Crítica | Um Ato de Esperança traz Emma Thompson em drama complexo sobre religião

E se você pudesse salvar a vida de um adolescente que não quer ter sua vida salva por motivos religiosos, o que você faria? Em Um Ato de Esperança, a juíza Fiona Maye (Emma Thompson, de “Nanny McPhee – A Babá Encantada”) foi além do habitual e resolveu ir visitar o jovem no hospital, em um encontro que transformara a vida dos dois para sempre. Esse é o ponto central do novo filme dirigido por Richard Eyre (“Notas Sobre um Escândalo”) – ou pelo menos deveria ser. Mas o que parecia ser uma discussão sobre fé e religião acaba tomando outros rumos e perdendo sua essência.

Baseado no romance de Ian McEwan (“Desejo e Reparação”), Um Ato de Esperança (“The Children Act”) traz Emma Thompson como Fiona Maye, a juíza da Suprema Corte que preside casos eticamente complexos do direito familiar. Desde o início do longa, conhecemos Fiona como uma mulher forte, extremamente dedicada ao trabalho, sem filhos e quase sem tempo para lidar com seu casamento. Seu marido, Jack (Stanley Tucci, de “O Terminal”), se mostra totalmente insatisfeito com a relação dos dois e ameaça sair com outra mulher caso ela não lhe dê atenção.

Emma Thompson em cena de Um Ato de EsperançaAo mesmo tempo em que sua vida pessoal não está nada fácil, a profissional continua a todo vapor, com o serviço pesado e sua carga horária exigindo um desgaste pessoal de Fiona. Tendo recentemente presidido a um caso complexo envolvendo gêmeos, Fiona é convocada a decidir urgentemente se deve ou não permitir que um hospital realize uma transfusão de sangue em Adam Henry (Fionn Whitehead, de “Dunkirk”), um jovem, Testemunha de Jeová, diagnosticado com leucemia, que se recusa em fazer a transfusão de sangue que salvará sua vida.

Fiona decide, no meio do processo, visitar o menino no hospital – algo bastante heterodoxo – para descobrir o que exatamente ele quer. Ao conversar com o garoto, os dois iniciam uma amizade instantânea, ela o faz refletir sobre as consequências que ele teria caso não recebesse a transfusão de sangue e ele a faz refletir sobre a importância de não fazer a transfusão, o significado disso para ele perante sua religião. O julgamento de Fiona a favor da transfusão abre um mundo totalmente novo e libertador para Adam, que estava acostumado, até então, a ter sua vida circunscrita pelos ditames de sua religião.
cena de Um Ato de EsperançaO filme flui muito bem até o momento em que Fiona e o garoto se conhecem e iniciam um debate interessante sobre religião e ciência. Entretanto, em um terceiro ato mal apresentado, a trama foca no comportamento obsessivo de Adam, que começa a perseguir Fiona atrás de afeto, conselhos e um novo rumo para sua vida. Emma Thompson é uma atriz brilhante e consegue se sair muito bem em seu papel – ainda que o roteiro e a direção não a favoreçam – revelando em seus gestos e expressões as características de uma mulher forte e batalhadora, que tem que conciliar os seus problemas da vida pessoal com casos desafiadores de sua profissão.

Em suma, Eyre e McEwan tinham uma temática de extrema relevância em mãos, porém não souberam aproveitar e o resultado é um drama com uma sucessão de ocorrências complexas que se entrelaçam e confundem o espectador. Ao final do filme, você se pega pensando qual a verdadeira mensagem que o diretor pretendia transmitir.

E talvez seja justamente essa a intenção, fazer cada espectador refletir e interpretar da sua própria maneira. Embora, se o foco fosse apenas o debate entre religião e ciência, o longa chamaria mais a atenção do público e não cairia no esquecimento tão facilmente. Seja como for, só pelo desempenho admirável de Thompson, já vale o ingresso! 😉

 

Confira o trailer de Um Ato de Esperança:

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
Avaliação dos Visitantes do site
[Total: 2 Média: 4]

Jornalista e paulistana, apaixonada por São Paulo e por toda a cultura e o lazer que esta cidade oferece. Desde pequena admirada pela sétima arte e fascinada por sua evolução e sua influência na vida das pessoas das mais diversas culturas e classes sociais.