Crítica | O Candidato Honesto 2 tenta ser uma sátira política, mas peca no humor antigo e gritado

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Muitas coisas mudaram desde o lançamento de O Candidato Honesto, ocorrido em 2014. Naquele momento, Dilma Rousseff era a presidente do país e estava concorrendo à sua reeleição – os escândalos da Lava Jato estavam a todo vapor e, então, virou o tema para o novo filme de comédia satirizada de Leandro Hassum. Copiando um pouco da contextualização de O Mentiroso, com Jim Carrey, de 1997, a história então acompanha a saga de João Ernesto (Leandro Hassum), um político corrupto do mesmo nível dos mais audaciosos da Lava Jato, mas que vê sua situação piorar quando em um “passe de mágica”, João torna-se totalmente incapaz de mentir, comprometendo sua carreira política e, como consequência, a prisão.

Quatro anos se passaram e muitas situações na política mudaram, Dilma sofreu o Impeachment, Michel Temer assumiu o comando, Lula foi preso, Hassum, o gordinho engraçado já não é mais gordinho, mas a corrupção continua, dando o mote certeiro para a produção de O Candidato Honesto 2. O longa começa fazendo uma retrospectiva da história anterior, com João Ernesto e sua tornozeleira eletrônica, em uma sátira bacana da versão cinematográfica do famoso Roda Vida da TV Cultura, que aqui é nomeado de Roda Livre.

Nesta sequência, dirigido por Roberto Santucci e roteirista por Paulo Cursino, Ernesto é solto, mas ainda continua incapaz de mentir e logo recebe um convite para se recandidatar à presidência, mas logo percebemos que sua candidatura está sendo manipulada por seu candidato a vice, o Ivan Pires (Cássio Pandolfi). João Ernesto decide então usar sua candidatura como uma boa oportunidade de se desculpar e tentar corrigir seus erros passados, além de se reaproximar de sua paixão, a jornalista Amanda (Roseanne Mulholland), e se reconciliar com seu filho mais velho.

Nada escapa de ser satirizado, tudo que apareceu na política nos últimos quatro anos é atacado pelo roteiro – Dilma, Temer, Donald Trump, Jair Bolsonaro, nem mesmo o emagrecimento de Hassum e o “fim” de sua parceria com Marcius Melhem escapam, tudo é debochado e na maioria delas o resultado é desastroso. Hassum destoa de sua habilidade de fazer piadas e, em boa parte do filme, o ator passa “gritando” – ainda não entendo como as pessoas acham que gritaria é engraçado.

Muitos dos esquetes colocados nessa sátira pareciam um catão da versão antiga do Zorra Total, a maioria das piadas deixam a impressão que você já ouviu elas antes. E o pior, usam insistentemente a personagem Isabel (Flavia Garrafa), ex-mulher de Ernesto, como um escudo cômico do personagem de Hassum, com piadas extremamente humilhantes, extrapolando o estereótipo da mulher pouco atraente. Há também uma dramatização no romantismo entre Ernesto e a jornalista Amanda, que é quebrada a todo momento com algum deboche ou histeria do comediante e faz com que a química entre eles não aconteça.

O ponto principal deste filme são as sátiras com o atual presidente Michel Temer, a irreverência nessa camada funciona, Ivan Pires é colocado como um vampiro em alusão a Temer e suas aparições repentinas são divertidas, a forma de como o vice-presidente aparece nas cenas flutuando entre as sombras ou fumaças em planos “dolly zoom” flerta com grandes clássicos do suspense/terror protagonizado por Boris Karloff, Bela Lugosi, em Drácula (1931) e Max Schreck, o Conde Orlock / Nosferatu. Referências às falas de Dilma, que acabaram se tornando memes na internet, também funcionam, sobretudo porque Mila Ribeiro, atriz que interpreta a ex-presidente consegue ser incrível na imitação da voz da Dilma.

O Candidato Honesto 2, por ser uma comédia de sátira, não vislumbra esteticamente, a não ser com as aparições de Ivan Pires, a comédia não mede esforços para expor seu ponto de vista sobre o impeachment e  principalmente, apontar o caráter, claro que duvidoso, dos atuais e principais candidatos à presidência, mas peca nos exageros dos gritos de Hassum, nas repetições de muitas piadas e o politicamente incorreto se perde mostrando apenas o mais do mesmo.

 

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza