Malasartes e o Duelo com a Morte | Crítica

Pedro Malasartes é um personagem bem mais antigo do que se pensa. Originado há séculos em Portugal e Espanha, ele acabou sendo trazido ao Brasil na época da colonização. Esperto e sedutor, nas histórias em que é protagonista ele se alterna entre a humildade e a malandragem. Tem um bom coração, mas sempre quer levar vantagem em tudo. Com esse perfil bem brasileiro ele acabou se tornando um mito importante na cultura nacional, sobretudo na região sudeste, no interior de São Paulo e Minas Gerais, embora também figure em Literaturas de Cordel no nordeste.

Sendo um personagem tão importante para a cultura popular, nada mais justo do que Pedro Malasartes ganhar um filme próprio. Embora já tenha sido representado no cinema por Mazzaropi e Renato Aragão, em Malasartes e o Duelo com a Morte o malandro recebe uma homenagem grandiosa. Em um projeto que levou quase 30 anos entre pesquisa, produção e pós-produção, o roteirista e diretor Paulo Morelli nos brinda com um filme brilhante e inovador. Cerca de metade do longa foi feito com efeitos visuais gerados por computação gráfica. Para o roteiro, Morelli mesclou a riqueza da cultura brasileira com elementos da mitologia grega e romana. O resultado é um filme que mistura um típico “causo” caipira com um mundo místico criativo e coerente.

A história se passa num ambiente característico do interior do sudeste, com fazendas, casas rústicas, matas, rios e pontes. Neste cenário atemporal, o humilde Pedro Malasartes (Jesuíta Barbosa) vai aplicando pequenos golpes aqui e ali onde sempre consegue levar algum dinheiro da vítima escolhida. Logo no início somos apresentados à essa prática quando o personagem consegue ludibriar Zé Candinho (Augusto Madeira) e logo após vai encontrar o amor de sua vida, Áurea (Isis Valverde). Porém nada é absoluto neste filme. Zé Candinho, de vítima passa a ser amigo, e Áurea passa a representar perigo quando quer “prender” Malasartes com uma aliança. Por falar em perigos, Pedro tem dois bem grandes. O primeiro é Próspero (Milhem Cortaz), irmão super protetor de Áurea, com que Malasartes tem algumas dívidas em aberto. O outro perigo é a Morte (Júlio Andrade), que pretende se livrar do fardo de seu cargo colocando Pedro em seu lugar. Auxiliada por seu ajudante desonesto Esculápio (Leandro Hassum), a Morte ainda contará com as Parcas Cortadeira (Vera Holtz), Tecedeira (Luciana Paes) e Fiandeira (Julia Ianina) para alcançar seus objetivos funestos.

O roteiro de Paulo Morelli entrega uma história agradável e divertida, cheia de viradas no tempo certo e um ritmo que impõe ação continua aos personagens muito bem construídos. A trama é muito bem costurada com uma mitologia própria e uma história composta por trechos de diversos contos. A Direção de Arte tem dois momentos: nos cenários caipiras bem elaborados e visualmente ricos e nos cenários e figurinos do mundo mágico. Destaque para a representação gráfica das atividades das Parcas, que nas mitologias grega e romana são responsáveis pelo “fio da vida” e no filme ganharam aspectos de Rendeiras do nordeste.

Misturando drama e humor na dose certa, o grande elenco de Malasartes e o Duelo com a Morte está ótimo, com muita sinergia entre todos e ótimas atuações individuais. Certamente é um filme que vale ser visto no cinema para prestigiar os efeitos visuais que não devem nada a qualquer filme americano!

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[Total: 10 Média: 3.5]

Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.