True Detective S03 reencontra seu clima de tensão e mistério | Crítica

A espera pela terceira temporada de True Detective foi marcada por sentimentos conflitantes. Depois de uma estreia incrível e uma segunda temporada completamente decepcionante os fãs não sabiam bem o que esperar. Uma pista do que vinha pela frente era a escolha de Mahershala Ali, já que o ator muçulmano tem escolhido boas produções para atuar. E felizmente a série criada por Nic Pizzolatto para a HBO voltou às suas origens e mais uma vez foi surpreendente!

A trama dessa temporada gira em torno do desaparecimento de duas crianças na remota localidade de Ozarks, no Arkansas. O ano é 1980 e a complicada investigação do caso fica a cargo da dupla de detetives Wayne Hays (Mahershala Ali) e Roland West (Stephen Dorff). Graças à constante calmaria da cidade interiorana, os policiais não possuem muitas habilidades investigativas, fato que se soma às outras dificuldades, como o pai alcoólatra (Scoot McNairy), a mãe drogada (Mamie Gummer) e a vizinhança preconceituosa. Em pouco tempo o corpo do garoto de 10 anos é encontrado, porém o de sua irmã menor e os motivos do crime não são descobertos. Após uma série de complicações a investigação é concluída com a prisão não convincente de Brett Woodard (Michael Greyeys) um veterano de guerra segregado pelos moradores locais.

Mas a história não acaba aqui. Em 1990 o caso é reaberto devido a suspeitas de má condução na investigação anterior, justamente quando o acusado está para ser executado por pena de morte. West é designado para conduzir a nova investigação e convoca seu antigo parceiro. Nessa nova etapa, são reveladas muitas pistas que foram ignoradas na década anterior. E finalmente em 2015 uma repórter investigativa decide fazer uma série de entrevistas com Wayne Hays, já que ela própria descobriu evidências que passaram despercebidas em ambas as investigações precedentes. A dificuldade agora é lidar com a memória de Waine, que sofre dos primeiros sinais de Alzheimer.

Grande mérito para o roteiro do próprio Nic Pizzolatto, que além de elaborar uma trama intrincada soube dividi-la em três linhas temporais diferentes, as quais vão se alternando ao longo dos episódios. Esse recurso propicia um clima de tensão e angústia constante ao mesmo tempo em que não deixa o ritmo da série esfriar. Aliás, o ritmo tem um timming perfeito, já que sempre que se torna um tanto arrastado, logo vem um ponto de virada surpreendente. Contribuindo para isso, Nic construiu personagens densos e reais que são reforçados no vai e vem constante de flashbacks.

Mais do que a investigação propriamente dita, a trama se aprofunda bastante na relação entre os personagens ao longo dos 35 anos em que se passa. E aqui, além da consistência dos roteiros, sentimos o peso da ótima atuação dos quatro principais personagens. Mahershala Ali simplesmente dá um show com seu ar sereno e inteligente dos anos 1980, passando a maduro e frustrado em 1990 para fechar com um idoso distante e sofrido pelas turbulências da vida. Desde sua aparição mais marcante em House of Cards e depois Luke Cage, o ator vem num crescente notável, tanto que levou Oscars de ator coadjuvante por Moonlight e Green Book. Stephen Dorff também se mantém seguro como Roland West ao longo dos anos, compondo um relacionamento cheio de altos e baixos com seu parceiro. Do elenco principal temos ainda Carmen Ejogo como Amelia Reardon, esposa de Wayne e Scoot McNairy como Tom Purcell, pai das crianças; ambos cumprindo muito bem seus papéis.

Não posso deixar de citar as sutis críticas sociais que entraram como subtexto nos roteiros de Pizzolatto, mas que ganham volume em determinados momentos da série. A cidadezinha sem futuro que gira em torno de uma grande empresa, os típicos habitantes rednecks racistas e a desvantagem profissional devido à cor da pele são alguns exemplos dessas críticas muito bem contextualizadas.

Fazer uma série baseada em antologia é uma tarefa realmente difícil, já que não se pode contar com a empatia dos fãs pelos personagens ao logo das temporadas. Nesse modelo a temática, a abordagem e a tensão dramática prevalecem sobre os personagens. E nessa terceira temporada de True Detective podemos constatar que Nic Pizzolatto acertou a mão!

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Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.