Eficiente, Tenso e sufocante, Um Lugar Silencioso é terror de alto nível | Crítica

Em uma rara tradução literal do título, Um Lugar Silencioso já dá uma pista do principal ponto que será explorado nesse misto de thriller psicológico e terror: o silêncio. E esse ponto tanto é bem utilizado como um recurso de sobrevivência dos personagens quanto é um elemento narrativo utilizado com muita criatividade.

O planeta Terra foi invadido por seres extraterrestres extremamente violentos e mortais que atacam ao menor barulho que escutam. O roteiro não dá detalhes sobre quando ou como ocorreu a invasão, muito menos qual foi sua amplitude. E isso não é um problema, pois só faz aumentar no espectador a sensação de isolamento e pânico. Tudo o que sabemos é que uma família sobrevivente consegue se instalar em uma fazenda afastada após pouco mais de um ano da invasão alienígena.

Neste cenário pós-apocalíptico Lee Abbott (John Krasinski) e sua esposa Evelyn (Emily Blunt) utilizam o pouco que tem às mãos para preservar a segurança dos filhos Marcus (Noah Jupe) e a jovem Regan (Millicent Simmonds). Detalhe importante é que a garota é surda-muda, fato que obriga a família toda a dominar a comunicação por sinais. Em um mundo onde qualquer som pode significar a morte, esse conhecimento pode ter sido um fator determinante para garantir a sobrevivência de todos. Ao mesmo tempo torna a garota uma vítima muito mais vulnerável que os demais. Falar qualquer coisa a mais sobre essa inteligente trama significa correr o risco de dar spoilers desnecessários.

O Roteiro assinado pelos jovens Bryan Woods e Scott Beck é bastante ousado, pois não pode contar com diálogos formais na maior parte do tempo. Com isso, as poucas e eficientes conversas se dão em linguagem de sinais e eventualmente por cochichos. Dessa forma não temos aqueles longos discursos didáticos ou mesmo locução em off explicando os fatos e os porquês como se a plateia tivesse 5 anos de idade. Diversos objetos cenográficos desempenham esse papel, alguns mais evidentes (como os cartazes), outros bastante sutis, o que exige atenção total do espectador.

Alguns momentos do roteiro podem soar como falhas (Por que vivem isolados numa fazenda? Por que não se armaram melhor? Por que andam descalços? Por que foi subir ali? Por que ninguém se ligou nisso antes? De onde ainda tem energia elétrica?), mas a ausência de explicações prévias detalhadas funciona como uma licença poética como que dizendo que eles sabem o que estão fazendo, já que a trama dá um salto temporal de quase 1 ano. Na verdade a sequência de abertura mostra um fato trágico sobre o filho caçula que nos dá a certeza de que a sofrida família teve de aprender muito a respeito de sobreviver.

Superados esses momentos negativos, o roteiro mostra inteligência e criatividade ao “brincar” com a dicotomia som X silêncio. Longas sequências de silêncio absoluto (que provocam o mesmo efeito na plateia) são alternadas com belas cenas explorando os sons da natureza. O deslumbrante auge dessa dicotomia vem quando Evelyn entra em trabalho de parto enquanto está sozinha e ferida. É tensão pura! Todos os sons, sejam naturais ou ruídos provocados pelos personagens são colocados de forma coerente. Mesmo os jump scares são bem encaixados e utilizados com moderação. O pouco uso de trilha sonora se mostra praticamente desnecessário, com uma grata exceção do momento em que Evelyn e Lee compartilham o fone de ouvido. Após um I Ato de introdução eficaz do cenário e dos personagens, o filme entra num ritmo alucinante até o último minuto, culminando em um desfecho imprevisível.

Dirigido pelo ator John Krasinski, Um Lugar Silencioso é um terror com toques de thriller psicológico intenso e diversas referências a filmes e cineastas similares. Personagens bem construídos e cuidadosamente dirigidos aumentam ainda mais o suspense constante que o filme oferece. Monstros assustadores que praticamente não aparecem em cena criam uma ansiedade terrível. Mesmo com pequenos furos de roteiro, certamente vai agradar aos mais exigentes fãs do gênero.

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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[Total: 7 Média: 3.7]

Tercio Strutzel ama histórias, seja no cinema, séries, livros ou quadrinhos! Foi editor do fanzine Paralelo, mas hoje quase não consegue desenhar. Se especializou em Presença Digital, mas tem diversos projetos fervilhando na mente. Está sempre em busca de atividades culturais por São Paulo.