Crítica: La Casa de Papel retorna mais explosiva e prova que amor e assaltos não são uma boa combinação

Compartilhe

Foi difícil esperar, talvez você nem tenha esperado, mas tudo bem, agora estamos em sintonia com o plano total do Professor, podemos voltar as nossas vidas sabendo que deu tudo errado meio que dando certo né?

Caso não tenha visto a primeira temporada clique aqui.

La Casa de Papel retorna com uma temporada intensa, meticulosa e agressiva, mantendo o mesmo padrão da primeira parte, mas expandindo em todos os sentidos para que o “gran finale” valha seu investimento em horas maratonadas.

A série Espanhola entrega um ritmo mais agradável e acelerado, talvez pelo modo como a Netflix decidiu apresentar as temporadas, com treze episódios na primeira e oito na segunda, sendo que originalmente no canal Antena 3 TV da televisão espanhola, a série foi exibida na integra, sem o corte entre temporadas.

Roteiro a La Breaking Bad

Vamos pensar um minuto sobre estruturas de roteiro e no modo como isto influi no decorrer de algumas séries aclamadas pelo público, pensemos em The Walking Dead, que em sua 8ª temporada, parece perdida e sem foco algum, variando entre motivações, vilões e cada vez mais perdendo sua essência, baseando seu roteiro desde a segunda temporada nas reações populares, como uma novela global. Agora comparamos com Breaking Bad, uma série com cinco temporadas, todas escritas de antemão, não importando a reação do público a trama, ou a um personagem favorito, tudo já estava escrito do começo ao fim, o ritmo é aquele, a história é o que é, sente e assista.

Assim como a trama do Mr. White, La Casa de Papel se sustenta, apresenta um roteiro estruturado e uniforme que conta uma história bem definida entre começo, meio e fim, apresentando a trama, desenvolvendo os conflitos e explodindo tudo em seu terceiro ato, algo raro em séries atuais e arrisco dizer que se um dia existir uma terceira temporada nos decepcionaremos, pois estaremos todos nas mãos de produtores focados em números, estatísticas de publico e elevando tudo ao ponto de estragar a genialidade.

Em caso de Assalto, não Ame

Tokio e Rio, Professor e Raquel, Denver e Monica, Berlim e Ariadna, tudo isto em 125 horas de assalto, amores jurados e defendidos a bala, arriscando tudo o que foi planejado e colocando em cheque a paciência do expectador. Passava do terceiro episódio da segunda parte quando me dei conta de que o Salva e Raquel, aquele “casalzão apaixonado” e intimo, se conhecia á pouco menos de três dias, isso mesmo, pouco mais de 72 horas e já estavam prontos para largar tudo e viver um amor num paraíso caribenho.

Sem se decidir se é uma série ou uma novela, La Casa de Papel se envereda por relacionamentos pouco convincentes como sentimento, mas ótimos argumentos para brincar com a expectativa do público, entregando falhas que culminam em conflitos improváveis e não calculados, como por exemplo o arco de Tokio e Rio que tornam tudo frágil e imprevisível, movidos por puro sentimento e birra, não era o que queríamos, mas era o que o roteiro precisava para te manter atento.

Tirando as Máscaras 

Desenvolver um núcleo de personagens tão vasto quanto este é uma tarefa das mais complicadas e mesmo assim a série aceita o desafio e trabalha para que o público saiba em detalhes as motivações, os sentimentos, passado e futuro de cada um, tanto para os sequestradores quanto para os reféns e policiais, tudo isto sem soar forçado ou artificial. Incorporado a trama, peculiares dos personagens fazem diferença a todo momento e influem em suas decisões, como por exemplo o arco de Nairobi nesta temporada, que assume o comando, esbanja força e foco, se abala quando exposta e conquista o respeito total de Berlim e do Professor e termina por nem saber o que fazer se tudo der certo.

São as falhas que tornam os personagens identificáveis com o público, afinal, estamos aqui torcendo para que oito assaltantes consigam sair da Casa da Moeda com quase um bilhão de Euros, ilesos, se possível. Torcemos contra Arturito, coitado, ele só queria sair e salvar sua vida, foi corajoso um milhão de vezes, mas um bom roteiro pode causar este efeito, nós não estávamos mais torcendo pelos mocinhos, somos todos cúmplices.

Sim professor, o senhor falhou e muito

Se a primeira temporada trouxe o mito do gênio, a segunda apresentou o homem por traz da lenda e todas as falhas de um personagem imperfeito que decepciona dentro e fora das telas, mas que não deixa de ser o que sempre foi, O Professor.

O fato é, Professor se perde em seu romance e parece não reparar em algo mais do que simples que é seguir a risca seu próprio plano, respeitando regras e horários, dando cobertura e estando presente durante o “furduncio” descontrolado do lado de dentro. Da metade para o fim, o personagem perde o brilhantismo, soa descuidado e nos faz esquecer que tudo que está sendo executado saiu de sua mente.

A atuação de Álvaro Morte continua impecável, ambígua entre o frágil Salva, o calculista Professor e o verdadeiro Sergio Marquina, ainda dando uma canja como Palhaço de hospital. O que realmente chama a atenção é justamente os momentos de virada de chave e de personalidade do personagem, sempre olhando fixamente para a câmera, o sorriso desaparecendo e evocando dali a personalidade mais apropriada para o momento, ponto forte da série como um todo.

A menina chiliquenta até que mandou bem

É difícil definir a escolha de Tokio para narradora da série, aliás, Tokio é um personagem difícil de definir e até mesmo de gostar.

Ao inicio acreditamos que ela seja a protagonista de tudo, a arma secreta da equipe, mortal, esguia e fatal, mas ao decorrer dos episódios o que vimos foi uma personagem inconsequente, mimada, ciumenta e chiliquenta. Tokio é instável, mas não gratuitamente e mais uma vez caímos nos méritos de um roteiro bem estruturado, que faz com que a insanidade da moça protagonize duas das cenas de ação mais impactantes da série, a cena da moto e a cena do tiroteio final, Tokio se redime, cumpre sua função, mas ainda passa a quilômetros de ser uma protagonista.

Foi bom enquanto durou

La Casa de Papel entrega uma temporada forte e apreensiva, continua refém da conveniência e tropeça em seus furos de roteiro, mas desenvolve melhor seus personagens, expande o clima de perseguição e encurrala a atenção do expectador que dificilmente assistirá apenas um episódio por vez.

 

Imagens: IMDB e Netflix
Trailer: Youtube

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 81 Média: 3.6]

Compartilhe

Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.