O Cidadão Ilustre | Crítica

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Ficção ou realidade? E o ótimo exercício de interpretação.

 

Começarei este texto falando diretamente do sentimento após o desfecho do filme, pela genialidade de fazer o espectador sair do cinema conflitando com a sua própria razão, se realmente assistimos a um filme de ficção, ou algo documentado, um filme com uma história verídica. “Toda a verdade é fruto de uma interpretação”, é com essa célebre frase que Daniel Mantovani (Oscar Martínez) faz o público refletir a cada momento de sua passagem pela cidade de Salas.

A trama conta a jornada do escritor Daniel Mantovani, que após quarenta anos, retorna à sua cidade natal, a pequena cidade de Salas, localizada no interior da Argentina. Vivendo cerca de quatro décadas na Europa, o escritor que recentemente ganhou o grande prêmio Nobel de Literatura, recebe um convite do prefeito de sua cidade natal, para ser homenageado pela cidade, além de receber o título de “Cidadão Ilustre” de Salas. Mesmo sem publicar um livro há mais de cinco anos, sua agenda continua cheia, o que o faz a princípio, recusar o convite, mas atentado à oportunidade de voltar às suas origens, ele decide aceitar o convite.

O roteiro escrito por Andrés Duprat (O Homem ao Lado) e a direção de Mariano Cohn brincam com as camadas do humor e do cinismo, além do comportamento do protagonista que vai alternando entre o cômico e a melancolia, conforme os acontecimentos de sua passagem pela cidade. Ao mesmo tempo, ele mistura um tom de crítica e inconformismo na forma como o mundo escolhe os seus ilustres Nobel, algo que o protagonista deixa claro em seu discurso quando recebe o cobiçado prêmio, ao dizer no palco que, ao mesmo tempo, se sente honrado e envergonhado, já que, segundo o escritor, “só se torna vencedor destes prêmios, os artistas que não tiveram a audácia necessária para exercer sua verdadeira função, que é a de incomodar e questionar as incoerências do mundo”.

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Durante a trama, percebemos as poucas variedades de planos, deixando a impressão de que o filme tem um comportamento documental, mas a câmera é suficiente cirúrgica, dando um ritmo agradável ao filme, o que faz o espectador ficar preso na história durante o tempo todo e se conflitando se o que está vendo é ficção ou realidade.

Todos os personagens coadjuvantes têm uma função importante que liga à vida do escritor e todos eles entregam seus arcos de forma concreta. Já Oscar Martinez, que foi premiado como melhor ator do Festival de Veneza, tem uma atuação impressionante, durante a trama, seu personagem transita por inúmeras qualidades, como a arrogância, a antipatia, a soberba, passando pelo cômico e o irônico e a capacidade de juntar tudo isso e fazer com que amamos a sua personalidade e, no fim, estarmos torcendo para ele, principalmente porque acompanhamos a mudança de seu comportamento.

O Cidadão Ilustre é mais uma obra do rico cinema argentino e, nesse filme, a sua capacidade de expor inúmeras informações sem se perder em momento algum e a ousadia de alinhar a uma ficção numa estrutura documental fazem esse longa, tornar-se um dos filmes favoritos em nossas listas.

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza