Crítica: Lady Bird é a personificação de uma geração que glamouriza o fracasso

Você pode amar ou odiar Lady Bird, depende totalmente da sua expectativa

Antes de tudo, tenho aqui a missão de estabelecer alguns parâmetros, gosto muito do trabalho de Greta Gerwig como atriz, roteirista e me interesso muito pelo potencial dela na direção, ela possui um olhar “indie” e sabe trabalhar bem a relação de personagens complicados e perfeitinhos, mas confesso que Lady Bird é mais um começo de carreira do que o “filmão” que estão nos vendendo.
O longa conta a história de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) , uma jovem amadurecendo numa cidade do interior que a sufoca, buscando desesperadamente uma saída para que seus sonhos de liberdade possam decolar, em contraponto a mãe (Laurie Metcalf) faz de tudo para que a filha não deixe o ninho.

Ritmo

Greta e Saoirse no set de filmagens

O filme começa bem, estabelece nos primeiros minutos as relações, o objetivo da trama e o temperamento das duas personagens principais, Lady Bird e sua mãe. A cena inicial do carro é hilária, com as duas ouvindo “As Vinhas da Ira” em versão Áudio Book, um costume que as une neste momento, para em seguida retornar aos questionamentos do conflito principal que há entre elas, até que Bird se joga do carro.
A direção oscila entre ótimos diálogos, cenas aleatórias bonitinhas e engraçadas, mas repetitivas na tentativa de justificar o quão problemática é esta fase na vida da garota, algo que é feito com perfeição e carinho no primeiro momento, mas que se desgasta no segundo ato. Nós já entendemos que ela não tem grandes habilidades, que não aceita a vida que tem, inclusive o próprio nome ou a casa aonde mora, vimos as roupas, o cabelo e toda interpretação de Shaoirse que já são suficientes para que o personagem seja interessante por si só, mas que sofre com um roteiro que não se decide sobre suas resoluções, não sai da superfície dos problemas em momento algum se arrisca o suficiente para que os personagens realmente evoluam.

Rebeldes sem causa

Jovens rebeldes que almejam ir além de suas habilidades com o sonho improvável de uma estabilidade descolada que nunca chegará, este é um tema muito abordado no cinema, já vimos isto em Juno, Os sonhadores, As Vantagens de Ser Invisível, Skins, Aos Treze, Frances Ha, Na Natureza Selvagem e muitos outros que se propõe a contar a saga mimada de personagens sem rumo.
O ponto mais difícil de comprar em Lady Bird é justamente seu propósito, não nos importamos com o fato da garota estudar fora, até por que não é mostrado em momento algum, qualquer tentativa mínima de esforço da personagem para que isso aconteça á não ser sua vontade, o que soa mais como capricho do que objetivo a ser alcançado. Em vários trechos comprovamos as inabilidades confessas da personagem, que aceita o fracasso e o fato de ser um desastre como algo natural, mas que almeja que uma luz flutuante venha dos céus e realize seus desejos.

Greta é a própria Lady Bird


Sendo praticamente uma auto-biografia, Greta injeta tanto de sua vida pessoal que muitas mensagens e intenções só podem ser compreendidas pesquisando mais sobre sua história. Fatos curiosos permeiam a trama, como o fato de Christine ser o nome real da mãe de Greta, mas no filme este é o nome da filha, aliás, a mãe da diretora é enfermeira em Sacramento e também relutou quando em 2002 (mesmo ano em que se passa a história do filme) Greta decidiu estudar em Nova York, saindo de Sacramento. Com isso muito da trama pode ser visto de outra forma, o conflito entre mãe e filha, a proteção conservadora e a rebeldia tomam contornos de homenagem e até mesmo uma singela mensagem de Greta para sua mãe, como se tudo aquilo que ela relutou ser, se refletisse na mesma personalidade de sua progenitora e revelando que no fim das contas somos mais parecidos com nossos pais do que gostaríamos de admitir.

O Gesso e as cores


Um recurso que quase passa batido no filme é o gesso rosado de sua protagonista, um detalhe bem trabalhado para exemplificar o quão rápido são as mudanças na adolescência, que num curto espaço de tempo é possível aprender sobre amor, amizade, sexualidade, respeito, vaidade e sonhos, um turbilhão de momentos datados no tempo de uma fratura em recuperação, funciona de maneira fluida e orna com a mensagem que o longa se propõe.
Um dos pontos fortes do filme é sua paleta de cores, ainda que opaca, possui um apelo a tendência atual em tons de rosa e azul claro e mesclando para tons escuros entre laranja e marrom, equilibrando assim a inocência da juventude descolada com os desafios enfrentados e se aproximando de tudo o que existe atualmente, desde cores de cabelos a moveis e luminárias para apartamentos com “cara” de Pinterest.

Vale Oscar?

Lady Bird é um filme simples e divertido sobre o amadurecimento, tanto da personagem quanto da Diretora que abre portas sendo a quinta mulher a ser indicada ao Oscar e que já mostra aqui o potencial que tem em mãos para seus próximos filmes, trabalhando muito bem os personagens, o timing cômico, mas pecando na repetição forçada e na inexperiência de gerar empatia suficiente para que o público compre os ideais de sua protagonista.
Talvez não fosse a indicação ao Oscar e todo hype envolto em sua divulgação, Lady Bird: a Hora de Voar poderia ter sido uma grande surpresa, mas elevando as expectativas de um público eriçado em comparar os demais que estão na disputa, Bird perde grandes pontos e acaba por ser apenas um filme “hipster” previsível sobre uma garota rebelde.

Meu pensamento ao sair do cinema:

“Somos uma geração de desocupados, com a cabeça bagunçada, mas com filtros coloridos de Instagram”

Veja também:

Teorias do Cinema: Lady Bird é a história de origem de Frances Ha

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.