panorama de Cinema Suíço Contemporâneo. 

Sobre o filme, Hafis & Mara é uma delicada história sobre o amor, o amor à arte, o amor à vida e também sobre a arte de envelhecer. O documentário é contado de forma poética pelas lentes do cineasta sírio Mano Khalil, que também transcende de melancolia sob o olhar dos personagens e que no fundo revela-se uma delicadeza que está escondida nas pinceladas brutais de Hafis. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

 

C.A.: Como você conheceu o casal Hafis e Mara, e em que momento a história deles o inspirou a fazer esse este filme?

Mano Khalil: Eu estava editando meu último filme “As Andorinhas” e eu recebi um e-mail de um amigo meu dizendo algo sobre Hafis. Eu já conhecia Hafis antes. E eu disse “Tudo bem, eu encontro com o Hafis”. Eu o convidei e ele veio ao meu escritório. Nós conversamos. E ele é explosivo, é cheio de energia, mesmo ele tendo 83 anos na época, é inacreditável como está vivendo essa pessoa. Eu tenho que saber mais sobre a vida dele. E ele fala árabe, claro. Eu também aprendi árabe. Esse homem é um artista, sem ser famoso, ele é um artista, para apresentar sua arte em museus nacionais do Brasil, de Nova York, Paris, algo assim, mas ele é um artista.

E depois, eu o encontrei em casa, eu o visitei em sua casa, ele e Mara, sua esposa. E eu pensei “este é o momento perfeito de fazer um filme sobre amor”, realmente sobre amor, sobre esses sonhos perdidos, que alguém está sonhando em mudar o mundo, e ele mudou, talvez ele não mude ele mesmo, sabe? Porque como eu disse antes, há muitas pessoas fazendo música para mudar algo, músicos que tentam fazer algo, mudar algo, e eles morrem e ninguém conhece eles. E eles dizem “arte é isso, pessoal”. Sim, eles são artistas, mas a coisa mais importante que eu notei era o respeito da esposa com o marido, 53 anos morando com o homem, era amor, paixão, amor, suportando ele, dando dinheiro para ele pintar, dando toda a casa para ele, colocando 20 mil pinturas na casa para ele…

Foi um grande amor, eu acho, foi um grande amor. Eu não esperava que ele fosse homossexual. Isso pra mim foi demais. Eu não sei. Eu, como pessoa, eu tenho um grande respeito por homossexuais, lésbicas, gays, sem problema para mim. Eu sou retrosexual, eu tenho uma esposa, eu tenho filhos. Mas se eu soubesse que minha esposa é lésbica, talvez eu pensasse “ahn, tem algo de errado em nossa vida”. Se eu fosse homossexual, minha esposa iria pensar “tem algo de errado com a gente”. E quando eu vi os dois vivendo juntos por tantos anos em paz, com respeito, e 53 anos que a moça não discutiu a questão com o marido. De modo algum, isso foi uma grande coisa para mim. Essa era uma história da qual eu queria te contar. É uma história de ser humano. Essa história, eu quero dizer, poderia ser aqui no Brasil, no Japão, em qualquer lugar.

 

C.A.: Hafis nunca ganhou dinheiro e reconhecimento com a sua arte. Você considera que o seu documentário seja o maior reconhecimento pelo trabalho dele?

Mano Khalil: Talvez. Todo o tempo há algo mudando, sabe. Algo muito pequeno fazendo mudanças. Hafis acordava de manhã cedo e ia para o estúdio sozinho para pintar e voltava, todos os dias. Ele não tinha nenhum dinheiro na carteira. Ele não precisava, sabe. Porque ele não é uma pessoa que se importa com dinheiro e isso o faz uma pessoa única.

Hafis poderia ser um grande artista neste mundo, como Joan Miró. Joan Miró foi um grande artista. Mas quem é Joan Miró? Joan Miró vendeu milhões. Se eu, Mano Khalil, fizesse o mesmo que Miró… “Mano, o que diabos você está fazendo aqui?”. E isso é o que faz a nossa vida algumas vezes interessante. Qual paisagem você está olhando na imagem. Picasso fez essas coisas, muito legal. Se Deus fosse Picasso, a vida seria terrível.

Você pode imaginar, a moça tem um nariz torto e apenas um olho (risos). Isso é bom, que Deus não seja Picasso, ou Salvador Dalí também. E isso pra mim foi muito legal, mostrar essa pessoa, mostrar esse amor entre a moça e o marido. E, no final, eles vão embora, eles dizem adeus para o mundo, sabe. E ela conseguiu. Ela disse “talvez eu morra” e, realmente, depois de um mês, ela morreu. E para contar essa história sobre nossas vidas, sobre pessoas que estavam dando vizinhanças e ninguém falava sobre eles. É às vezes muito interessante em nossas vidas também, mostrar isso. Porque nós não somos apenas pessoas andando, nós temos sentimentos, nós temos história.

 

C.A.: Hafis é um artista impulsivo, enquanto Mara é uma pessoa caseira e calma. Você acredita que esse contraste entre eles é a força do amor do casal?

