The Killing | Resenha

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Investigação Policial é um dos gêneros mais antigos do cinema tanto quanto popular. Desde os primórdios da indústria, passando pela temática noir, não são poucos os filmes e personagens que fizeram história. Com a popularização das séries de TV esse gênero ganhou ainda mais força, afinal o tempo disponível para explorar uma boa trama é bem maior do que o de um longa-metragem. Não é à toa que as diversas emissoras investem regularmente em projetos desse tema. Entretanto quantidade não significa qualidade. E no fim do dia são poucas as produções Policiais que realmente valem a pena.

E se tem uma série Policial que eu descobri ao acaso quando a AMC era insignificante e eu sempre recomento aos entusiastas do gênero, certamente é The Killing.

Pra dizer a verdade, esta é a segunda versão da mesma série. A original foi um seriado dinamarquês intitulado Forbrydelsen, o qual chegou a passar em algum canal de TV a cabo. A versão americana, objeto desta resenha, estreou em abril de 2011 com 13 episódios semanais. Nessa época a AMC ainda era uma emissora desconhecida no Brasil, afinal as séries que a popularizaram (Breaking Bad e The Walking Dead) ainda não tinham bombado. Com isso The Killing acabou passando quase desapercebida, tanto que foi cancelada ao final da segunda temporada. Após um ano em standby, o título foi comprado pela Netflix, a qual produziu uma ótima terceira temporada que dava um plot novo aos investigadores e ainda uma desnecessária quarta temporada.

A adaptação para aversão americana foi executada pela showrunner Veena Sud, que tomou a liberdade de criar uma nova ambientação, porém manteve o clima tenso e angustiante com uma narrativa lenta, porém bem cadenciada com boa alternância de ritmo.  Para enfatizar essa atmosfera densa, série é filmada em Vancouver a fim de recriar a ambientação típica de Seattle, onde a história se passa. O elogiado piloto da série, que gerou uma première de quase duas horas, foi dirigido por Patty Jenkins (Monster e Wonder Woman), que foi muito competente em traduzir visualmente o roteiro de Veena e determinou toda a estética dos episódios subsequentes.

A série se inicia com a notícia do desaparecimento da adolescente Rosie Larsen (Katie Findlay) após participar de uma festa na noite anterior. Em meio ao desespero dos pais Stan Larsen (Brent Sexton) e Mitch Larsen (Michelle Forbes) que possuem uma pequena empresa de transportes no subúrbio de Seattle, a polícia é acionada. A investigadora Sarah Linden (Mireille Enos), que estava se preparando para sair de férias com o filho, se apresenta para o caso. Após alguns dias de investigação ela conta com a ajuda de Stephen Holder (Joel Kinnaman), designado para o Departamento de Homicídios após ser promovido da Divisão de Narcóticos. A trama se complica quando um dos suspeitos é o político carismático local em campanha para governador, Darren Ritchmond (Billy Campbell). E pra piorar mais um pouquinho a dupla de investigadores nutre uma relação difícil com o superior, James Skinner (Elias Koteas).

Até aqui parece não haver muita novidade em relação a uma trama policial. The Killing mudou o paradigma de séries policiais, as quais antigamente tratavam de um caso fechado por episódio. Ao ter quase 600 minutos à disposição o roteiro se deu ao luxo de aprofundar tanto os personagens quanto as situações cotidianas de forma a criar uma atmosfera tão real e densa que mais parece estarmos assistindo a um noticiário local.

Sarah Linden já tem seus problemas desde criança, pois foi abandonada logo cedo. A figura materna mais próxima é a assistente social Regi, mas a relação entre elas é conflituosa. O ex-marido a deixou pelo fato de a investigadora mergulhar tão fundo no trabalho que praticamente a exclui de uma vida social. Por conta disso a relação com Jack, o filho adolescente também começa a degringolar. Mesmo sabendo que sua arriscada profissão complica todos os seus relacionamentos, a polícia é como um vício para Sarah, onde ela procura compensar algo que lhe foi tirado na infância.

Não menos problemático é Holder. Ele iniciou na como investigador da Divisão de Narcóticos após ter sido preso diversas vezes por posse e tráfico, virando então informante. Apesar de estar limpo há alguns anos, sua dependência química abalou fortemente a relação com sua irmã e o sobrinho. Ainda impregnado do visual, dos trejeitos e das gírias das ruas Holder tenta parecer forte e seguro, mas essa máscara não é suficiente para esconder um homem fragilizado que tenta se agarrar no pouco que tem à sua volta para se sentir humano.

Antes de tratar do desaparecimento e assassinato de Rosie, é disso que trata The Killing, de ser humano. Ou melhor, da dificuldade em ser humano quando a vida não foi fácil como um comercial de margarina. Os demais personagens não ficam atrás em termos de profundidade. A crise instaurada entre o casal Mitch e Stan Larsen é tão angustiante quanto realista. Os segredos do candidato Darren Ritchmond e a ambição desenfreada de seus assistentes são profundos e igualmente realistas. Enfim, todas as subtramas de The Killing contribuem para o clima tenso, mesmo que traga personagens descartáveis.

O roteiro entrega uma trama muito bem elaborada, onde os policiais se frustram recorrentemente por conta de pistas infrutíferas e testemunhas não muito idôneas. Esse recurso em si é ótimo para criar plots e situações inesperadas, porém usado repetidamente acaba sendo um tanto cansativo e até óbvio. Faltou um pouco de criatividade pra sair de um paradigma padrão em todos os episódios em que uma pista aparentemente quente conduz a mais um beco sem saída. Com isso também fica difícil de o espectador tentar montar o intrincado quebra-cabeças que vai se revelando. Felizmente esse é o único problema da série.

Quem assistiu à exibição original sofreu com o cancelamento inesperado, já que a primeira temporada deixa muitas pontas em aberto, não dando a certeza da resolução do caso. Felizmente agora as temporadas todas pertencem à Netflix e podemos assistir às duas temporadas de uma vez pra compreender o caso todo. A terceira temporada investiga uma rede de prostituição de adolescentes, trazendo um clima ainda mais pesado à série. Destaque para o personagem James Skinner que cresce muito nessa temporada.

Mesmo com suas pequenas falhas de roteiro, The Killing é certamente uma das séries policiais mais intrigantes e apaixonantes da atualidade.

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 12 Média: 3.1]

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.