Crítica: Drama, afeto, tolerância e a aura musical e nostálgica de Paraíso Perdido

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Sob a luz cálida que iluminava o palco da boate familiar de Paraíso Perdido, surge a figura de Erasmo Carlos abrindo a noite da casa e dando início ao novo filme da cineasta Monique Gardenberg, numa narrativa muito bem estruturada entre drama, afeto, família e a aura musical e nostálgica das décadas de 60 e 70. Aqui o amor é livre, é um lugar onde não cabe nenhum tipo de preconceitos e intolerância, um lugar para quem realmente sabe amar e viver a vida.

Na trama, José (Erasmo Carlos) é o chefão da família e dono do estabelecimento onde praticamente toda a história é concentrada. Ele é pai de Ângelo (Júlio Andrade), Eva (Hermilia Guedes) é também pai adotivo de Teylor (Seu Jorge), além de avô de Celeste (Julia Konrad) e Imã (Jaloo). Todos eles trabalham na boate e se apresentam nos palcos fazendo performances de cantores de músicas populares e românticas.

Durante um intervalo de uma das apresentações da casa, Imã é agredida na rua por homofóbicos e acaba sendo socorrida por Odair (Lee Taylor), um policial que se divide entre o trabalho e cuidar de sua mãe surda, a ex-cantora Nádia (Malu Galli). Com isso, Odair passa a trabalhar para a família na boate, e aí se inicia uma verossímil e gostosa história de romance, vingança, traição, afeto, mistério e drama, numa concha em que colocará o passado e o presente frente a frente.

Monique apresenta uma direção firme e a narrativa nos convida a passear por várias histórias paralelas e todas elas são muito bem amarradas, cada qual com a sua importância. Aqui, todas as relações construídas têm suas ações e reações, e todos os personagens parecem se conectarem de alguma forma, numa árvore genealógica que sustenta todos os personagens e suas respectivas histórias.

A trilha sonora é um deleite, é impressionante como funciona bem – assinada pelo excelente cantor, compositor e cronista Zeca Baleiro, todas as canções escolhidas por ele contam uma parte da história, e tudo é perfeitamente encaixado e ilustrado com cada narrativa apresentada, além de seguir legitimamente as tradições dos musicais da época. O brega, o gênero que infelizmente se perdeu com o tempo, em Paraíso Perdido é resgatado com louvor e traz de volta às lembranças com as grandes coleções de canções trazidas por Zeca Baleiro.

A boate é um espaço de tolerâncias, um ambiente nada perdido, ali todos se aceitam, não há lugar para preconceitos, os conflitos existem, e todos são absorvidos e eventualmente resolvidos com o amor e afeto. Outro ponto importante no filme é a inclusão social, a LIBRAS tem seu papel fundamental para que alguns personagens se conectem na trama, até um simples diálogo sobre em que um dos personagens diz ter aprendido a língua de sinais assistindo aos programas da Xuxa, serve como um puxão de orelha sobre a ausência desse tipo de inclusão.

Além da comunicação de sinais, vários tipos de linguagens estão presentes, seja ela pela música, na dança, no corpo, na sensualidade, nos olhares, ou, até mesmo, numa simples tradução do inglês para o português de uma música – todas as formas de comunicar são usadas para expressar as diversas formas de amor.

Paraíso Perdido é encantador, é realmente um lugar para aqueles que sabem amar e traz um elenco afinadíssimo, que podemos chamar de um drean team, que também conta com a participação da Marjorie Estiano e Humberto Carrão – as atuações memoráveis tanto no palco quanto no drama, talvez seja o filme mais atraente de Monique Galdenberg, que apesenta uma filmografia muito interessante em sua carreira como “Jenipapo” (2015), “Benjamim” (2014) e, talvez o seu filme de mais sucesso até então, “Ó Paí, Ó”, de 2007. 

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza