Crítica: Um olhar moderno e inventivo sobre a psicopatia, O Segredo de Davi é surpreendente

Primeiro longa de Diego Freitas, O Segredo de Davi consegue conciliar uma trama sombria e densa com muita criatividade visual, um roteiro generoso em camadas e uma montagem dinâmica, incomum ao gênero.

Davi (Nicolas Prattes) é um jovem estudante introspectivo e de poucos amigos. Em sua solidão, ele passa a observar e filmar pessoas e cenas do cotidiano, em parte para registrar momentos, em parte para tentar entender e extrair algum significado para sua própria vida, até que a encontra quando mata sua primeira vítima e passa a buscar um único e sombrio objetivo.

Retratar a mente de um psicopata é um dos passatempos mais explorados de cineastas do mundo todo, existe algo na frieza e na busca por uma justificativa para seu comportamento que instiga e por isso molda personagens misteriosos, imprevisíveis e de certa forma, livres dos preceitos tradicionais, mas deslocados num mundo padronizado onde não conseguem se situar, já vimos isso diversas vezes e, recentemente, num filme totalmente diferente desse, o também notável A Casa que Jack Construiu de Lars Von Trier. O psicopata já foi retratado do alto de sua inteligência como em Instinto Secreto, já foi o rapaz problemático em Psicose, onde os traumas são muito bem explorados, já tivemos doses cavalares em séries como Dexter e Hannibal e a fórmula ainda se mantém em constante evolução.

Uma das coisas que mais me chama atenção neste filme é sua provocação, tudo é sugerido, mas nada é efetivamente ou explicitamente apresentado, o longa passeia pela psicopatia, mas também foca nos dilemas de um jovem se descobrindo no mundo, na sexualidade, mas relações e interesses com outras pessoas e, principalmente, no afeto, na ausência e na carência incompreendida, tudo em sub-texto enquanto a trama segue seu plano frio e calculista.

É melhor anotar num caderninho este nome, Diego Freitas, um diretor iniciante que traz uma assinatura marcante e um olhar moderno, inventivo e surreal para o cinema nacional. Seguro e ousado, Freitas consegue mais do que retratar a vida de um psicopata, ele cria essa vida e tudo ao seu redor, brinca com cores vivas e fortes, trabalha muito bem as camadas do texto e a construção deste universo e sabe exatamente o que quer extrair de cada ator, vide a atuação intensa de Nicolas Prattes, acostumado com as telenovelas e aqui consegue ser o que o filme precisa, um jovem perigoso, confuso, mas entregar uma doçura e uma paixão que também compõe esse psicopata carente em formação, se podemos classificar assim. Os coadjuvantes possuem um espaço moderado e conseguem ser mecanismos eficientes e colaborativos para que os gatilhos e segredos do roteiro possam ser desvendados e causem reflexões e caminhos por este labirinto. Voltando ao diretor, claro, existem algumas falhas na montagem, talvez o longa se estende alguns minutos além do necessário e é nítido que existem muito mais ideias no filme do que o diretor conseguiu desenvolver, mas os méritos superam com louvor e tudo que consigo ver é um ótimo diretor com potencial enorme e que conseguiu me prender pelas estruturas principais do que classifico um bom filme, uma narrativa bem elaborada, bom uso dos recursos visuais e uma linguagem única e surpreendente para o gênero, minha vontade é ver logo os próximos projetos dele, seja de que gênero for.

Enfim

O Segredo de David não é um filme convencional do gênero, peca talvez por insinuar demais e não desenvolver o suficiente, o texto também é fraco em alguns momentos, mas entrega uma trama intrigante e reflexiva, apresenta motivações interessantes para seu protagonista, cria personagens complexos e bem trabalhados, atuações muito fortes e um estilo cinematográfico incrível que nos faz querer ver mais trabalhos de Diego Freitas. Davi entra na minha lista de psicopatas favoritos e o filme deixa aberto um gancho para uma futura continuação, divirtam-se!

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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[Total: 10 Média: 4]

Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.