Crítica | PéPequeno ensina tolerância apresentando uma animação visualmente impecável

Já tem um bom tempo em que as animações deixaram de ser apenas um entretenimento. Hoje, além de divertir, esse universo fantástico e criativo insere em seu contexto, mesmo que de forma lúdica, temas e mensagens a fim de propor debates e reflexão para todas as idades.

Em PéPequeno, nova animação da Warner Bros. Pictures, acompanhamos uma jornada sobre questionamentos, leis, comunicação e, sobretudo, a importância do conhecimento – tudo isso sob a perspectiva dos Yetis, mais conhecidos como O Abominável Homem das Neves, ou Pé Grande. O roteiro do também diretor Karey Kirkpatrick (A Fuga das Galinhas) brinca ao desconstruir a lenda dos Yetis trazendo uma inversão de papéis, onde os monstros, para eles, somos nós, os pés pequenos, e essa lenda, crença ou mito “assombram” a comunidade deles por milhares de anos.

A trama além de peculiar é simples, o que não desqualifica em nada a obra, aqui acompanhamos Migo (voz original de Channing Tatum), um jovem e simpático yeti, que vive em comunidade com outros da mesma espécie em uma montanha cheias de regras ditadas por pedras (uma espécie de bíblia – regras religiosas), Migo está em treinamento com o seu pai para se tornar o novo tocador do gongo, uma importante função dentro da comunidade. Durante esse treinamento, acidentalmente ele se depara com um humano e, ao ver o tamanho do pé que este homem tinha, percebe que estava cara a cara com a figura mitológica Pé Pequeno.

A descoberta então coloca em dúvida a existência dessas pedras e, por medo de ter uma comunidade sob questionamentos, o senhor guardião destas pedras decide banir o Migo da comunidade, que, a partir deste mote, e com a ajuda de alguns rebelados, ele parte em busca do Pé Pequeno para provar a sua verdade e assim acaba descobrindo segredos e um mundo muito maior do que sempre acreditou existir.

A animação tem inúmeros momentos engraçados e a narrativa vai se desenrolando com uma dinâmica guiada pelo humor, que atinge a todas as idades. Os personagens, em sua maioria, têm cada qual suas características, alguns para dar o tom engraçado, outros para balancear com o drama – como na maioria das animações, que sempre tem aqueles personagens pontuais com piadas sem falas, aqui não é diferente, e uma cabra come tudo é inserida em alguns momentos para elevar o humor dentro da narrativa.

A trilha sonora é também um dos pontos chaves, apesar da animação já iniciar com umas das canções, o que foi desnecessária e fora do contexto. As outras canções, além de serem pegajosas, além de fazerem parte daquele momento, também auxiliam a trama e conversa com os personagens. Os destaques ficam para Under Pressure, do Queen, que foi adaptado e traduzido de forma essencial para a cena, e também a música Wonderful Life, cantada por Zendaya no original.

A parte visual também vale destaque, impressiona com a qualidade dos movimentos dos pêlos dos Yatis, a neve e as nuvens (que têm função importantíssima), são muito bem apresentados visualmente, mas são as digitais dos Pés Grandes que chamam a atenção pela perfeição. Os personagens gigantes e peludos principais também tiveram um bom tratamento, cada um com a sua característica diferenciada dos outros, o que dá vontade de colecionar cada um deles

PePéqueno é muito mais que uma história invertida sobre lendas, é, além de tudo, uma crítica ao preconceito e à reação do ser humano com o estranho e sua forma de agir agressivamente com o diferente, sem ao menos tentar uma comunicação, e isso fica evidente no filme com o fato dos idiomas dos yetis e dos humanos se divergirem, mas quando os dois estão abertos a se comunicarem, não há idioma nenhum que impeça. A analogia colocada em tela, em que ambas as espécies, de alguma forma, sentem medo uma da outra, é um pouco da realidade atual em que estamos presenciando, onde a abertura para diálogos e compreensão está cada vez mais distante das pessoas.

 

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza