Soundtrack | Crítica

Até onde um artista se dispõe a ir para desenvolver seu trabalho? Essa questão, que dá margem a entendimentos amplos, é a mesma a que o fotógrafo Cris (Selton Mello) se propôs ao se lançar em um novo e inusitado projeto. Buscando extrapolar os limites de sua arte, ele pretende produzir fotos que promovam diferentes sentimentos de acordo com a música ouvida no momento em que a imagem é contemplada. Como cenário desse experimento o fotógrafo busca o ambiente inóspito de uma estação de pesquisa polar no Artico.

Após uma rápida viagem e aclimatação, Cris é recebido pelo inglês mal-humorado Mark (Ralph Ineson), que teve de abrir mão de sua folga de Natal em companhia da esposa grávida para ciceroneá-lo. Em outro abrigo da mesma estação ficam alocados o botânico brasileiro Cao (Seu Jorge), o dinamarquês Rafnar (Lukas Loughran) e o biólogo chinês Huang (Thomas Chaanhing). Seja pelas atividades constantes dos cientistas da estação, seja pelo perigo que o ambiente polar representa para pessoas despreparadas, o fotógrafo não é bem recebido. No entanto Cris não está muito preocupado com isso, ele sabe que tem pela frente a maior obra de sua carreira e está ali para buscar os meios de atingi-lo. E são justamente esses pontos de vista bem resolvidos de cada lado que irão provocar atritos entre os pesquisadores e Cris.

Dai em diante o roteiro coloca o projeto fotográfico em segundo plano para trazer ao espectador uma profunda discussão sobre valores humanos. De um lado o tranquilão Cao consegue desenvolver alguma empatia com Cris, enquanto os demais pesquisadores fazem um contraponto ao se mostrarem intolerantes com a presença de um civil. Outro ponto é o preconceito declarado que os pesquisadores demonstram em relação ao trabalho artístico. Fica evidente a arrogância do inglês e do chinês ao tratarem a arte como algo desnecessário diante de seus trabalhos científicos. Todas essas questões vão gerar pequenos conflitos entre todos. Mas estamos falando de seres humanos, portanto sentimentos diversos irão surgir em meio a essa convivência.

Além dessa visão externa, também somos expostos aos dilemas internos de Cris. Com exceção de um curtíssimo flashback do momento em que o fotógrafo recebe a permissão para seu projeto, não ficamos sabendo mais nada de sua vida pessoal. Tudo o que teremos respeito do introspectivo fotógrafo será seu comportamento diante dos conflitos pessoais, das dificuldades criativas com seu projeto e de seus dramas solitários particulares. Selton Mello consegue compor um personagem denso, que tem seus momentos de isolamento, teimosia, resignação e confraternização, até as pazes consigo mesmo.

O roteiro ousado e a direção bem pontuada do coletivo 300ml (composto de diretores publicitários) consegue equilibrar todos esses ingredientes sem se esquecer do próprio projeto artístico de Cris. Essa mistura delicada e inusitada cria uma metalinguagem sutil onde a vida do fotógrafo se funde de tal maneira com seu projeto que tudo irá culminar em uma reviravolta que dará todo sentido à sua obra-prima.

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.


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