Mulher do Pai | Crítica

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É muito comum vermos as típicas “famílias de comercial de margarina” em produções de filmes e novelas. Outras tentam criar dramas familiares, mas esbarram em problemas como pouca profundidade das situações e personagens. Embora o drama esteja entre os gêneros mais produzidos pelo cinema nacional, nem sempre verificamos coerências com a vida real.
Mulher do Pai, escrito e dirigido por Cristiane Oliveira se propõe o desafio de mostrar uma família muito específica, do interior do Rio Grande do Sul. Entretanto a naturalidade com que ela faz isso consegue extrapolar aquela região recôndita e retratar relações familiares tão complexas quanto comuns.

Mulher do Pai 01

Nalu (Maria Galant) vive em uma casa modesta com o pai Ruben (Marat Descartes), cego desde os 22 anos e com a Avó (Amélia Bittencourt), a matriarca que mantém tudo na casa funcionando. Ela coordena um pequeno negócio familiar de tecelagem, o que garante o sustento da casa. Além disso, dá suporte à Ruben em todas as atividades cotidianas e basicamente se responsabiliza pela educação de Nalu.

Devido a essa personalidade controladora a avó praticamente anula Ruben ao mesmo tempo em que sustenta um delicado fio de relação entre ele e Nalu. Quando a matriarca morre repentinamente, essa relação se torna tensa, pois fica evidente que pai e filha não sabem se relacionar. O surgimento da professora de Nalu, que se propõe a ajudar Ruben, acaba se tornando uma ponte dele com a filha. Mas essa frágil relação entre os três logo vai gerar problemas.

Em meio a isso tudo, Nalu tem na melhor amiga Elisa uma válvula de escape, bem como em outros elementos que vão surgindo ao longo da trama, como a viagem para Uruguai, o Freeshop e a música funk (única trilha do filme todo).

A narrativa elaborada por Cristiane Oliveira flui em takes curtos, mas ao mesmo tempo sem pressa pra explicar detalhes sobre o passado dos personagens. As explicações e o aprofundamento dos personagens vão surgindo na hora certa. Os diálogos e o clima bem construídos contribuem para transmitir uma realidade crua e angustiante em torno da família. A bela Fotografia em tons de um sépia fosco reforça esse clima.

Mulher do Pai 03

A sequência em que Ruben e Nalu se tocam descuidadamente é de uma intensidade indescritível. O toque entre pai e filha tão distantes gera intimidade e constrangimento. Incomoda ao mesmo tempo em que mostra uma esperança de reconciliação. Essa demonstração de sentimentos conflitantes pauta a trama toda e propõe muitas reflexões sobre relações familiares.

Mulher do Pai tem alguns problemas de ritmo e roteiro que deixa pontos em aberto ou em dúvida, mas certamente é compensado por retratar um drama familiar, que embora se discorra em uma região singular, consegue contemplar uma realidade tipicamente brasileira.

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.