The Sinner | Resenha

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Logo nos primeiros minutos do primeiro episódio fica claro que Cora Tannetti (Jessica Biel) está razoavelmente infeliz com o que parece ser o início de uma crise em seu casamento. Mesmo a rotina tranquila e os passeios com o filho pequeno e o marido Mason Tannetti (Christopher Abbott) estão distantes de uma vida familiar em harmonia e felicidade. Até aqui, nada de incomum, afinal é normal que casais enfrentem pequenas crises ao longo de seu relacionamento. O que vemos em tom bastante realista é uma esposa e mãe se esforçando para manter aquele núcleo vivo. Nesse sentido, as coisas vão caminhando até que um episódio parece ser a gota d’água para trazer à tona toda a raiva contida e inexplicada de Cora.

Enquanto estão na praia em uma bela manhã de sol, a moça simplesmente não consegue se concentrar nas conversas distantes do marido nem mesmo nas brincadeiras do filho. Um grupo de jovens à poucos metros de distância parece provocar um intenso desgosto em Cora. A música e as conversas do grupo parecem irritá-la profundamente. Sentimentos ruins e descontrolados a invadem, até que ela simplesmente se levanta, vai até eles e esfaqueia violentamente um dos rapazes.

Embora filmes e séries de investigação policial a respeito de um assassinato sejam um tema recorrente, The Sinner surpreende e choca tanto pela inversão desse plot (já sabemos quem é o culpado), quanto pela violência explícita vindo de uma simples mãe de família em reação contra um desconhecido numa situação completamente banal.

Dessa forma resta descobrir a motivação de Cora para cometer um crime tão torpe. É aqui que entra em cena o detetive Ambrose (Bill Pullman). Em termos de originalidade o investigador não tem nada, apenas segue o estereótipo bem comum de policial depressivo cuja vida foi devastada por um fato passado e ele se entrega totalmente ao trabalho como forma de compensar algo pelo qual se culpa.

No caso de The Sinner, isso acaba sendo algo positivo, afinal Ambrose parece ser o único interessado em realmente entender o surto psicótico que levou Cora ao esfaqueamento enquanto todos na cidade já a consideram uma assassina fria e irrecuperável. Assim começa uma investigação que está muito além das cenas do crime e dos fatos concretos. O grande mistério está mesmo no passado sombrio e traumático de cora, o qual foi sublimado por tantos anos de sofrimento e frustração.

Os elementos que compõe a motivação de Cora são revelados pouco a pouco, conforme o detetive consegue penetrar nos labirintos da mente da acusada. Lembranças picotadas de sentimentos, imagens e sons começam a formar um quebra-cabeças desconexo, ainda que cada detalhe tenha importância na descoberta do que levou Cora ao crime. Tanto a dificuldade da protagonista em se recordar do passado quanto as lembranças que não encontram eco nos testemunhos das pessoas próximas a ela vão minado a confiança de Ambrose e principalmente do espectador. Aí é que está o ponto alto de The Sinner: mesmo com uma trama simples, o contínuo clima de suspense e a ausência de empatia de Cora acabam gerando uma tensão e curiosidade sobre o que mais será revelado.

A atuação excepcional de Jessica Biel colabora e muito com essa atratividade da série. Como a história se passa em duas linhas narrativas, temos a Cora criança / adolescente feliz e inocente descobrindo a vida ao mesmo tempo em que a Cora acusada e em pânico tenta (re)descobrir seu passado. Entre essa dicotomia intensa de emoções está a apatia constante do detetive Ambrose, cuja interpretação sem muito comprometimento de Bill Pullman consegue dar conta do recado. As reviravoltas e revelações seguem um ritmo bom ao longo de quase toda a série, chagando ao sétimo episódio com mais dúvidas do que resposta. Com isso o capítulo final peca por tentar dar explicações apressadas e simplórias às diversas pontas soltas que ainda complicavam a trama.

Ao final fica no ar o significado do título (The Sinner / Pecador), o qual se revela tão ambíguo quanto subjetivo. Isso acontece devido ao grau de profundidade dos personagens principais, os quais felizmente não foram reduzidos a meros estereótipos. Essa é uma das grandes vantagens das séries: com cerca de 350 minutos à disposição do roteirista, é quase uma obrigação elaborar personagens com camadas mais profundas. Isso The Sinner faz muito bem. E mesmo que o desfecho óbvio acabe “perdoando” os envolvidos, nem todos terminam bem consigo mesmos.

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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[Total: 1 Média: 4]

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.