Crítica: O Insulto e as feridas da intolerância sem fim

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Representante libanês e escolhido entre os 5 filmes para a disputa do Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, O Insulto navega com muito vigor e equilíbrio a discussão entre dois homens e a direção atua como um advogado isento na sempre explosiva relação entre refugiados palestinos e os cristãos nacionalistas, e constrói com brilhantismo os dois lados do conflito.

O diretor libanês Ziad Doueiri (O Ataque) viveu de perto a guerra civil de seu país, mas mudou-se para os EUA e, nesse meio, foi assistente de Quentin Tarantino nos filmes Cães de Aluguel, Pulp Fiction – Tempos de Violência e Jackie Brown. Como diretor, O Insulto é o seu quarto longa, e nessa obra, ele administra com vigor as alternâncias e a sobriedade dos protagonistas, que a todo momento um fio de pólvora explode, e o que vemos são constantes mudanças emocionais, agressões físicas e, principalmente, as palavras, os insultos, numa região em que frases colocadas em horas não apropriadas, tem poder suficiente para dar início a uma guerra civil local.

A história é narrada em Beirute, Toni (Adel Karan) é um cristão nacionalista e vive com sua mulher Shirine (Rita Hayek), que está grávida, Toni é um mecânico que tem como passatempo regar suas plantas na varanda de sua casa e, num certo dia, ao realizar tal atividade, acaba molhando sem querer o trabalhador refugiado palestino Yasser (Kamel El Basha). O palestino percebe que a calha está mal colocada e, por fazer obras na região, se viu no direto de consertar a calha, nisso despertou a ira de Toni e por não conseguirem dialogar para resolver tal situação, o que parecia ser algo banal se tornou um julgamento massivo, com forte apelo midiático e nacional, mas que na verdade, a simples discussão revela um problema ainda maior de ordem política, social e principalmente, religiosa.

Com o desenvolver da narrativa, as consequências dos insultos transcendem para um embate pessoal, impulsionados pelo passado e pelo ódio que atravessam já décadas, a simples discussão vai para dentro do tribunal, onde as feridas e as rusgas acabam se desenvolvendo ainda mais, um livro do passado é aberto, e nisso a direção trabalha muito bem em não escolher qual dos lados é o mocinho e o vilão, mostrando durante o julgamento, o lado humano das duas partes. Nesse embate de tribunais outras rusgas são criadas, os advogados de defesa dos dois clientes são pai e filha, que se posicionam de forma distinta sobre as questões entre palestinos e os cristãos.

O roteiro merece destaque pela forma tensa e intensa que conduziu toda a história, saindo da simples discussão da rua para um grande debate nacional, com reviravoltas a todo momento que fazem com que o espectador não fique em uma zona de conforto, e a todo instante nó convida a se colocar diante da situação retratada.

As atuações merecem destaques, beneficiadas pelo talento do elenco, tanto os protagonistas, quanto os coadjuvantes, e também, beneficiados pela forma de como as lentes do fotógrafo belga Tommaso Fiorilli capta com closes bem fechados, as trocas de olhares e as expressões dos personagens, as câmeras circulam nas cenas dentro do tribunal o que reforça muito a tensão que está sendo ocorrida naquele momento, e faz com que o espectador sinta em cada um deles, o quão já estão exaustos com o atual e interminável momento político de seu país, e a proliferação sem fim dos discursos de intolerâncias políticas e religiosas.

A trilha sonora forte tem uma mistura de drama e ação carregando consigo todo o peso dos sentimentos e das razões dos personagens. Para eles, o passado nunca ficou para trás, as feridas persistem em não se curarem jamais, palavras e frases se tornam insultos que rasgam de vez as feridas e o passado se torna uma pomada cheia de espinhos, trazendo dor e ódio nas pessoas, como foi retratado por diversas vezes numa frase dita no filme pelo libanês Toni, “Quisera eu que Ariel Sharon tivesse exterminado vocês”, em referência aos intensos conflitos sionistas (entre Israel e Palestina) entre 2001 a 2006.

O Insulto é um ótimo e intenso drama de tribunal, que trata de um tema muito complexo, o desentendimento entre os dois protagonistas é apenas um pano de fundo para o diretor vagar por questões muitos mais sérias que atingem a região, mas, ao mesmo tempo, deixa uma mensagem poderosa sobre “intolerâncias” e também relata a força das palavras.

Por fim, fica como reflexão uma frase dita por uns dos personagens do filme dentro de uma sociedade muçulmana: “Nós palestinos, somos os negros do Oriente Médio”.

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza