Crítica: Venom é um retrocesso decepcionante e bagunçado

Retroceda pelo menos dez anos no tempo e esqueça qualquer evolução narrativa ou construção de roteiro realizadas entre os muitos filmes de super-heróis já produzidos, Venom consegue a proeza de não ser sobre nada, de não estabelecer coisa alguma e de sepultar qualquer chance de um universo de vilões da Sony.

Posso estar pegando pesado? Posso, mas vou me justificar, os problemas de Venom estão no coração do projeto, justamente na estrutura do roteiro, que parece não entender ou escolher com quem quer falar. Se é um filme para os fãs do Protetor Letal, então não precisava gastar mais de trinta minutos contando (e distorcendo) a vida de Eddie Brock, se era para abranger para um público novo, que não conhece o “anti-herói”, também não precisava gastar esse tempo com tantas cenas aleatórias, diálogos sem qualquer propósito, para depois não explicar absolutamente nada dos “poderes” e das motivações do Simbionte, que desastre. O que falta para Venom é justamente um conflito, aparentemente esquecido e relembrado apenas nos últimos minutos, para ser resolvido em poucos e ligeiros instantes, sem algo concreto para resolver, as aventuras e descobertas do protagonista não fazem sentido algum e soam aleatórias.


Outro ponto crítico, e isso pode ser uma decisão dos produtores, é a ausência total das consequências violentas e a inocência visual empregada num filme que tinha tudo para ser mais pesado e “marginal”, o longa corta toda e qualquer cena mais violenta e não vimos uma gota de sangue apesar das inúmeras lâminas, perfurações e cabeças decepadas. As perseguições e todas as desastrosas consequências passam despercebidas das autoridades, assim como a presença de um ser gigantesco e anormal destruindo uma cidade durante a fuga.


Engraçado, mas inofensivo, Venom não faz questão de estabelecer relação com qualquer outro universo além do seu próprio, nem mesmo com o Homem Aranha, que agora está balançando entre teias da Sony e Disney.

Tom Hardy se diverte no papel e dá o melhor que tem dentro das possibilidades estabelecidas. É nítida a sensação do ator de quero mais e sua relação com Venom é divertida e orgânica, apesar de controversa. O Eddie Brock criado para Hardy é, ao mesmo tempo, um jornalista descolado e 100% seguro de si, noivo de uma bem sucedida advogada e um cara boa praça, caridoso e amigão da vizinhança (lembrou de alguém?), tudo isso torna totalmente inverossímil o segundo e terceiro ato onde Eddie é um perdedor, inclusive ressaltado por Venom, um cara a margem da sociedade, injustiçado e pedante. Brock nunca foi um herói nos quadrinhos, ele até começa bem com sua carreira jornalística no Clarim Diário, mas a ambição e inveja sempre foram seus principais condutores e, por isso, entre outras coisas, Venom o escolhe como hospedeiro, dito isso, qualquer outra tentativa de apresentar um personagem totalmente diferente já torce bocas e desconfianças para um filme despreocupado em se fazer fiel às bases do vilão.

Um filme sobre um vilão que se transforma numa relação de amizade entre o garotinho perdido e seu monstro de estimação, Venom tinha a oportunidade e a liberdade para construir um estilo único de “filmes de vilões”, explorar mais o lado sombrio e trazer novidades como Deadpool fez na Fox, saindo da caixinha Marvel Studios, mas o longa se fecha, não assume a vilania e tenta a todo custo que você encontre graça nessa construção do anti-herói desajeitada.

Venom pode ser divertido em alguns momentos, apresenta efeitos visuais bem polidos e tem uma boa atuação de Tom Hardy, falha em direção e roteiro, não estabelece conflitos e termina por ser uma lambança total, que não se decide em momento algum.

 

Avaliação do Cinéfilos Anônimos
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[Total: 5 Média: 3.4]

Apenas um homem que faz tudo pela "família", Publicitário, crítico de Cinema e fundador do Cinéfilos Anônimos, bom em fazer propostas irrecusáveis e Lasanhas bolonhesa.