Crítica: Sequestro Relâmpago falha ao construir raros momentos de suspense e tensão

Presente na programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP, Sequestro Relâmpago, novo filme de Tatá Amaral traz uma história que infelizmente é cada vez mais corriqueira na vida de moradores de diversas cidades brasileira. Logo no início do filme, uma mensagem nos informa que a história é baseada em fatos e nem precisa fazer esforço algum para dizer que o roteiro deste filme partiu de uma história real de sequestro. Em 2017, ano em que o filme foi gravado, em apenas 4 meses, de Janeiro a Abril, a cidade de São Paulo registrou 129 casos de sequestros-relâmpago, de acordo com dados levantados pela GloboNews.

Pronto, roteiro perfeito para criar um thriller cheio de tensão, pavor, medo e tortura psicológica, mas, infelizmente, não é o que acontece com esse longa e, de longe, a história de Isabel (Marina Ruy Barbosa) representa, de alguma forma, as pessoas que sofrem esse tipo de sequestro e que passam horas de tensão e medo sob a mira dos bandidos e a impressão que o roteiro deixa é que as pessoas envolvidas neste longa não tiveram contato algum com pessoas que viveram essa experiência na pele, muito menos a protagonista.

O Sequestro:

Ao ir embora de um bar onde estava com alguns amigos Isabel (Marina Ruy Barbosa) é rendida já na porta de seu carro por dois jovens, Matheus (Sidney Santiago) e Japonês (Daniel Rocha), que a levam para sacar todo o dinheiro que ela tem na conta, mas ao chegar ao primeiro caixa eletrônico, em uma farmácia, o mesmo se encontrava quebrado, com isso foram até um shopping mais próximo para tentar novamente sacar o dinheiro, mas os sequestradores se deparam com o horário de funcionamento dos caixas que não permitiam mais sacar dinheiro naquele período, o que faz então eles rodarem com Isabel pela cidade até o amanhecer para, assim, realizar o roubo e soltar a jovem.

Até a construção do sequestro e a ida sem sucesso aos caixas, o longa se mostrava interessante e tinha uma boa carga de tensão, mas a partir do momento em que o filme se tornou um road movie criminoso pela cidade de São Paulo, as falhas começaram a aparecer uma atrás da outra. Erros de continuidade, como, por exemplo, sair da farmácia com uma chuva muito forte e rodar alguns poucos quilômetros até o shopping, a chuva foi totalmente ignorada na continuação, tá certo que a cidade paulistana tem essas particularidades, de chover em um local e algumas centenas de metros a frente não estar chovendo, mas ao menos o carro continuaria molhado e não totalmente seco, como foi mostrado.

Outra grande falha, que foi impossível de ignorar, é quando o trio está em uma hamburgueria e, de repente, um “clima de tensão” é criado com a chegadas de alguns policiais ao local. Nesse momento, um dos sequestradores se sente ameaçado com a presença dos policias e deixa sua arma engatilhada – um policial se aproxima na mesa do trio em uma cena recheada de tensão ajudada pela trilha sonoro que subia o tom com a aproximação e a cara de raiva do PM, até que o militar com um pacote de lanche EMBRULHADO PARA VIAGEM pede a um dos sequestradores uma BISNAGA de Ketchup. Todo o clima de tensão que foi criado é quebrado por risos das plateias e por uma ação sem sentido algum. E será que o policial levou a BISNAGA para viagem?

O roteiro tem dificuldade de inserir situações que preencham as horas de sequestro até o seu desfecho, cada momento construído entre a refém e os sequestradores ficam artificiais, assim como os diálogos que, de alguma forma, tentam debater o abismo social entre eles, com frases simples e robotizadas, que revertem a tensão pelo cômico e afunda de vez na tentativa falha de passarem para o público a sensação ruim de um sequestro,  que fica até difícil de acreditar se, de fato, tudo aquilo foi real.

Personagens sem construção: 

Pouco se sabe da história de Isabel no filme, Marina Ruy Barbosa, em seu primeiro longa-metragem, entrega uma vítima com poucas expressões e em momento algum ela parece estar em uma situação de tensão que poderá marcar sua vida para sempre. Para Matheus (Sidney Santiago), não há alguma construção de seu personagem que explique suas motivações para realizar um crime como esse. Já que o roteiro elabora alguns conflitos entres classes, trabalhar um pouco no desenvolvimento dos personagens era o mínimo que a direção poderia fazer. Já o Japonês (Daniel Rocha) é o único em que seu personagem tem algum desenvolvimento na trama, e durante algumas situações dentro do sequestro, é possível identificar o que o levou para o crime. Projota e Linn da Quebrada têm uma pequena participação na trama, que nada acrescenta.

 

Mas há alguns pontos positivos também…

Em alguns momento o espectador consegue entrar no clima e sentir o pesadelo de um sequestro, principalmente quando os dois sequestradores estão em conflito com os rumos que o crime tomou, os dois discutem algumas vezes, sempre com uma arma nas mãos, é nesses pequenos momentos que Marina consegue expressar situações reais de angústia e a parte final condiz muito mais com o drama de em sequestro, aqui é onde realmente o clima fica tenso com o rumo da história. Mas esses momentos são tão raros na trama que não são suficientes para sustentar toda a história.

No geral, Sequestro relâmpago falha em estabelecer com o espectador uma sensação real de sequestro, Tatá Amaral dona de uma filmografia interessante, com títulos elogiados como “Um Céu de Estrelas” (1996), “Através da Janela” (2000) , “Antônia” e “Trago Comigo” (2016) não faz o seu melhor trabalho e nem mesmo a noturna cidade de São Paulo usada como pano de fundo impressiona.

 

Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema de SP em Outubro de 2018

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza