Crítica: O Mecanismo provoca e levanta poeira, mas se perde em meio as engrenagens

“Este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em eventos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para eleito dramático.” Este é o inicio de tudo, leia sempre antes de se posicionar, assista tudo antes de falar, é para o nosso bem!

A Escolinha do professor Padilha

Esquerda caviar, Direita coxinha, Lei Rouanet, Caixa dois, PT, PMDB, Lula, Dilma Aécio, Temer, sabemos tanto de política quanto demonstramos nas redes sociais ou só estamos tentando provar que o outro está errado?

Que existe um “sistema” e um “Mecanismo” articulado de corrupção em nosso país é inegável, mas seu funcionamento, engrenagens e envolvidos ainda não é um assunto que cativa a população. O Brasil não ensina política nas escolas, não discute em família, não educa as gerações e, a consequência disso é uma população de falsa esquerda e direita, sem argumentos suficientes para se posicionar e lutar pelos ideais verdadeiros de ambos os lados, nisso votamos no Tiririca e nos “orgulhamos” dele não ter tido nenhuma falta durante o mandato, desesperador.

Leia também: José Padilha | A mente por trás de O Mecanismo

É sofrível ver que Padilha sacrifica de evoluir a trama em sua velocidade para literalmente desenhar na parede como tudo funciona e torcer para que o público entenda. Quase documental, Padilha parece impaciente para gritar “pronto, é isso, podemos começar o pega-pega?”

Zé parece não se posicionar, acusa Lula e Aécio, Temer e Dilma e bota no balaio toda corja responsável pela degradação do nosso país, vimos o Triplex, discurso do vento – mas vimos o plano do vice, a revista “Leia” e todo apoio midiático disponível para um lado. Cartas na mesa e a decisão na sua mão, na série somos Rufos e Verenas, expectadores revoltosos tentando acabar com essa sujeira.

Qual é realmente o espaço criativo ao retratar figuras conhecidas numa obra de ficção?

Padilha parece seguro de seu entendimento ao “camuflar” importantes personagens como Lula, Aécio, Dilma, Moro e muitos outros figurões que habitam nossas timelines e jornais todos os dias, o caricato de O Mecanismo funciona, satiriza e referência em bom tom, uma pena não poder dizer o mesmo sobre o elenco Policial.

Para quem não acompanha sua carreira, Zé costuma escrever suas opiniões políticas na Folha de São Paulo regularmente, atacando vermelhos e azuis e desconstruindo as peças desta máquina destruidora de vidas.

***CUIDADO SPOILERS***

Que tiro foi aquele?

Ao fim do segundo episódio, vimos que a impotência de Rufo(Selton Mello) alcança seu ápice quando ele engatilha sua arma e dispara em sua própria cabeça. O choque foi total, como expectador me senti empolgado e surpreendido, afinal, a força motivacional para o restante da equipe estava renovada, Verena(Caroline Abras) buscaria vingança para seu mentor, pois bem, nos enganamos feio. Entra em cena o fantoche de Rondônia, com a dualidade que permeia e invoca a desconfiança, mas não muito longe, é simples a suposição de que Rufo está vivo e por traz das descobertas recentes, um vigilante sombrio, porem sem qualquer consequência evolutiva.

Com uma volta morna do mundo dos mortos, descobrimos que na verdade o único que não sabia disso era justamente o público, pois todos, incluindo os vilões, estavam a par do ocorrido e de sua recuperação. Aliás, um descuido grave de continuidade e direção é não deixar nenhuma cicatriz, é a primeira coisa que se procura quando o retorno do personagem acontece, procuramos em vão e a sensação que fica é que nem o próprio sabe de sua suposta morte e continua exatamente de onde parou, dez anos atrás.

A falsa mulher forte de Taubaté

A intenção é boa, parece boa, mas, mais uma vez Padilha tem dificuldade em seus personagens femininos, sempre submissas, revoltadas, nunca críveis ao nível de importância que merecem, mesmo sendo a chefe de uma divisão da Polícia Federal.

Verena traça a jornada da aprendiz, assume o manto e dá a cara a tapa em todos oito episódios, a personagem é rebelde, comprometida, decidida, sensual e poderosa, mas é realmente um pesar este “mas”, a personagem depende sempre que algum homem lhe autorize, dê uma dica ou mesmo queira estar com ela. Um falso poder que desgasta com o tempo e acaba por findar a temporada em uma personagem frágil cercada de protetores, incluindo Ruffo, aquele tio que ouvia Pear Jam e você achava o máximo? pois é.

O romance entre ela e Cláudio(Lee Taylor) não convence e não gera expectativa alguma para seu desenvolvimento, as senas de sexo não tem química –  apesar do ritmo e ótimo trabalho de direção nos três últimos episódios, em alguns momentos soa constrangedor e expositivo, gratuito.

Se tamanho faz diferença, Direção faz muito mais

Diversificando entre ótimos profissionais, O Mecanismo deixa nítido as diferenças entre seus diretores

EP 1 – José Padilha

Agressivo, impactante, sombrio, planos médios e longos, Padilha revive as estruturas básicas de seu estilo em Tropa de Elite e Narcos – Narração em off, cortes secos, câmera desorientada junto a pertubação dos personagens.

EP 2 e 3 – Filipe Prado

Foca em desenvolvimento de personagens, utiliza câmera mais articulada e planos dinâmicos, ambientando e dando espaço para diálogos e o impacto causado por ele, os personagens realmente refletem sobre o que é dito. Destaque para a cena do camburão entre Ibraim e Rufo.

EP – 4, 5 e 6 – Marcos Prado

Experiente, detalhista, Marcos parece sempre saber o melhor lugar para a câmera estar, assume o miolo da série com eficácia, brinca de opressor e oprimido com ângulos diagonais, e traz expressões para mais perto de suas lentes na tentativa de extrair pensamentos de seus personagens.

Ep 7 e 8 – Daniel Rezende

Inventivo, moderno e dinâmico, a câmera de Dani Rezende não para quieta, mas também não treme ou incomoda, te faz de espião e traz inovação ao desfecho da primeira temporada, drones, câmera na mão, câmera na mesa, respeito na cena de sexo, aliás, notem a diferença entre as cenas de sexo de Verena nos episódios de Marcos Prado e Daniel Rezende, Marcos escracha em desejo e ritmo, mas cai no clichê da mulher devorada, exposta vulgarmente sem cuidado estético de proteger a essência do personagem, enquanto isso Daniel Resende parece mais prático e seguro de fazer esta transição ao mesmo tempo em que entende o lugar de Verena e Claudio, ainda estão ali os seios expostos, mas entram em detalhes o beijo, a mão, os cabelos e os ângulos calculados para que o sexo não seja apenas uma desculpa para expor o corpo de Carol Abras.

Mas enfim, vale a pena?

Didática e clichê, O Mecanismo se apresenta, mas não tem tempo suficiente de conquistar, peca na construção de personagens, entrega diálogos enlatados e caricatos, mas compõe com competência o objetivo de sua primeira temporada, coloca as peças no tabuleiro, explica o jogo e torce para que o público entenda, discuta e tire suas conclusões, tudo isso em ano eleitoral.

 

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.