Crítica: Documentário Torquato Neto – Todas as Horas do Fim é tão poeta quanto ao próprio Torquato

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Um dos grandes desafios de produzir um documentário de uma personalidade que já não está mais entre nós, talvez seja a busca de registros em áudios e vídeos da pessoa documentada. Em Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, os diretores Eduardo Ades e Marcus Fernando se depararam com essa limitação de material, mas, na base de muita criatividade e sensibilidade, entregam um documentário apaixonante em forma de poesias, músicas e depoimentos, a mensagem do filme é transmitida com clareza e intensidade, assim como foi a vida do poeta, o que permite ao espectador receber e entender melhor toda a beleza criativa do artista.

Torquato Pereira de Araújo Neto se suicidou em seu apartamento na madrugada de 10 de novembro de 72, no Rio de Janeiro, quando tinha 28 anos. O artista, além de poeta, compôs várias músicas em parceria com Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, entre muitos outros nomes e, com eles aderiu também ao movimento Tropicália.

Foi também jornalista, ator e diretor – no início dos anos 70 atuou como personagem-título no filme “Nosferato no Brasil”, de Ivan Cardoso, e meses depois, em Teresina, rodou seu primeiro filme “O Terror da Vermelha”. Torquato também era um grande admirador de Glauber Rocha, tanto que alguns trechos dos filmes do Glauber, inclusive Deus e o Diabo na Terra do Sol, aparecem no documentário e o bacana é que cada trecho apresentado trazia a sensação que aquilo representava momentos da vida de Torquato Neto.

A montagem do documentário chama atenção por boa parte dele ser registrada em Super-8mm, formato em que o poeta se aventuraria como cineasta. O filme é montado com vários depoimentos de amigos e familiares, além de mais de 200 fotos do Arquivo Torquato Neto, leituras de poemas e colunas de jornais, e também, foram utilizados vários trechos de 40 filmes entre o Cinema Novo e o Cinema Marginal, o que faz a gente navegar e viajar pela história do nosso cinema. E, entre uma leitura narrada por Jesuíta Barbosa e trechos de filmes, somos beneficiados com várias canções em que Torquato participou.

Jesuíta Barbosa:

Documentar a vida de um poeta e compositor, sem ter encontrado registros da sua voz em algum acervo pode parecer frustrante, a solução encontrada pelos diretores foi a escolha do ator Jesuíta Barbosa, para narrar os 26 textos e poemas de Torquato que forma escolhidos pela direção, um acerto imensurável. A voz de Jesuíta tem potencial, apesar do ator ser pernambucano e o poeta piauiense, ambos são nordestinos e Jesuíta evoca o sotaque que seria de Torquato, o ator dubla com sentimentos, dá drama e vida as poesias, ao ler cada um dos poemas, sua voz infiltra no nosso inconsciente e, por minutos, nos faz sentir a presença do poeta. Os poemas de Torquato têm níveis de emoções totalmente distintos, varia do sarcasmo, ironia, colunas de jornais em que o poeta falava diretamente com o leitor, dedo na cara, provocações e drama, e Jesuíta soube expressar cada nível de sentimento que os poemas exigiam.

Todas as Horas do Fim é uma mistura poética de documentário, registros históricos e, principalmente, uma merecida homenagem ao poeta piauiense que, talvez, uma grande parte do público brasileiro nem conhecia ou nem imaginava a importância e a grandeza que Torquato Neto é e foi para a cultura tupiniquim, e o documentário soube perfeitamente apresentar a vida e a obra do poeta para o público.

“O Brasil precisa de fato, descobrir quem foi o grandioso artista Torquato Neto”.

 

 

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Publicitário, Designer e Crítico de Cinema. É obcecado por monstros gigantes e, talvez, o ser que mais assistiu Breaking Bad neste planeta. Raulseixista desde a infância, hiberna uma vez por ano nos alpes de Itapira, ouvindo 12 horas interrupta do Maluco Beleza