Crítica: Um presente para os ouvidos, Todas as Canções de Amor entende o amor do começo ao fim

Dois casais interligados por uma condição especial, uma fita cassete com músicas selecionadas e significativas.

Ana e Chico (Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa) são recém casados e durante a mudança para o novo apartamento encontram um aparelho de som abandonado, provavelmente deixado pelos antigos proprietários, nele, uma fita cassete feita por uma tal de Clarice para um tal de Daniel (Luiza Mariani e Julio Andrade), com uma seleção de músicas que dizem muito sobre o momento dos dois.

O longa de Joana Mariani intercala a vida destes dois casais, Clarice e Daniel no início dos anos 90 vivendo o fim de uma relação conturbada e, nos tempos atuais temos Ana e Chico, recém casados, conhecendo e construindo uma relação. Uma dualidade interessante e muito bem executada, a montagem é dinâmica e favorece ambos os núcleos, as atuações são sinceras, carismáticas e espontâneas, existe uma construção detalhista na Direção de Arte que consegue “personalizar” os apartamentos para que remetam a personalidade de ambos os casais e nisso muitos móveis falam por si, uma delicadeza de mãos dadas com a narrativa.

O grande trunfo de Todas as Canções de Amor está na escolha criativa da diretora que também é roteirista do filme, é em utilizar as canções como elemento narrativo, inseridos de forma reflexiva e objetiva, tanto que ouso dizer que retirar ou inverter a ordem de qualquer uma delas alteraria o resultado como um todo. Do rock ao Magal, de “Drão” a Leandro & Leonardo, as músicas tem propósitos, dita o tom e o ritmo das cenas e molda os personagens conforme se desenvolvem.

Do Começo ao Fim

A grande diferença entre a paixão e o amor é o tempo, a bagagem e as experiências compartilhadas, o resultado da paixão é o conhecimento contínuo do outro, amor é se reconhecer no outro, mas também existe o desgaste, o risco do comodismo e os desejos de cada um ao longo da vida, Ana e Chico estão na paixão, apostando no amor, enquanto Clarice e Daniel já se conhecem muito bem, já se deram as chances e já se conformaram com o possível fim, mas não sem amar, sem o medo da perda, um amor é um amor até o fim.

Em um primeiro momento é notável a diferença de atuações do restante do elenco para Marina Ruy Barbosa, a atriz carrega os vícios de uma atuação televisiva agravada por alguns diálogos que não lhe ajudam, nada que prejudique a trama, mas que contraposta com Julio Andrade e Luiza Mariani soa gritante, mas passageira – conforme o roteiro discorre, Marina engrena e agrada, às vezes auxiliada por Gagliasso, mas com certeza um talento que ficaremos felizes em ver mais vezes no cinema.

Ainda falando das atuações, o casal Clarice e Daniel só pôde ser tão verossímil por conta de atuações tão intensas quanto a de Luiza Mariani e Julio Andrade, o músico acomodado e o espirito livre, um caos arranjado representado nas expressões corporais e faciais, até as sobrancelhas de Julio Andrade contam muito do casal. Quanto a Gagliasso e Marina, o papel do casal em descoberta também é delicado e muito bem representado, tem pureza e desconforto, tem novidade e adaptação e principalmente, tem muita verdade em cena.

Todas as Canções de Amor é um romance incrível e delicado, utiliza os recursos principais como Montagem, fotografia, direção de Arte e principalmente a trilha sonora de maneira criativa e muito bem desenvolvida, possui um roteiro reflexivo sobre momentos das relações e personagens cativantes e bem aproveitados, um filme para amar, chorar e cantar.

Filme visto durante a 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo – 2018

 

 

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Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.