Crítica | Sádico, alegórico e imersivo, O Animal Cordial é um filme para corações fortes e mentes abertas

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Quão simples pode ser um jantar em um restaurante, pedir um prato, um vinho, ser servido, lidar com a vaidade diante do valor de um prato ou do requinte do local e apreciar uma refeição com toda brutalidade da fome, das contínuas mastigadas que dilaceram o alimento e saciam uma necessidade básica e instintiva do homem, O Animal Cordial é sobre tudo isso e não vai te privar de nada durante seus 96 minutos em tela.

Sinopse:

Inácio é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair. Quando o estabelecimento é assaltado por Magno e Nuno, Inácio e a garçonete Sara precisam encontrar meios para controlar a situação.

 

Prestem atenção neste nome

O primeiro longa de Gabriela Amaral, com produção de Rodrigo Teixeira (Me Chame pelo seu Nome), traz um estilo único, impactante e bem construído, Gabriela consegue trazer imersão num clima insuportavelmente atmosférico e tenso, gravando em apenas uma locação e exibindo facetas presentes em nosso dia a dia, claro, numa lente de aumento brutalmente exagerada, mas ainda assim realista e bizarra, uma face oculta do ser humano, escondida entre cortinas sociais.

O cinema de Gabriela não é para corações fracos e mentes fechadas, a diretora pesa a mão e abusa dos recursos para que suas reflexões tomem forma, a pele, o sangue, o suor, tudo exposto, próximo e sem pressa alguma de acabar.

A composição de personagens é instigante e bem elaborada, fazendo jus a um elenco empenhado e absorto em seus papeis, independente de tamanho, complexidade ou tempo em tela.

Murilo Benício parece possuído em cena, vaidoso, seguro, frio, patrão. Luciana Paes se esgueira e traz no olhar todos sentimentos, medos e expressões de Sara, Irandhir Santos flutua em suas atuações como sempre, desta vez retratando um chef de cozinha insatisfeito com o patrão e que se impõe diante dos abusos sofridos, Camila Morgado interpreta Verônica, uma mulher elegante mas oprimida pelo machismo e o ego de seu namorado ou marido (não fica bem claro), um papel fundamental para compor algumas camadas dessa densa trama. O longa ainda conta com Humberto Carrão e Ariclenes Barroso no papel dos assaltantes do restaurante e Ernani Moraes no papel de um cliente muito peculiar, aparentemente papéis pequenos, mas que tem seu próprio arco e desenvolvimento.

O que você pode encontrar nessa jaula?

Como dito antes, O Animal Cordial é um filme de camadas, então vamos lá:

O homem como centro do mundo

O patrão que se acha um Deus, o Cozinheiro que não leva desaforo pra casa, o cliente solitário, os assaltantes e até mesmo o cliente rico metido a besta que precisa provar a todo segundo que o mundo se curva perante seu cartão de crédito, todos eles trazem em si uma marca em comum, o ego e o orgulho, a certeza de que o mundo lhes pertence e que de alguma maneira suas vidas valem muito mais que a do próximo,

A relação entre patrão e empregados

Segundo as novas leis trabalhistas em vigor desde novembro de 2017, agora todo empregado tem direito de negociar férias, salários e até mesmo cargas horárias diretamente com seus empregadores, o bom e atencioso chefe né….aiai

No longa as relações estabelecidas atingem diferentes pontos, Inácio é um chefe controlador, centralizador e desconfiado com seus funcionários, implica com Djair por sua postura reativa e também por ser gay, enquanto isso manipula Sara, ora para que ela se sinta importante, ora para obter informações dos outros funcionários, Inácio manda e seduz e promete, mas em seguida ameaça e reage a tudo como ataque pessoal – ainda assim acredita que seu restaurante é um dos melhores estabelecimentos do mundo e que ele próprio é um maravilhoso empresário, marido, patrão, inclusive enquanto ensaia essa cena no espelho.

Dê um pouco de poder a alguém e descubra quem ela realmente é

Sara é uma garçonete num restaurante pequeno, não está á altura de um chef de cozinha como Djair, mas está acima da moça da limpeza e, ao buscar ficar perto de Inácio, dono do restaurante, passa a provar de pequenas doses de poder que lhe dão a falsa sensação de superioridade para humilhar e machucar o próximo, esfregar na cara de tudo e de todos que você chegou num patamar absoluto. Assim como Sara, quantas vezes já vimos o gerente babaca, o coordenador que abusa do poder, o cara mais forte da escola e por aí vai, parece algo enraizado na cultura do ser humano, galgar um degrau e lá de cima, esmagar tudo que suas botas de cano alto puderem tocar.

O que você fez daquilo que fizeram com você?

A relação entre os personagens é complexa, abusiva, manipuladora, platônica e baseada na confiança e vaidade de todos, os rumos de cada um e suas escolhas refletem com clareza os caminhos que cada decisão revela. Tente ao fim da sessão, pensar em cada personagem em seu início, relembre quais foram suas primeiras impressões sobre eles e vai entender a evolução das consequências.

Ainda tem dúvida sobre o que pedir, senhor ou senhora?

O Animal Cordial é uma peça rara do nosso cinema, um filme sórdido, chocante e deliciosamente tenso, bem construído em sua cinematografia, personagens, atuações e um roteiro que oferece inúmeras possibilidades, mas nenhuma saída, afinal, quando as portas se trancarem você e eu estaremos presos com os verdadeiros Animais.

Bom Jantar!

Só lembrando que O Animal Cordial possui classificação indicativa +18

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 3 Média: 3.3]

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.