Mano Khalil: Definitivamente. Eu acho que se Mara fosse um pouco como Hafis, eles poderiam ter uma paixão em suas vidas e se separarem. Mara era um porto e ele era um navio e o mar louco. Eu costumo dizer assim. Um navio e as mesmas ondas, grandes ondas e indo e vindo e, claro, ele achou essa possibilidade, com uma moça que respeitava tudo por ele. Ele estava fazendo tudo, ela respeitava. Ele estava fazendo mais e mais e mais, sabe. Ela nunca parava, porque ela não queria parar. E Mara fez todas essas coisas porque ela amava ele, porque ela era livre. Ninguém forçou Mara e disse “Mara, você tem que ser uma escrava para Hafis”. Não, ela disse “Eu sou feliz em minha vida. Eu escolhi minha vida e sou feliz”.

 

C.A.: Quais as dificuldades encontradas para produzir este documentário? 

Mano Khalil: Eu acho que em Gana. Eu estava doente. Foi muito difícil, porque nós fomos para Gana, nós filmamos lá por uma semana e eu caí, tomei antibiótico… e isso foi algo.

Mas o mais difícil foi no começo. Mara não queria falar conosco. Maria disse “você pode fazer um filme com Hafis, sem mim”. Para mim era muito importante filmar Mara com ele, porque sem Mara, não há filme. E como eu faria um filme sem Mara, com Hafis gritando o dia todo, não é um filme. O primeiro problema foi que eu conheci Hafis por ele mesmo, porque Hafis, o tempo todo, ele apresenta ele mesmo, e eu disse “Hafis, acalme-se, acalme-se!”. E ele não era muito legal, muito simpático, quando ele estava o tempo todo gritando. E isso foi um problema pra mim. Quando nós estávamos filmando, ele estava o tempo todo gritando, isso não foi legal.

Quando mais eu encontra com Hafis, mais ele era uma criança para mim. “Hafis, por favor, se acalme”. “Ok”. “Não toque na câmera, Hafis, o tempo todo”. “Ok, eu não toco na câmera”. E então, ele ficava calmo. Isso foi difícil. Isso foi difícil para nós. Mesmo quando nós estávamos editando o filme, nós dissemos “oh não, olhe para ele”, ele estava olhando para a câmera. E depois nos vimos, após um ano, porque eu estava filmando com eles por 2 anos, e depois ele começou a ficar normal, ficar quieto. Porque ele era como uma criança. Eu dizia o tempo todo “Hafis, você é uma criança, você é apenas uma criança doida.” De alguma forma, o cavalo, o cavalo selvagem, você tem que fazer algo para domá-lo, você tem que fazer ele ficar muito cansado e depois ele está calmo. Hafis amou o filme. Agora ele está fazendo exibição na Suíça, com muitas artes do Japão, sobre Fukushima, e nós iremos mostrar o filme, com a exibição juntos e ele adorou.

C.A.: Após a gravação do documentário, como você define Hafis e Mara?

Mano Khalil: Uma criança selvagem com a mãe adorável. Sem Mara, não haveria Hafis e sem Hafis, não haveria Mara. Porque, de alguma forma, eles se completam. Ela precisava de alguém como ele em sua vida, ela precisava, sabe, e ele claro, precisava de Mara, precisava de Mara respeitando-o, deixando-o voar. É isso o que eu defino de Hafis e Mara, nada mais.

 

C.A.: Quais são as suas expectativas aqui no Brasil de apresentar, debater e abrir o 7º PANORAMA DO CINEMA SUÍÇO CONTEMPORÂNEO?

Mano Khalil: Minha esperança é fazer um filme para mostrar às pessoas, para falar com as pessoas, encontrar com elas, conversar, ter uma amizade neste mundo e isso é tudo que eu preciso. Eu não quero mudar o mundo, eu sou tão pequeno, eu não sou nada para mudar o mundo. Eu estou feliz em encontrar com vocês, em conversar com vocês, eu fico feliz quando alguém chega em mim e diz “o seu filme me tocou”. Esse é o grande prêmio que eu posso ter como cineasta. Porque o diálogo com as pessoas é a coisa mais importante para mim, mesmo aqui no Brasil, na Índia, ou do outro lado do mundo. Eu estou viajando para tantos lugares.

Ano passado, eu estava em Dharamshala, no norte da Índia, onde Dalai Lama está morando. Eu mostrei meu filme lá e as pessoas vieram até mim, amaram o filme, e eu adorei, adorei, para mim, não é como se eu ganhasse dinheiro com isso, de pessoas pobres na Índia, de jeito nenhum, mas foi legal conhecer pessoas e conversar com elas, e dizer tchau e ir embora. Talvez eu nunca mais os veja novamente. E isso é legal.

 

 

Confira a nossa crítica do filme:

Crítica: Hafis & Mara traça uma sensível linha entre amor, paixão e as conclusões de nossas próprias escolhas

 

Nossa avaliação do filme: 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Jornalista e paulistana, apaixonada por São Paulo e por toda a cultura e o lazer que esta cidade oferece. Desde pequena admirada pela sétima arte e fascinada por sua evolução e sua influência na vida das pessoas das mais diversas culturas e classes sociais.