Ida e Haifaa e a difícil conquista de serem cineastas em países islâmicos

Dia 8 de março é conhecido como o Dia Internacional da Mulher e, claro, no cinema temos muitos exemplos de filmes que poderíamos citar aqui para homenagear esta data. Mas em vez desse filmes, gostaria de prestar minha homenagem falando especificamente de duas mulheres muito importantes – incomuns para a maioria, mas que, desde o ano passado, para mim, se tornaram referências em luta, coragem (muita coragem) e que, apesar de toda as circunstâncias, meteram as caras.

Falo simplesmente de Haifaa Al-Mansour e Ida Panahandeh – a primeira tem 42 anos e é natural da Arábia Saudita, a segunda tem 38 anos, natural de Teerã, Irã. O que ambas têm em comum? São diretoras de cinema. Ah, mas você pode perguntar, tá e daí?, daí que cada uma delas tem filmes diferentes, histórias diferentes e conquistas iguais. E que conquistas!

Era começo de 2016, ainda estava iniciando um curso de crítica de cinema, quando recebo a tarefa de assistir um filme em que o tema era “Filmes dirigidos por mulheres”, pesquisei muito, até porque não queria fazer sobre Sofia Coppola, nem mesmo a Anna Muylaert que acabara de produzir o ótimo Que horas Ela Volta? me chamou atenção naquele momento, mas logo lembrei de um longa chamado “O Sonho de Wadjda”, lembrei que ele era dirigido por uma mulher, então resolvi assistir novamente e pesquisar mais sobre Haifaa Al-Mansour e descobri que ela era simplesmente a primeira mulher (árabe) a dirigir um filme na Arábia Saudita. Essa foi uma das escolhas mais feliz da minha vida.

Haifaa Al-Mansour,

Haifaa Al-Mansour,

Talvez possa não significar quase nada para muita gente, muitos não tem noção da dimensão o que é ser uma mulher em uma sociedade islâmica. Mas Haifaa foi além, foi corajosa, e o sonho que era para ser de Wadja, na verdade foi o dela, era uma realização não só pessoal, mas uma vitória das mulheres, uma vitória totalmente feminina, encarando as possíveis repressões do Estado Islâmico, correu seus riscos, mas provou que sim, que é possível uma mulher lutar pelos sonhos por mais simples que pareçam ser. Wadjda andou de bicicleta, calçou tênis, e Haifaa Al-Mansour produziu seu longa e clamou por liberdade, gritou através das lentes. Um filme, dois sonhos. 

Meses depois, fui assistir ao filme de Ida Panahandeh, chamado de “Nahid: Amor e Liberdade”, ela foi mais afundo, mesmo não sendo a primeira mulher (Iraniana) a produzir um filme no Irã, ela estava se tornando primeira mulher a fazer duras e corajosas críticas sobre a difícil condição da mulher na sociedade islâmica e suas leis absurdas.

Ida, através de suas lentes e de seu roteiro bem elaborado, tocou em um tema que é considerado um dos grandes tabus na sociedade em que nasceu.

Ida Panahandeh

Ida Panahandeh

O longa acompanha as dificuldades de uma jovem divorciada em conseguir sobreviver com dignidade dentro das leis de seu país, onde tem que lutar sozinha para manter uma boa educação para o filho, sob o risco iminente de perder a guarda dele a qualquer momento, já que a lei impede que uma mulher divorciada mantenha a guarda de um filho, caso decida casar-se novamente.

Panahandeh usa todo esse conjunto para levar sua obra a uma amplitude social, e denuncia a sociedade machista local e faz críticas às petições, algo comum na vida das mães, principalmente as que foram abandonadas por seus cônjugues. Vocês não tem noção do tamanho do tabu que foi quebrado. Fantástico!

Essas duas mulheres marcaram minha vida, sem mesmo conhecê-las pessoalmente (sonho com isso um dia), o que elas fizeram é uma homenagem gigantesca a todas as mulheres deste planeta. Elas provaram o quanto as mulheres são fortes e corajosas e, que precisam continuar a lutarem pelos seus ideais, mesmo com todo preconceito a sua volta.

Essa é a minha pequena homenagem a todas as mulheres. Ida Panahandeh, Haifaa Al-Mansour, obrigado pela coragem e desculpem por um mundo tão atrasado.

 

Trailer do filme de O Sonho de Wadjda, de Haifaa Al-Mansour

 

Trailer do filme Nahid: Amor e Liberdade, de Ida Panahandeh

 

 

Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza