João, o Maestro | Resenha

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Você vai conhecer a história de um brasileiro que foi muito querido e amado pelo mundo inteiro ainda nas décadas de 1950 e 1960 e que depois de uma longa pausa retorna aos palcos como pianista enquanto sua saúde lhe permitia. E quando nada mais podia ser feito para que os movimentos de suas mãos tivessem o mesmo furor do seu início de carreira, ele decide continuar na música se tornando o grande Maestro João Carlos Martins.

Hoje o nome João Carlos Martins é sinônimo de superação e todos admiram o seu trabalho como maestro, suas entrevistas sempre nos contaram um pouco sobre como os problemas de saúde retiraram os movimentos de suas duas mãos. Se você acompanha a obra do maestro já sabe como ocorreram, mas senão conhece ainda, assista ao filme e se surpreenda.

O que as entrevistas nunca puderam nos mostrar é a geniosidade que o jovem João Carlos Martins possuía ao sentar de frente a um piano. A sua memória musical para a obra completa de Bach que desde a juventude era executada sem a necessidade de partituras causava um espanto e admiração em qualquer lugar por onde se apresentava.

Então se você já admira o trabalho do maestro líder da Orquestra Filarmônica Bachiana, certamente vai gostar muito de conhecer a velocidade e o virtuosismo desse magnífico pianista brasileiro. Se você tem mais de 70 anos e era um garoto antenado, certamente você já conhece boa parte do que o filme mostra. Mas se você não teve a oportunidade de assistir ao concerto do João ao vivo, só conseguiu ver as cenas em Branco e Preto. A oportunidade de ver em cores é agora.

Dá-lhe Pozzoli: Ta-ta-taaaa.

O filme conta a biografia completa do pianista que se tornaria maestro, desde a sua infância e sua obsessão pelo Pozzoli, que é um dos livros mais importantes sobre estudos rítmicos do mundo, passando pela juventude e o seu largo sucesso nos Estados Unidos e na Europa. Até chegar a se tornar maestro por não conseguir mais tocar piano.

 

Para isso mostra as intensas aulas que teve com o José Kliass (Caco Ciocler) que conhecia Heitor Villa-Lobos, e como que essas aulas o ajudaram a chegar a incrível velocidade de tocar 21 teclas por segundo. Depois que ele volta aos palcos, já com o diagnóstico definitivo para as mãos, ele estava vivendo com Carmen Valio (Alinne Moraes), uma mulher incrível que o ajudou nessa fase transição dando-lhe força para continuar a fazer o que sempre quis fazer que era difundir o sentimento através da música.

Aulas com José Kliass.

 

Os atores que interpretaram as fases do João foram:

  • Davi Campolongo (Criança)
  • João Pedro Germano (Adolescente)
  • Rodrigo Pandolfo (Adulto até a pausa do piano)
  • Alexandre Nero (Adulto a partir do retorno do piano até se tornar maestro)

A importância da pausa na música e na vida do músico.

Em certo momento da vida de João, seu sucesso era tão imenso que seu repertório virtuoso era inspiração para qualquer jovem músico de qualquer estilo. Mas sua vida pessoal não estava indo muito bem. Depois de perder pela primeira vez o movimento da mão direita, ele começa a ficar mais agressivo e sua vida conjugal não encontrava força. Então ele entra numa fase depressiva. E se a gente junta depressão, vida conjugal problemática, apartamento em Nova York ao lado do Central Park, com banheira e muita bebida, normalmente só gera páginas de tragédias nos jornais.

A música é feita de notas e pausas, sem as pausas você não consegue identificar as alterações do tema e o ritmo da música. Então as pausas são fundamentais em todos os instrumentos em qualquer música.

E se analisarmos o momento em que João estava vivendo quando decidiu largar tudo e voltar para o Brasil, podemos ver que ele fez a melhor das escolhas. Essa pausa lhe fez repensar o seu nome no cenário mundial e como ele poderia ser mais útil na sociedade. Foi tempo suficiente ausente dos palcos, até ele revolver voltar para música no início dos anos 1970 e seguir fazendo o que mais amava.

Com Carmen Valio dando força.

O filme é uma fonte de inspiração imensa. Uma demonstração de inteligência e virtuosismo. É muito raro encontrar algum virtuoso que tenha um gênio fácil de lidar. E com o João Carlos Martins não foi diferente. Os problemas conjugais foram muito bem documentados pelo diretor e roteirista Mauro Lima.

No final, como normalmente acontece com filmes de biografias, podemos ver algumas cenas com o verdadeiro João Carlos Martins regendo a sua Orquestra Filarmônica na Sala São Paulo.

Já ouvimos o próprio João Carlos Martins reconhecer que a sua busca pela perfeição é que atrofiou suas mãos. Ele nunca descansou enquanto tocava piano.

Agora como maestro e com dificuldades para virar partituras, ele continua sendo perfeccionista e portanto decora cada nota da sinfonia que estiver regendo. E assim como fazia com as obras de Bach, ele continua não usando partituras em seus concertos.

A frase que define o filme é de Oscar Wilde e está presente na abertura do longa:

“A dor é o único caminho que conduz a perfeição.” – Oscar Wilde

Outra frase usada pelo maestro em diversas entrevistas e que foi tema de samba enredo da Vai-Vai, foi:

“A música venceu.” – João Carlos Martins

Pianos mudos para bons atores.

Para fechar nossa resenha, vamos mostrar a entrevista que o João Carlos Martins fez no programa The Noite com Danilo Gentile. A entrevista foi exclusivamente a respeito do filme, que trouxe até o ator mirim Davi Campolongo para falar de seu início no piano clássico devido ao papel que teve de interpretar no filme.

A entrevista ficou muito bacana, e como se trata de uma biografia, não afeta em nada saber algumas coisas que vão estar no filme. Pelo contrário, é muito legal ouvir um pouco sobre a produção e do trabalho muito bem orquestrado do diretor Mauro Lima.

Uma curiosidade comentada na entrevista é o fato de usarem pianos mudos e todas as músicas do filme foram de gravações feitas pelo próprio João Carlos Martins. Então os atores tocavam fortemente nas teclas sem medo de sair som e a sincronização foi feita com a supervisão do próprio maestro. Vale a pena conferir.

 

Duração: 1h 56min
Direção: Mauro Lima
Elenco: Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Alinne Moraes…
Gêneros: Biografia, Drama
Nacionalidade: Brasil
Distribuição: Sony Pictures

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Professor de Física formado pela USP sempre trabalhou com tecnologia como desenvolvedor. Fã de carteirinha da série Star Trek gosta muito de pensar com a lógica do Sr Spock, mas prefere agir com a mesma sabedoria social presente nos capitães da Enterprise, em especial o Capitão Kirk. Vida e longa e próspera a todos.