Crítica | Entre a genialidade e a loucura, No Portal da Eternidade traz os traços mais lindos de Van Gogh

Julian Schnabel, diretor de “O Escafandro e a Borboleta”, de 2007, é também um grande pintor. Schnabel é representante do movimento neo-expressionismo e suas obras podem ser encontradas em alguns dos grandes museus espalhados pelo mundo. Além do grande conhecimento que tem em relação às pinturas, sua apreciação pela arte lhe traz algumas vantagens para narrar e contextualizar a história de vida de Vincent Van Gogh, um gênio perturbado e incompreendido.

A principal dessas vantagens, a sensibilidade: e, isto ficou evidente em toda a construção do filme “No Portal da Eternidade (At Eternity’s Gate)”, a sensibilidade em que diretor desenvolveu a narrativa, estava no bom roteiro assinado em parceria com Louise Kugelberg e Jean-Claude Carrière – nas cores que envolviam algumas das inspirações de Van Gogh, na trilha sonora, nos ângulos de câmeras que nos levavam para dentro da perspectiva do artista e, principalmente, na ótima interpretação expressiva, triste e melancólica de Willem Dafoe.

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No Portal da Eternidade é focado nos últimos anos de vida de Van Gogh (Willem Dafoe), onde se “refugiou” para as aldeias de ArlesAuvers-sur-Oise, afim de escapar das pressões que a cidade de Paris lhe causava. Contudo, o longa relata também os problemas psicos do artista que estava enclausurado em sua insanidade, a natureza de suas obras mais importantes e a sua relação com Paul Gauguin (Oscar Isaac), que se afasta do artista após uma conturbada e intensa convivência com ele e, seu irmão, Theo (Rupert Friend), responsável por negociar às pinturas de Vnicent, mas sem conseguir vender nenhuma, mas, ainda sim, o seu apoio era inabalável.

A cinebiografia não segue uma linha narrativa organizada. A principio, talvez isso cause um certo desconforto no espectador, os eventos e os encontros que Vincent tem com seu irmão e o amigo Gauguin são inseridos de forma não linear, mas nada que prejudique ou impeça você de mergulhar a fundo na natureza do artista.

Como já foi dito acima, Schnabel é pintor, aproveitou da sua sensibilidade como artista e criou uma narrativa cheia de longos espaços que eram preenchidos com a natureza em plano aberto, sem diálogos e o silêncio aos poucos era quebrado por uma incisiva trilha sonora de Tatiana Lisovkaia, que, a cada nota, causava desconfortos, tristeza e melancolia, quando se misturava a um plano em que a câmera colocava o espectador através da perspectiva de Van Gogh. Muitas vezes, com algumas linhas embaçadas, principalmente quando a insanidade transcorria no artista, retratando bem o estado de solidão e melancolia do personagem.

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O longa é repleto de cenas bonitas, é impossível não ficar admirado com a beleza visual da natureza local, cenas como o vento assoprando a imensa plantação de trigo em um tom amarelado, ou quando Vincent está trabalhando em umas de suas pinturas e a câmera sai de um plano fechado na pintura e abre para a natureza que estava servindo de inspiração, é extremamente confortante e é onde Van Gogh realmente se sentia vivo.

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Ainda sobre a parte técnica do filme, a fotografia impressiona pela sua capacidade de narrar e marcar todas as constantes mudanças de espirito do artista, o movimento das imagens e as variações de cores nas cenas em que o pintor encontra-se em sua solidão, nos permitem a adentrar-se no estado de espirito de Van Gogh, seja ela na sua insanidade, ou seja ela nos dando a oportunidade de vivenciar o seu processo criativo, mesmo que muitas vezes a sensação de incômodo eram reais.

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Vincent Willem van Gogh por Willem Dafoe, sem Vincent, mas que foi muito Van Gogh

Não é a toa que Willem Dafoe, além da sua indicação ao Oscar de Melhor ator, também recebeu o prêmio Volpi Cup, no Festival Internacional de Cinema de Veneza. O ator trabalha muito bem todas as nuances que o personagem lhe propõe, apesar de ser quase 30 anos mais velho do que Van Gogh tinha quando faleceu (37), Dafoe com seus 63 anos superou essa barreira e em nenhum momento deixou transcender essa diferença.

Os momentos de paz, a reclusão e os surtos vividos pelo artista são perfeitamente interpretados pelo ator, além do ótimo alinhamento com a câmera, que fica instável quando Vincent entra no auge das suas instabilidades mentais, é um contra-ponto que dá certo devido a habilidade do ator. O elenco de apoio, mesmo tendo pouco tempo em tela, cumpre seu papel e, muitas vezes, serve de pilar para as mudanças expressivas de Dafoe, mas o destaque vai para os bons diálogos entre Vincent e Paul Gauguin, interpretado por Oscar Isaac.

No Portal da Eternidade tem algumas pinceladas rápidas que acabam deixando algumas pontas mal resolvidas, ou talvez seja até proposital, ainda que haja dúvidas sobre a morte de Vincent Van Gogh, o bacana aqui é que o diretor deixa ela interpretativa. É um filme extremamente bonito e que traz uma experiência sensorial incrível, além de vivenciar os momentos finais de um dos artistas mais incompreendidos em vida.

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza