Crítica: Projeto Flórida é tocante, colorido e extremamente natural

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Tente por um segundo olhar o mundo com os olhos de uma criança, tudo vira mágica, a sua mesa de escritório daria uma ótima cabana ou esconderijo, a cadeira de rodinhas que você passa boa parte do dia sentado daria uma nave, um carro ou um belo tombo pelo menos. O lúdico mundo de uma criança não percebe o quão perigoso, brutal e dificultoso pode ser a realidade.

Projeto Florida conta a história de Moonee (Brooklynn Prince), uma menina morando com a mãe (Bria Vinaite) desempregada num hotel decadente nos arredores de Orlando. Moonee parece ser totalmente alheia ao ambiente e transforma tudo em seu reino particular de aventuras, seja pedir dinheiro na sorveteria, cuspir em carros com seus coleguinhas ou vender perfumes falsificados com a mãe num hotel de luxo.

Por que ver este filme?

Sean Baker é um diretor relativamente novo, trazendo em seu portfólio filmes como Tangerine, feito 100% com um Iphone 5S, e que agora decidiu contar uma história de inconsequências, fragilidades, fracassos e proteção. A jornada da pequena Moonee traz como pano de fundo temas pesados, como a pobreza, as drogas, pedofilia, discriminação e uma mensagem importante sobre como o ambiente e os pais podem influenciar na educação de uma criança, tudo isso a poucos metros da Disneylandia, a terra dos sonhos.

Halley – A Mãe Desnaturada

Seu primeiro instinto com certeza será julga-la, afinal é uma mãe solteira, desleixada e folgada, uma jovem de cabelo azul, tatuada e que não parece se importar muito com o bem estar de sua filha. O que sabemos é que Halley perdeu o emprego de stripper, que não se importa com o que pensam dela e que faz o que for preciso, mesmo que seja ilegal, para satisfazer suas vontades e um teto sob suas cabeças.

A pergunta certa a se fazer é o que teria acontecido na vida dela para chegar neste ponto, algo que não sabemos, jamais saberemos, mas podemos analisar mais afundo alguns aspectos, com por exemplo o fato de não conhecermos nada sobre o pai de Monnie ou qualquer outro parente das duas, Halley em suas cores parece muito mais alguém que comprou o sonho americano em algum momento, mas que desbotou ao perceber que a Disneylandia, embora tão próxima, não foi feita para pessoas como ela.

Em sua rebeldia contra o sistema, Halley não percebe que seu comportamento é espelhado pela filha e que está criando a si mesma no futuro.

Bobby – O protetor

Personifique o conceito de proteção(segurança, conforto, coragem, abrigo) e some a isso Willem Dafoe e provavelmente você vai entender este personagem. Bobby é o gerente do hotel , o responsável tanto pelo bem estar dos hospedes quanto por fazer valer as regras do estabelecimento.

Willem Dafoe dá vida a este homem simples e trabalhador, um personagem solitário que entende o hotel e seus ocupantes como uma estranha família, inclusive em uma cena é notável a relação dele com seu filho, que tenta uma reaproximação, mas que não vê no pai qualquer sinal de afeto ou familiaridade, algo que Bobby possui com Halley, sendo um  pai lidando com uma filha adolescente, tendo que ameaça-la diversas vezes para que cumpra com suas obrigações, mas sempre presente nos momentos de dificuldade da garota.

Bobby é um personagem interessante, aquele que tenta restabelecer a ordem em meio ao caos e, o modo como Sean Baker decide nos mostrar isso é impressionante, por mais de uma vez o acompanhamos em sua rotina, com planos sequenciais em seu caminhar  e transmitindo todo o sentimento do personagem e suas reações emocionais diante de cada situação.

O olhar do Diretor

O diretor, que também é roteirista nos proporciona a sensação espontânea de observar de uma janela a vida alheia, não se mantendo na obrigatoriedade de criar arcos fechados para seus personagens, algo que pode até mesmo causar estranheza ou cansaço pela repetição, mas que serve ao propósito de identificação pela naturalidade sem ter que se aproveitar de recursos auto afirmativos ou explicativos para entender cada personagem, o filme te leva a cada situação e a cada vida, e resta ao expectador a tarefa de julgar de acordo com suas próprias convicções.

Câmera na altura das crianças

Uma decisão assertiva é colocar a câmera quase sempre na altura das crianças, trazendo assim o ponto de vista delas sobre o que acontece, outro recurso para evidenciar isto é o foco, que muitas vezes coloca Moonee e os amigos em primeiro plano, mas deixa que o áudio dos adultos ao fundo vaze, mostrando os dois lado na mesma cena, é genial.

Ainda sobre os méritos de Sean Baker, gostaria de ressaltar os planos abertos e os planos sequenciais que além de cumprirem muito bem suas funções narrativas, ambientando e literalmente seguindo os personagens, como por exemplo as caminhadas de Bobby, Moonee e sua mãe vendendo os perfumes e até mesmo durante as travessuras das crianças, Baker é um diretor de sentimentos verdadeiros e que sabe dar tempo e espaço para que o ator entregue as emoções de seu personagem com fluidez e verdade.

Uma última peculiaridade de destaque no filme é o uso de não-atores, tirando Dafoe, o restante do elenco praticamente nunca fez mais do que pontas extras ou figuração em algumas produções, Bria Vinaite foi descoberta no Instagram e a pequena protagonista Brooklynn Prince já em seu primeiro papel consegue convencer e desbanca atuações infantis premiadas como a de Jacob Tremblay (Extraordinário, o Quarto de Jack).

Mas Bruno, afinal, vale gastar meu rico dinheirinho pra ver a vida desse povo?

Sendo breve, o que você vai encontrar em Projeto Flórida é a vida em sua forma mais real e muito provável, vai revisitar o mundo pelos olhos da infância.Particularmente me incomoda o desfecho, não pela forma, mas sim pelo roteiro, talvez as escolhas contradigam o que aprendemos sobre os personagens durante a trama, mas tirando isso, Projeto Flórida é um ótimo filme, com atuações monstruosas e uma cinematografia linda em sua composição visual.

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.